12323 A raiva viral - Oene
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A raiva viral


Por que ajudamos a viralizar as coisas que nos irritam? Essa e outras questões na última newsletter.

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Olá, amigos, tudo bem? Pedro aqui, milhares de quilômetros distante do caldeirão que virou o Brasil domingo. Agora com ânimos menos exaltados, podemos colocar na lista de leitura algumas coisas legais para iluminar os dias que virão? Ótimo. Camilla Costa (CC) e Leandro Beguoci (LB) me acompanham na
seleção.

E ah, na sexta-feira discutiremos os protestos e como as pessoas daqui se engajam na política em mais um episódio dO Norte, o nosso podcast. Vocês tem ouvido? O último, sobre infraestrutura, foi bem legal. Juro pra vocês. Ouçam lá.

Agora vamos ler coisas (ou marcar para ler depois e ler depois):

 

E a reforma política? – “O que precisamos mesmo é de uma reforma política”, foi algo que ouvi bastante das pessoas que não foram às manifestações, mas que queriam se mostrar engajadas. E concordo que precisamos de uma, mas pedir “reforma política” é como pedir “fim da corrupção”. Se não for específica, não adianta de nada. É muito importante saber quais são as principais reformas em pauta, na comissão que discute isso, e o que cada deputado pensa sobre elas, como o G1 fez. Porque o mais provável é que a reforma saia de lá mesmo.

Aproveitando, eu e o Leandro discutimos longamente isso em um podcast, ano passado, na época em que Dilma chamou a reforma política de “a mãe de todas as reformas”. Comparamos ali as ideias em voga com o que é feito em outros países. (PB)


Esse vídeo vai te deixar muito bravo – “A raiva atravessa o seu sistema imunológico mental e faz você compartilhá-la como poucas coisas. E saber das suas limitações é fundamental para uma boa saúde mental”, diz CGP Grey neste absolutamente excelente vídeo.

Ele se baseia em um estudo recente e bem comentado, “What Makes Online Content Go Viral?”, para explorar por que algumas ideias se espalham mais (e mais rápido) que as outras e por que compartilhamos tanto lixo, tudo usando uma genial analogia de “germes mentais”. A cereja do bolo é a explicação de por que quase que automaticamente compartilhamos coisas que nos dão raiva, e como isso gera a criação de mentiras no caminho. Perfeito para os nosso dias. (PB)


Por que não ligamos mais para as mortes na Amazônia? – No mundo da gourmetização e da “mania dos orgânicos” que vivemos nas capitais, a ideia que temos de “desenvolvimento sustentável” é provavelmente a de algo meio utópico. Esquecemos – ou simplesmente não sabemos – que onde a batalha do desenvolvimento sustentável é realmente travada morrem pessoas todos os dias. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de 2005 a 2014, 325 pessoas foram vítimas de assassinatos motivados por conflitos agrários no Brasil. Mais da metade destes casos (67,3%) aconteceram na Amazônia Legal. Parte das vítimas são ativistas do desenvolvimento sustentável e do uso consciente dos recursos naturais.

Esse texto do Greenpeace lembra que, dez anos após o assassinato da missionária Dorothy Stang no Pará, cujos mandantes não foram punidos, continua alta a taxa de crimes na região motivada pela terra e contra a floresta. E por que a gente não se importa? Stephen Kurczy, um correspondente americano no Brasil, se fez essa pergunta há alguns meses, ainda durante a campanha, quando Marina parecia ter chances. Kurczy foi a Xapuri para relembrar Chico Mendes, reconhecido internacionalmente e bem pouco lembrado no Brasil. O que ele encontrou: um museu chinfrim e uma população pouco “orgulhosa” do ativismo de seu membro mais ilustre – mas bem próxima dos seus assassinos, que continuam morando ali e dando as cartas na cidade. O texto, vale lembrar, é escrito por um estrangeiro, que tem algumas ideias
bastante simplistas sobre “como as coisas deveriam ser” e sobre o tipo de esperança que Marina Silva representava. Mesmo assim, a experiência em Xapuri é bastante reveladora, inclusive sobre a dificuldade de ativistas se tornarem “heróis nacionais” no Brasil. (CC)


A indústria de bebidas x os formadores de opinião – Depois da tragédia em Bauru, onde um rapaz morreu em uma competição para ver quem bebia mais vodca, o Marcos Nogueira, jornalista especializado em gastronomia (especialmente bebidas) escreveu um post falando de que um dos melhores antídotos para a bebedeira desenfreada é beber coisas melhores (e mais caras). Diz o Marcão:

Em algum momento da vida, a pessoa descobre que ficar doidão não é o único prazer envolvido no ato de beber. Ela passa a sentir gostos e aromas na bebida. Torna-se mais seletiva. Toma mais tempo entre um gole e outro. Escolhe bebidas mais caras. Como consequência disso tudo, bebe menos. É melhor que esse processo aconteça cedo. Se o seu filho ou a sua filha (maior de 18 anos, que fique claro!) toma muita bebida vagabunda, apresente-lhe um bom vinho ou cerveja. Se você é o(a) pirralho(a) bebum em questão, experimente coisas de qualidade. Uma hora ou outra a transformação acontece. É um caminho sem volta — e muito, mas muito mais seguro.

É claro que o discurso anti-bebedeira pode resvalar no moralismo hipócrita. Porque há gente que bebe para ficar meio boba (ou “feliz”), como nos lembra aquele texto da Esquire de 2009, defendendo o efeito na consciência de “até 3 drinks”.

Mas diante daquela tragédia (e de tantas relacionadas ao álcool), é realmente importante rediscutir a relação com a bebida. De toda a sociedade. Há uma boa chance de você ter lido o texto do Guilherme Valadares no Papo de Homem sobre isso (tem mais de 300 mil likes!), mas vale voltar a ele:

Não fazer piadas com quem quiser beber pouco (ou nada) é uma guerrilha silenciosa em favor de uma cultura mais lúcida de relação com o álcool. Em especial, evite as piadas que associem isso a ser fresco, gay, mocinha. Elas reforçam uma ideia de masculinidade limitada.

A quem vier com papo de que você agora está todo politicamente correto, diga que não, que contrariar toda uma cultura que estimula homens a beberem como animais, em um país com 5.8 milhões de alcoólatras, no qual pessoas se matam bêbadas no trânsito todos os dias, sem falar nas brigas, estupros, abusos e violências em lares, festas, bares, becos e estádios, é, na bem da verdade, subversivo pra caralho.

(PB)


Você está farto(a) de opiniões sobre o mesmo assunto? – Você não está só. Jess Zimmerman, no Guardian, fala da fadiga de opinião:

O mundo espera que a gente consuma e produza opiniões com um entusiasmo e confiança que é totalmente desproporcional em relação ao quanto que as opiniões realmente valem. Afinal, nós somos meio burros sobre a maioria das coisas. A informação pode ser cada vez mais fácil de ser acessada, mas o cérebro tem limites de fábrica. (…) Todo mundo está exausto de pensar algo sobre tudo. E todo mundo está ainda mais exausto por ver que todo mundo está pensando sobre tudo.

O Oene nasceu um pouco com essa preocupação na cabeça, para ser a janela contra todo esse ruído. #Tamojunto. Mas o que fazer, além de ter uma curadoria melhor? Zimmerman tem algumas soluções curiosas, como fazer o (¯_(ツ)_/¯) mais vezes. Praticar o “não sei o que dizer” pode ser ótimo. (LB)


Twitter e o pornô de vingança – O Twitter proibiu oficialmente o revenge porn no site. Imagens e fotos íntimas não consentidas serão prontamente removidas – se a vítima solicitar, e se os agressores não distribuírem cópias. Ou seja: apesar de ser uma medida a ser comemorada, a Wired nos lembra as suas falhas e os desafios de fazer isso funcionar.

Em última instância, erradicar esse tipo de comportamento abusivo pode ser impossível sem mudar fundamentalmente o próprio Twitter. O compromisso do
serviço com o anonimato e a privacidade de seus usuários causa diversas dores-de-cabeça e assédios, sim. Mas ao mesmo tempo faz com que o Twitter seja
uma ferramenta valiosa para movimentos políticos como a Primavera Árabe. É uma situação sem uma resposta clara. As mesmas políticas que permitem a
segurança de alguns usuários deixam outros expostos.

O que leva a uma discussão maior. Quão anônima deve ser a web? (CC)


A mais bem-embasada previsão sobre o futuro da tecnologia – Ou, ao menos, sobre o futuro das 4 empresas dominantes de tecnologia hoje: Amazon, Apple, Facebook e Google. Eu tenho certa preguiça e desconfiança de gurus de tendências em conferências de tecnologia, mas Scott Galloway, da NYU, pinta em 15 minutos um quadro tão incrivelmente factível e surpreendente, que me fez repensar várias certezas que tinha sobre as principais empresas que dominam nossa vida digital.

Ele sugere que duas delas vão entrar em declínio (a não ser que façam algo muito diferente) e duas crescerão rapidamente. Faça suas apostas antes de assistir. E use pausas para absorver toda a informação. O cara pode estar errado, mas tudo faz bastante sentido. (PB)

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