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Agradeça ao Custo Brasil


Na primeira das 3 partes sobre o futuro do (des)emprego, explicamos por que ainda não estamos em crise.


 

Uma enorme parte dos países desenvolvidos lida com taxas de desemprego elevadíssimas, que teimam em não cair. Estados Unidos e Europa já voltaram a crescer depois da crise de 2008, alguns em ritmo invejável para nós aqui. Mas por que ainda há tanta gente fora do mercado de trabalho? “Será que o Brasil tem a resposta?”, se perguntou Joe Nocera, um dos principais articulistas do New York Times, há algumas semanas. O americano acha que o mundo desenvolvido deveria olhar com mais carinho para a nossa economia que, segundo ele, “não passa muito tempo preocupada em crescer apenas por crescer, mas, ao contrário, conecta o crescimento ao objetivo de aliviar a pobreza e aumentar a classe média”.

O artigo de Nocera foi celebrado por governistas, especialmente porque ele diz que os críticos da política econômica brasileira (especialmente os locais) são terrivelmente pessimistas, e fecha com a seguinte questão retórica: “Qual é o sentido de ter crescimento econômico se ninguém tem um emprego?”

É compreensível ver que o modelo gerador de emprego, e não necessariamente de crescimento pelo crescimento, pareça ser “a resposta”. Afinal, os EUA estão vendo a desigualdade aumentar e a classe média ser esmagada justamente por causa dos ganhos de eficiência, de máquinas e processos. Com mais gente empregada e consumindo, como no Brasil, o bolo cresce para todo mundo mais ou menos na mesma velocidade.

Mas até quando isso dura? Ou, mais especificamente: em que empregos estamos apostando? O risco de abraçar uma política de geração de empregos para gerar mais consumo, sem olhar para a sociedade que estamos desenhando no futuro, é arriscada. Porque, tento demonstrar aqui, se o Brasil melhorar em termos de sociedade e eficiência, uma quantidade gigantesca de empregos que existem hoje desaparecerão. Será que não devemos ficar um pouco mais preocupados?

Dividi o texto em três partes: a primeira fala do caso brasileiro. A segunda, sobre o impacto da tecnologia na produtividade e no emprego e, por último, aponto algumas saídas pouco discutidas para a questão.

 

A greve que mostrou nossa sujeira

A greve dos garis no Rio, em pleno Carnaval, deu visibilidade à categoria e a seu salário indigno. E serviu para ver que, sem os 15 mil garis trabalhando, a paisagem carioca fica severamente emporcalhada. E isso não é privilégio do Rio, é claro. Para (ao menos tentar) deixar as ruas e calçadas mais limpas há algo como 1 milhão de “trabalhadores de limpeza e conservação de áreas públicas” no Brasil inteiro[1]. Esses são os limpadores com carteira assinada e tudo. Os catadores de lixo informais são algo entre 300 mil e 1 milhão no País. Ou, dando um senso de proporção: 0,5% da população brasileira é formada por garis.

A greve serviu (espero) para que as pessoas apreciassem o importantíssimo trabalho de deixar as cidades mais habitáveis. Mas também funcionou como gancho para surgirem relatos aqui e ali de como são as ruas na Alemanha ou no Japão – onde praticamente não há varredores de rua como no nosso país. E aí algumas pessoas pararam para pensar no óbvio: os garis são necessários no Brasil porque somos um povo bem mal-educado na hora de respeitar os espaços públicos. Em todas as classes sociais, diga-se: até o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, foi flagrando jogando lixo na rua.

Então, é importante respeitarmos a profissão e os protestos por uma boa remuneração. Mas, no limite, não podemos concordar que, como sociedade, estaríamos melhor se precisássemos de menos garis? Perderíamos alguns empregos, sim, mas isso não seria um sinal de progresso social? Eu não consigo parar de pensar nisso toda vez que o nosso governo comemora a situação de quase pleno emprego (bastante discutível, mais sobre isso depois). Quando você começar a fazer a conta de quantas vagas são geradas por especificidades (para não dizer atraso social) do Brasil, uma pergunta é inevitável: qual seria o tamanho do nosso desemprego se fôssemos mais desenvolvidos, como queremos ser? Enquanto você digere o fato de que quase 1% da nossa população economicamente ativa (incluindo formais e informais) está cuidando diretamente do lixo, vamos a outros números.

Há 500 mil motoboys apenas no estado de São Paulo[2]. E eles só existem, em número tão grande, porque A) O trânsito nas grandes cidades brasileiras é péssimo, B) A cultura brasileira é cartorialista e adora papeladas com assinaturas, C) Somos desorganizados com prazos, D) Leis básicas de trânsito não são respeitadas e não há punição. Se o Brasil fosse um país mais agradável de se viver, teríamos menos pessoas trabalhando como motoboys, imagino.

O X da questão: o tipo de emprego sendo gerado no Brasil não tem muita segurança, em todos os níveis. (Foto: Felipe Braga/Flickr)

O X da questão: o tipo de emprego sendo gerado no Brasil não tem muita segurança, em todos os níveis. (Foto: Felipe Braga/Flickr)

 

A discussão recente sobre a nova lei que regulamenta a profissão de empregados domésticos também levantou uma discussão parecida: ficamos sabendo que há 7,2 milhões de empregados domésticos[3] no Brasil. Não temos números da China para cravar que o Brasil tem a maior população de domésticas do planeta, mas certamente tem uma das maiores. Chegamos a esse cenário porque, como disse essa bela reportagem da Época em 2012, “o mercado continuou dependente dos bolsões de pobreza, da desigualdade de renda entre regiões e do número de adultos sem instrução”. A situação melhorou, ou está melhorando, nos lugares pobres que “exportavam” essas pessoas e há cada vez menos gente querendo trabalhar em uma função sem muita perspectiva de crescimento. O que é bom, acho que podemos concordar. Mas ainda é muita gente que serve ao vício brasileiro de precisar ser servido.

Aliás, como gostamos de que alguém faça coisas pra gente, não é? Em todo o Brasil, são 500 mil frentistas[4]. Quem alugou um carro em algum país do hemisfério norte já deve ter ficado naquela situação chata de não saber o que fazer na frente de uma bomba – e nem ter alguém por perto para perguntar. O conceito de “self-service” passa por vários setores das economias de países desenvolvidos. Não só é cada vez mais comum ver “self-checkout” em vez de caixas nos supermercados, como o conceito de “empacotador” inexiste há décadas. Enquanto isso, por aqui há uma norma do Ministério do Trabalho que diz que é preciso ter pelo menos um empacotador a cada 3 caixas[5] – em supermercados mais “chiques” daqui de São Paulo há um por caixa e alguns funcionários extras para ajudar a levar até o carro. Novamente: eu não quero aqui desprezar o trabalho honesto de gente que faz a vida de muita gente mais fácil e agradável – estou interessado em um exercício comparativo, apenas. Que nem sempre é fácil.

Eu não achei números para ver quantos garçons trabalham por metro quadrado de restaurante no Brasil, mas quem já foi a basicamente qualquer país da Europa (ou mesmo nos vizinhos Argentina e Chile) deve ter se impressionado com quão menos gente trabalha para levar a comida à nossa mesa. A explicação, como disse o Renato Figueiredo dia desses: “o brasileiro é exigentíssimo com o serviço, e por vezes exige do garçom uma atenção para assuntos que vão além de sua função: levar até a mesa, ser simpático à dúvida e indecisão, ser solícito à pressa e não apenas explicar os pratos, mas sugerir o melhor custo-benefício”. Muitos exigem que os garçons não apenas sirvam, mas sejam os servos temporários. Gente que reclama quando os garçons começam a levantar as cadeiras e lavar o lugar enquanto ainda estão jantando. “Nossa, vão expulsar a gente daqui!”, pensam os patrões brasileiros, ignorando o horário do funcionamento do transporte público.

Adoramos ser servidos, por muita gente, mas de vez em quando nos ligamos e reclamamos que há gente ganhando a vida quando idealmente não haveria um trabalho, em uma criação forçada de intermediários. O mais chocante na riqueza do tal Rei do Camarote de meses atrás foi saber que ele conseguia juntar tanto dinheiro como dono de uma empresa de despachantes. É gente que ganha com a burocracia. Escrevi um artigo sobre o assunto na Superinteressante com alguns números do setor:

No Detran do Paraná, por exemplo, os 850 despachantes cadastrados são responsáveis por entrar com 70% dos processos. O que é natural: pouca gente tem tempo ou paciência para fazer por conta própria mudanças no cadastro de veículos ou recorrer de uma multa, indo até uma repartição que tem filas desde antes do expediente começar. No terminal de cargas do aeroporto de Guarulhos, onde chega grande parte das encomendas estrangeiras para o país, há entre 400 e 500 despachantes aduaneiros que prometem acelerar o processo de liberação do que estiver retido na Receita – e cobram cerca de 3% do valor da carga, que pode custar dezenas de milhares de reais. O presidente do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo, Marcos Farneze, mostrou que não tem muita pressa em ver o sistema ser mordenizado. “Claro que nós vivemos da burocracia. Quanto pior, melhor para nós”, reconheceu em entrevista recente ao jornal Estado de S. Paulo.

Recebi depois um email do sindicato de pessoas que trabalham em cartórios, falando da importância de seu trabalho, mas não me comovi. Como não me emocionei com as dificuldades dos flanelinhas. Eu sei que é um emprego duro, em condições climáticas adversas e sem muita segurança. Mas essa ocupação atrai muita gente, em qualquer lugar do Brasil, principalmente porque a situação para os motoristas que buscam uma vaga nas ruas é caótica. O Sindicato dos Guardadores de Carro do Rio registra 6 mil pessoas trabalhando na atividade[6]. Estamos falando apenas dos legalizados. Eles só existem, é claro, porque os espaços onde se pode estacionar são mal sinalizados e porque há um risco tremendo de ser roubado. E porque, claro, o transporte público deixa a desejar.

E falando nele: quem andou de ônibus em outros países, lembra onde estavam os cobradores? Normalmente paga-se a passagem ao motorista ou – mais comum – usa-se um cartão. Nós já temos a tecnologia e mesmo em cidades onde a adoção do bilhete único é maciça, como São Paulo, os cobradores mantêm seus empregos. Os 15 mil profissionais da categoria na cidade sabem que a sua função será extinta desde 2011, pelo menos, mas um acordo impede que eles sejam demitidos[7].

Menos de 8% dos usuários de ônibus de São Paulo paga passagem ao cobrador – Mas há 15 mil deles trabalhando nos ônibus. Foto: Igor Schutz / Flickr

E nem vamos falar – até porque faltam dados precisos – sobre o número excessivo de secretários e recepcionistas na hierarquia das empresas públicas e privadas. Só o Supremo Tribunal Federal tem 230 recepcionistas[8]. A tarefa de checar a agenda ou anotar recados é cada vez mais trivial, com as novas tecnologias, mas nós aqui ainda estamos comemorando vagas em carreiras absolutamente fadadas ao desaparecimento – ou ao downsizing eficiente.

O caso mais claro, que deriva de certa forma do secretariado, é o de atendente de telemarketing. Há 1,4 milhão de pessoas trabalhando na função no Brasil (por um salário médio de menos de mil Reais). O setor cresceu mais de 10% por ano nos últimos 12 anos[9] e os executivos ainda vêem fôlego. Mas só temos tanta gente trabalhando aqui nisso, pra começar, porque são poucos os países que falam português – não temos como exportar o atendimento para Bangladesh ou a Índia, como fazem os anglófonos. Some a isso a falta de educação – tanto dos consumidores, para conseguir informações por conta própria, e dos atendentes, por não saber o que fazer quando a ligação sai do script – e a qualidade ruim de muitos serviços e, pronto, temos mais um emprego que idealmente não existiria. Em um estudo da Universidade de Oxford bastante divulgado, os atendentes de Telemarketing estão na profissão que tem mais chances (99%, segundo os pesquisadores) de desaparecer nos próximos 40 anos. O atendimento por máquinas no Brasil – ou por email, com menos gente – ainda está engatinhando. Mas não tenha dúvidas de que o futuro onde essa função se extinguirá vai chegar.

E quando esse futuro chegar, o que vamos fazer? Quando jogarmos o lixo no lixo (separado), quando precisarmos assinar menos papéis, quando lavarmos a nossa própria louça, quando ficarmos honestos o suficiente para usarmos os caixas self-service, quando formos um país mais educado e eficiente, enfim, o que todo esse pessoal vai fazer? Por que não estamos pensando nisso? E se esses dados começam a alarmar você, como vamos começar a conversar sobre um possível desemprego em massa?

A política de criação de empregos

Parece absurdo falar de uma possível elevação do desemprego no Brasil – algum governista dirá que estou “torcendo contra”, quando é exatamente o contrário. Todo mundo quer ver seu país bem. E, para ele ficar bem, é preciso se preparar para isso. Quando escolhemos os dados daqui, especialmente se comparamos com outros países, parece que não há alternativa a não ser o otimismo: enquanto vários países da Europa estão com dois dígitos de desemprego, o Brasil criou 1,1 milhão de empregos em 2013, segundo o IBGE. Foram 14,1% menos vagas criadas do que no ano anterior, é verdade. Mas, ainda assim, o ministro do trabalho comemorou o resultado como um “milagre” e disse que “reza todos os dias” para que o feito se estenda para os próximos cinco anos.“Estamos gerando empregos razoáveis, se formos fazer comparação com o resto do mundo. Aí é que está o milagre brasileiro.”, disse Manoel Dias, em janeiro.

Mas não é um milagre. O governo quer emprego – para gerar mais consumo –, não importa que tipo de emprego seja: mal remunerado, precário, realizado em condições degradantes. Voltando à questão do lixo: o Ministério do Desenvolvimento Social, por exemplo, anunciou recentemente um programa de reciclagem em parceria com cooperativas que diz o seguinte: “Para receber os resíduos coletados, as associações devem ser constituídas formal e exclusivamente por catadores que tenham este trabalho como única fonte de renda. (…) A assinatura do decreto supre duas demandas crescentes da sociedade brasileira: a inclusão social por meio do trabalho e renda e o equilíbrio na exploração do meio ambiente.” Acho que é fácil imaginar um mesmo programa mais “eficiente”, sem os catadores-intermediários. Mas a geração de emprego é prioritária. E, dentro dos apoiadores do governo e mesmo alguns observadores externos, essa posição é celebrada. Mas qual é o limite dessa política?

Ninguém tem essa resposta, mas a verdade é que podemos estar mais próximos da exaustão deste caminho do que gostaríamos. Finalmente começamos nos últimos meses a questionar as próprias taxas de desemprego, já que as pesquisas apresentam números diferentes. Temos a Pnad Contínua (trimestral), que apontou desemprego de 7,4% em seu dado mais recente, enquanto a Pesquisa Mensal de Emprego, do IBGE, coloca o índice médio de 2013 em 5,4%, o menor, historicamente. Mas o Instituto mudou agora sua metodologia (antes, feito apenas em seis regiões metropolitanas), para ficar mais próxima da exigida pela Organização Internacional do Trabalho, e deve divulgar novos números no dia 28 de março (este artigo será atualizado). Será que seremos confrontados com uma realidade um pouco mais dura?

Outro problema dos índices de desemprego é definir quem exatamente está fora do mercado de trabalho. O IBGE define “força de trabalho” como o grupo dos que estão trabalhando ou estão “disponíveis para trabalhar”. No Brasil, há 61 milhões de pessoas que “não estão disponíveis” e, por isso, não são chamadas de desempregadas. Tirando os menores de 18 anos e os maiores de 60, há 30 milhões de brasileiros fora da força de trabalho por decisão própria. Então, a situação pode não ser tão milagrosa como sugere o ministro. E o problema, e isso é importantíssimo salientar, é a qualidade dos empregos gerados.

Que empregos são esses?

Deixe-me voltar aos garis. Porque eu comecei a pensar no assunto da última vez que estive em Barcelona e fiquei fascinado com o sistema de coleta de lixo lá. As lixeiras na rua são recolhidas através de um sistema futurista de sucção. É incrível mesmo, e vale até colocar esse vídeo:

O tratamento de lixo, de ponta a ponta, é eficiente. E, eficiência, neste mundo de hoje, é “usar o menor número de pessoas possível”. Fiquei impressionado quando estava lá e vi, de madrugada, o caminhão de lixo e seu braço mecânico controlado pelo motorista recolhendo rapidamente o que havia em um container. Puxei o celular do bolso e comecei a filmar, de tão maravilhado que estava (eu me maravilho com essas coisas). Era muito grande a distância dos nossos lixeiros, que correm catando sacos plásticos disformes e chorumentos e jogando na caçamba, versus esse modelo asséptico, mais digno, rápido e educativo para a população.

Meu cunhado, espanhol, que estava comigo na hora, percebeu meu espanto e falou algo como “se vocês fossem que nem a gente teriam desemprego pior que a Espanha”. Ele tinha acabado de voltar de uma viagem que fez pelo Brasil com minha irmã, e ficou abismado com a quantidade de pessoas trabalhando nos restaurantes, as babás, empregadas… Havia um pouco de piada na fala dele, mas só um pouco. Porque, de fato, lá não há cobradores, há muito menos garis e empregadas domésticas, não vi motoboys ou frentistas, os garçons são mais eficientes e não são necessários 5 vendedores em uma loja de 20 metros quadrados. Fiquei pensando um bocado nisso: se fôssemos um país tão “avançado” quanto a Espanha – que nem está no topo dos países desenvolvidos –, será que estaríamos com uma crise de desemprego pior que a que tivemos no início dos anos 90?

A minha conclusão – ou o início da conversa que é este ensaio – é que, no final das contas, estamos criando empregos precários. Bastam algumas mudanças – de comportamento ou tecnológicas – para que esses empregos desapareçam. Então, e ai? O que acontece com essas pessoas? Conseguiremos criar vagas com a mesma velocidade? Estamos preparando essas pessoas e os filhos delas para as mudanças que virão?

Essas são perguntas para o próximo capítulo. Por ora queria apenas lançar essa ideia, de que a estratégia do Brasil, que vem dando certo, é mais uma consequência do custo Brasil – econômico e social. Um pedaço da conta do “tudo é caro” por aqui está no excesso de pessoas trabalhando em diversos ramos e nos encargos pagos. Mas se não houvesse tanta gente empregada, não haveria tanto dinheiro circulando – e sendo redistribuído – na economia. Então, sim, Joe Nocera, nós “encontramos o caminho”. Um caminho que, em um olhar mais atento, é meio torto e esburacado e não sabemos exatamente para onde vai, é verdade.

No próximo ensaio, investigamos como a tecnologia, com seus apps e serviços disruptivos e gigantes como Facebook e Google, que usam o trabalho não-remunerado, ameaçam uma quantidade cada vez maior de empregos do setor de serviços. Tudo isso enquanto facilitam a nossa vida. Será que os “neo-luditas” tem razão para temer a tecnologia agora? Trarei bem mais números e opiniões dos dois campos.

E, na parte três, considerando que há uma mudança grande em curso, de extinção de uma grande parte das ocupações, discutimos algumas saídas. Será que basta “qualificar a mão de obra” e o mercado tratará de criar novos ofícios? E que tal empregar pessoas no governo e ONGs para melhorar o mundo? Trabalhar menos horas, talvez, para ter mais gente fazendo a mesma coisa? Ou, se continuarmos apostando no consumo como motor da economia, que tal levar algo como um Bolsa Família para mais gente? Essa ideia está sendo levada a sério em países como a Suiça, vejam só.

É uma conversa importante, que estamos começando.

Leia a parte 2.


  1. A bem da verdade, o número de garis parece que já está caindo. Segundo reportagem da Folha, entre 2003 e 2012, o número de pessoas registrada como “trabalhadores de limpeza e conservação de áreas públicas” caiu de 1,47 milhão para 941 mil. Um dos motivos pode ser que, como a função é cada vez mais terceirizada pelas prefeituras, algumas empresas registram seus funcionários de outras formas. Já o número de catadores é uma estimativa usada em diversas reportagens pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.  ↩
  2. É provavelmente a profissão que mais cresceu nos últimos 10 anos: são 1,5 milhão de profissionais de entrega com moto no Brasil, de acordo com o Sindimotosp – e apenas 92% são “regulares” (que fizeram o curso).  ↩
  3. Segundo a Organização Mundial de Trabalho, são 6,7 milhões de mulheres e 504 mil homens trabalhando como empregados domésticos. A Índia viria em segundo lugar, com 4,2 milhões (é bem verdade que o país também tem 13 milhões de escravos, e alguns desses devem estar cumprindo a função, não remunerados).  ↩
  4. Os frentistas brasileiros, de acordo com o Sindicato nacional da categoria têm uma profissão insalubre, que lida com constantes assaltos (que levaram a uma greve recente no DF), além de problemas de saúde (como pele e visão) por causa do contato com os solventes.  ↩
  5. No Rio Grande do Sul, todo supermercado com mais de 12 caixas precisa ter empacotador. Nacionalmente, há uma norma do Ministério do Trabalho sobre o assunto. Até havia dois projetos de lei querendo proibir que as pessoas que trabalham como caixas “exercessem a função de empacotador, concomitantemente”. Eles foram barrados ano passado.  ↩
  6. Há uma linha tênue entre o que é legal e o que é crime na função dos flanelinhas. No Rio, só em 2009, foram presos mais de 1.400 guardadores de carros.  ↩
  7. http://vejasp.abril.com.br/materia/cobrador-onibus-ameacada  ↩
  8. Além do número excessivo de recepcionistas, há 37 seguranças para cada ministro. Em 2012, uma reportagem da Economist causou uma certa comoção ao revelar que um ascensorista do Senado recebia um salário de R$ 17 mil. É difícil dizer o que é mais impressionante, se é um ascensorista no quadro ou o salário.  ↩
  9. http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2012/10/telemarketing-emprega–14-milhao-no-pais-veja-como-e-o-trabalho-no-setor.html  ↩
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