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Alguns breves textos para tentar entender o fenômeno Hugo Chávez


Você dificilmente conseguirá se afastar das piadas e opiniões estridentes envolvendo a morte de Hugo Chávez enquanto continuar lendo o Facebook e Twitter. Mas pela influência que teve na nossa região (para o bem e para o mal), o presidente venezuelano merece bem mais que 140 caracteres da sua atenção. É possível fazer, no calor […]

Você dificilmente conseguirá se afastar das piadas e opiniões estridentes envolvendo a morte de Hugo Chávez enquanto continuar lendo o Facebook e Twitter. Mas pela influência que teve na nossa região (para o bem e para o mal), o presidente venezuelano merece bem mais que 140 caracteres da sua atenção. É possível fazer, no calor do momento, alguma análise razoável e diferente? Achei algumas:

A do economista Flávio Comim, que escreveu em seu blog:

Os libertários e liberais vão classificá-lo como um tirano, e vão celebrar sua morte. Os marxistas vão chorar a perda de um grande líder e vão prestar suas homenagens. Dentro desses extremos, cada um de nós vai sentir mais ou menos sobre sua morte de acordo com a importância desses valores nas nossas vidas. E como eles são fundamentais, é normal que algumas dessas reações possam ser viscerais. Independente das contradições dos discursos e das práticas de Chavez é muito interessante observar as reações das pessoas a sua morte. Nossos comentários devem dizer muito mais sobre quem somos do que sobre Chavez.

Na Folha, Julia Sweig, diretora do Programa América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations fala da relação com Cuba e de como Chávez usava o petróleo para fortalecer a união dos países “bolivarianos”, a Alba.

As transferências dos fundos da Venezuela de assistência à Alba complementaram os Orçamentos de governos centrais, gerando benefícios diretos que foram sentidos para além do patronato político, sob a forma de novas rodovias, saúde e grades energéticas. Alguns benefícios escolhidos a esmo: a Telesur, o cancelamento da dívida do Haiti, o financiamento de muitos milhares de cirurgias oculares em países da Alba, realizadas por médicos cubanos.

No New York Times, William Neuman fala de como Chávez mudou a maneira com que os venezuelanos se enxergam:

“Ele fez com que pessoas que não sentiam que eram parte da democracia antes se sentirem parte do sistema”, diz Joy Olson, diretor do escritório do Washington Ofice On Latin America, um grupo de advocacia. “Isso não aconteceu em muitos países. Se você olhar para os Estados Unidos, pessoas pobres não sentem que são muito parte do sistema, e ele conseguiu isso.”

É uma dinâmica visível nas esquinas da capital Caracas, e em outras parte do país, onde comerciantes vendem cópias da Constituição e livretos com o texto das principais leis aprovadas pelo governo de Chávez. No último verão, uma nova legislação trabalhista era um best seller: um bartender de Caracas sentou atrás do balcão lendo uma cópia durante um momento de ócio; no metrô, operários e trabalhadores de escritório poderiam ser vistos lendo isso no caminho da casa para o trabalho.

Na parte mais factual, o G1 tem um belíssimo infográfico sobre a trajetória do venezuelano, enquanto O Globo tem um resumo mais modesto em imagens, mas com textos breves que explicam todas as grandes polêmicas em que o bolivariano se envolveu. Sobre as eleições de 2012, por exemplo:

A Venezuela chega às urnas com um índice de pobreza menor (hoje são 7% contra 29% de 1999); livre do analfabetismo; e com o maior salário mínimo da região (US$ 414). Mas analistas criticam os acordos com outros países, que comprometem até 50% do lucro do petróleo, e afirmam que o investimento na PDVSA é baixo (US$ 3 bilhões ao ano) para as necessidades da empresa. A explosão na refinaria de Amuay, com 39 mortos, reacendeu a discussão sobre o que críticos chamam de sucateamento da PDVSA, num país cuja economia gira em torno do petróleo. O desemprego está em 7,9%, e 70% dos produtos que o país consome são importados.

O Valor Econômico tem este infográfico que compara os índices de desenvolvimento antes e depois de Chávez:

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o Drunkeynesian (ótimo blog de economia) olhou todas as informações disponíveis e chegou a essa conclusão:

Durante toda a era Chávez, o crescimento do PIB da Venezuela foi menor do que o da América Latina e muito menor do que dos produtores de petróleo. O PIB per capita cresceu 27%, contra uma alta de quase 70% para o continente. Como proporção do PIB mundial, a economia do país ficou estagnada. A dívida pública bruta aumentou (assim como as reservas internacionais), a inflação caiu (mas ainda ficou alta demais para o padrão do resto do mundo) e as exportações de petróleo aumentaram cinco vezes (aumento médio dos outros produtores: nove vezes). No período, o preço do barril de petróleo aumentou 7,5 vezes. Por essa ótica, o fracasso da era Chávez é enorme, desperdício de uma janela de oportunidade que não deve ocorrer outra vez nesta geração

Você pode no final, depois de examinar as provas achar que não, os fins não justificam os meios – e francamente esta é a minha opinião. Para todas as conquistas de Chávez, há um presidente que perseguiu a oposição e a mídia; que apoiou de maneira efusiva (inclusive com dinheiro público) ditadores como Fidel, Mugabe, Assad e Saddam; que permitiu um aumento de criminalidade sem precedentes (derrubando o mito que a redução de desigualdade sozinha acaba com a violência); que promoveu nacionalizações que afastaram investidores estrangeiros; e que jogou terrivelmente com os antagonismos (Nós x EUA; Pobres x burguesia) para ganhar votos.

Mas não podemos simplesmente jogar o experimento bolivariano fora, só porque algumas pessoas que eu particularmente detesto abraçam o chavismo. É importante estudar os efeitos de longo prazo da maneira com que ele usou as riquezas naturais para desenvolver laços com outros países, como valorizou a educação, com investimento muito maior em professores e escolas em tempo integral, como conseguiu acelerar a reforma agrária e dezenas de outras políticas que podem ser consideradas simplesmente populistas, mas que de fato melhoraram a vida de muitos. Posso ser acusado de relativista extremo, mas acho que é importante fugir um pouco da gritaria para buscar entender como se deu esse fenômeno, como um presidente de um país relativamente pequeno, apenas a 33ª economia do mundo, ganhou tanta projeção internacional. Como e por quê suas ideias reverberaram tanto aqui, e o que a gente pode aprender do país que conseguiu baixar o índice Gini, que mede a desigualdade social, para 0,41 (o menor da América Latina). Estudemos.

Foto: Bernardo Londoy, Flickr.

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