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Aprendendo a debater com o papa Francisco


Nossas discussões online muitas vezes se perdem em rótulos e caricaturas. O papa mostra como podemos melhorar isso.

O papa Francisco conseguiu algo difícil de prever para um sumo pontífice – pelo menos nas últimas duas décadas. Ele foi das figuras públicas mais celebradas do ano dentro e, aqui reside a novidade, fora da Igreja Católica.

Sem medo de dizer o que pensa sobre a Igreja para fora da Igreja, com ideias surpreendentemente ponderadas para o que nos acostumamos a esperar de um papa em assuntos como pobreza, poder e comportamento, ele acabou entrando no que a gente chama de “polêmicas” – mas com uma suavidade e elegância raramente vistas por ai.

Depois de ouvirem críticas do papa aos altos lucros de empresários e seguidos chamados para a causa da diminuição da desigualdade, liberais acusaram-no de ser marxista. Ele respondeu da seguinte forma:

“A ideologia marxista é errada, mas, na minha vida, conheci muitos marxistas que são boas pessoas, então não me sinto ofendido”.

Talvez ele me surpreenda na Missa do Galo, logo mais, mas essa foi a maior lição papal do ano, que gostaria que entrasse e ficasse no seu coraçãozinho – mesmo que ateu – para este potencialmente conturbado ano de 2014. A resposta de Francisco parece trivial, mas pense um pouco sobre.

Ao dizer que discorda do marxismo mas que conheceu “muitos marxistas que são boas pessoas”, ele faz algo que deveria ser mais comum: dissociar uma ideologia da pessoa. Em tempos de debates políticos superficiais na internet, é um exemplo valioso. “Governista”, “neoliberal”, “esquerdinha”, “conservador” (ou variações, como “reaça”) são jogados nos tais “debates” (aspas bem grandes) como xingamentos que encerram o argumento. Parece impossível debater com alguém “porque votou no PT” ou porque “apoia a pena de morte”. Precisamos reabrir esses debates com o “inimigo”, que não deve ser visto como tal – apenas como quem pensa diferente. Boas pessoas, inclusive.

Ao desviar do carimbo vermelho, Francisco voltou rapidamente o foco do debate ao assunto (a crise do capitalismo), e não ao rótulo sobre sua opinião. Ele dizia algo como “chame-me do que quiser, isso não é importante, mas o que eu estou dizendo é que neste tópico, eu penso assim.”

Nós gastamos tempo demais com os rótulos. Somos péssimos, péssimos, em atribuí-los. E parece que estamos cada vez piores. Tanto não sabemos como tachar alguém pelo seu viés ideológico (o que já seria discutível por si só), que recorremos a “ironias” para fazê-lo. Aí, amigos, ninguém entende coisa alguma. Considere que, em 2013, por exemplo, fizeram sucesso na rede aquele texto de Antônio Prata, ou o outro de Gregório Duvivier, que ganharam réplica de Rodrigo Constantino e adjacências. O que eles – todos – faziam era não exatamente atacar alguém “de direita” ou “de esquerda”. Era atacar a concepção de alguém que levasse certos preceitos ideológicos às últimas consequências (com o asterisco de “ah, é uma ironia, então vale exagerar”). As pessoas retratadas pelos textos irônicos praticamente não existem, ou não merecem nosso tempo de argumentação. São caricaturas[1].

Quando saímos da argumentação de ideias e passamos a debater rótulos, precisamos que os rótulos façam sentido. E para eles realmente fazerem sentido numa lógica de “confronto”, precisamos exagerar as posições. Como fez o conservador Rush Limbaugh, que leu as mensagens do papa como um “chamado ao controle estatal dos mercados”. Obviamente não era isso.

O papa Francisco é um jesuíta – e nunca, nunca ache que vá “ganhar” a discussão de um jesuíta com argumentos simplórios. Esqueça aquela história que você aprendeu no colégio, de infantaria da Igreja. Os jesuítas formam a ordem religiosa mais sofisticada, intelectualizada e rigorosa da igreja[2]. Suas revistas e publicações, como a Civiltà Cattolica, trazem alguns dos debates mais interessantes sobre religião e sociedade do mundo. Mesmo quando discordam dos jesuítas, os papas têm muitas dificuldades para contrariá-los. Era natural que um papa jesuíta melhorasse o debate.

Antes de descartar uma ideia pelo seu autor, o papa – e os jesuítas – estão mais interessados na ideia em si. Basta lembrar que o Concílio Vaticano Segundo, que modernizou a Igreja, teve ampla influência jesuíta. Nos debates, não ficou ninguém de fora – judeus, ateus, estudiosos de Nietzsche e de Marx, todos puderam dar algum tipo de pitaco. Significa que todos os argumentos foram aceitos? Não. Mas debater ideias e conceitos nos tiram das nossas posições petrificadas.

Francisco então vê alguma validade na crítica marxista do capitalismo. Mas o seu discurso tem mais nuance: ele pede uma visão mais antropológica, e menos centrada no dinheiro, na formação de políticas públicas. Em seu Evangelii Gaudium, ele escreveu:

A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da antiguidade: “Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos.” Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar!

E não é que faz sentido? Muita gente moderada, à direita e à esquerda, concordaria com o papa. A parte sobre desigualdade do Evangelii Gaudium é realmente uma leitura interessante, e não pode ser descartada porque é escrita por alguém da igreja, ou porque ela resvala no “marxismo”. Precisamos discutir ideias. E podemos – por favor, devemos – discordar e avançar no debate.

Estes são os nossos votos aqui no Oene. Em 2014 teremos debates importantíssimos, decisivos para o nosso futuro. Será que podemos nos concentrar especialmente nas ideias, e não na cor, no lado, ou na pessoa que as traz? Se formos discutir com pessoas (ou as próprias), por favor, podemos escolher gente relevante, com ideias que façam algum sentido? Ou podemos, ao menos, tentar entender de onde aquela argumentação que discordamos veio para – com alguma empatia – tentar entender as ideias, antes de atacá-las?

Sim, nós podemos.


  1. Acreditamos aqui que um dos maiores problemas do debate político no Brasil está em “discutir com espantalhos”, ou argumentos do tipo straw man. Voltaremos ao assunto em breve, mas leia por ora este artigo sensacional de Ta-Nehisi Coates.  ↩
  2. Agradeço ao Leandro Beguoci, o Ilze Scamparini da Pompéia, sobre todos os insights papais. O homem entende de Vaticano como poucos aqui.  ↩
some random quote lost in here.