beta

Bem-vindo ao Oene, agora sob nova direção


Em Antifragile, seu livro mais recente, o ensaísta-multimilionário Nassim Taleb fala que a mídia incorre constantemente na iatrogenia – termo normalmente usado na medicina, para descrever quando o médico, tentando tratar e ajudar o paciente, acaba piorando a sua saúde: “Eles [os jornais] precisam encher as suas páginas todos os dias com uma série de […]

Em Antifragile, seu livro mais recente, o ensaísta-multimilionário Nassim Taleb fala que a mídia incorre constantemente na iatrogenia – termo normalmente usado na medicina, para descrever quando o médico, tentando tratar e ajudar o paciente, acaba piorando a sua saúde: “Eles [os jornais] precisam encher as suas páginas todos os dias com uma série de notícias – particularmente as notícias apresentadas por outros jornais. Mas para fazer a coisa certa, eles deveriam aprender a ficar em silêncio na ausência de notícias significativas. Os jornais deveriam ter duas linhas em alguns dias, 200 páginas em outros – mantendo a proporção adequada de sinal e ruído. Mas é claro que eles querem fazer dinheiro e precisam vender pra gente junk food. E junk food é iatrogênica.”

Li isso uma semana antes de o Oene estrear, mais ou menos quando relia coisas sobre Infobesidade para o meu livro. Tentava entender por que não só há tantas bobagens que não vão mudar a vida de qualquer pessoa nos jornais e portais, mas qual a razão de nós, seres razoavelmente inteligentes, clicarmos em todas aquelas “notícias” do Ego, F5, tragédias, artigos inflamados sobre futebol ou política que nos arrependemos antes da página carregar completamente. Achei novamente a analogia com alimentação em uma fala do sociólogo Danah Boyd, na Web 2.0 Expo em 2009:

“Nossos corpos são programados para consumir gordura e açúcar porque eles são raros na natureza… Da mesma forma, nós estamos biologicamente programados para prestar atenção em coisas que nos estimulam: conteúdo que é nojento, sexual ou fofoca que é humilhante, embaraçosa, ou ofensiva. Se não tomarmos cuidados, vamos desenvolver o equivalente psicológico da obesidade. Nós vamos descobrir que estamos consumindo o tipo de conteúdo que é o menos benéfico para a sociedade como um todo.”

O articulista Hélio Schwartsman, da Folha, foi na mesma linha ao dizer que as notícias gordurosas e mal-passadas eram favorecidas pelos leitores por fazerem uso do nosso ancestral sistema de alertas: “E, num contexto em que centenas, talvez milhares de notícias disputam diuturnamente nossa atenção, são justamente aquelas que despertam nossos instintos de defesa –isto é, as negativas– que acabam vencendo.”

Essas opiniões sobre excesso de informação martelaram na minha cabeça quando o Oene estava saindo do papel na F451. E muito por causa delas ficou claro que não conseguiríamos forçar a barra para produzir um grande número de posts por dia – afinal, as pessoas provavelmente já teriam lido as novidades em outros sites e a equipe era pequena (eu e Manu) para ir à rua atrás de grandes reportagens originais com uma frequência “de internet”. Já com o site no ar, decidimos criar um guia do que seria post. Ficou assim:

A) Tem que ser algo que possa interessar aos leitores e que você gostaria de compartilhar com o maior número de amigos. (Ou seja: é interessante, para temos audiência, pegar um “assunto do momento”, mas o filtro maior é: “temos orgulho do que escrevemos a ponto de encher o saco dos nossos amigos com links?”)

B) O post precisa ter alguma abordagem que não encontramos na grande mídia brasileira, ou que está abaixo do radar.

C) Para escrever, precisamos ou ter um domínio relativo sobre o assunto, ou gastar mais tempo pesquisando ou acharmos alguém que tenha. Não podemos escrever bobagem ou sermos muito superficiais.

Outros sites já fazem isso, você pode argumentar, mesmo que dentro de um monte de outras notícias, através de blogs e articulistas. Não abracei uma “missão quixotesca”, nem queríamos salvar o jornalismo por que ele não precisa exatamente ser “salvo”, há bastante gente fazendo o que queremos fazer melhor do que a gente, normalmente em revistas. O nosso diferencial, além de uma pegada slow news, seria uma tentativa de razoabilidade. Depois de décadas de um jornalismo ou excessivamente imparcial ou, pior, aparentemente imparcial mas tendencioso, a internet veio e trouxe com ela muitas vozes, o que é salutar, mas muitas das que acabaram se destacando, para o bem ou para o mal, tinham algo como um excesso de opinião. “Há muita gente falando o que pensa na internet e pouca gente pensando sobre o que fala”, diagnosticou alguma pessoa muito espirituosa, que eu ouvi de segunda mão do Inagaki.

Queríamos ajudar a mudar essa panorama e, bem, falhamos. Conseguimos mais de 100 mil visitas no primeiro mês, o que é ótimo, acertamos aqui e ali, mas nem sempre os três critérios mágicos foram seguidos, e tivemos alguns bloqueios criativos no caminho. Também não conseguimos traçar um plano comercial decente. Sabíamos que o prazo para verificar se o experimento digital daria certo era curto, mas ele foi curto demais.

Isso soa como um post de despedida, mas não é. Continue, por favor.

Pois bem: a F451, a editora digital razoavelmente pequena que pagou os nossos salários nesses meses de gestação e no mês e meio de Oene, resolveu acertar a estratégia para os outros sites e, bem, como eles chamam, “focar”. Em um ano complicado para a publicidade, a F451 iria (vai) concentrar os esforços em menos e mais bem-sucedidos sites (Gizmodo e Jalopnik, por exemplo), para melhorá-los, criar caixa, e faturar um pouco mais antes de experimentar com propriedades novas como o Oene – que seria, por design, deficitário pelo menos nos seis primeiros meses.

Então, me chamaram há algumas semanas para dizer que o Oene não estava no orçamento deste ano, nossos salários não cabiam. Como tinha mudado de cargo na empresa para cuidar especificamente do site, não tinha qualquer coisa de urgente a fazer, e pedi férias. A última coisa que fiz antes de sair foi transferir o site para um servidor que eu pagaria. Pedi que ele não saísse do ar, combinei que eu “cuidaria”, de alguma forma, do Oene, mesmo ele fora da empresa. Quando voltasse de férias, antes de assumir uma nova posição, tocaria o site como projeto paralelo.

Fiquei essas últimas semanas viajando (também literalmente) em como isso seria possível1. E cheguei a duas conclusões: a primeira é que seria impossível atingir o potencial do Oene, a ideia original, tratando o site como um projeto das horas vagas, e a segunda é que minhas habilidades e meus interesses seriam menos úteis à F451 hoje. Junte as duas coisas, e é isso: depois de 4 anos e meio, com bons três anos à frente do Gizmodo Brasil no currículo e um monte de coisa para me orgulhar, estou saindo da empresa – em bons termos, diga-se, até participei de uma pelada esses dias com o povo e ninguém saiu gravemente ferido. E, bem, até onde minhas economias e o meu parco conhecimento comercial deixar, o Oene é o projeto principal da minha vida jornalística agora. Vamos ver até onde eu consigo levar isso.

A Manu, minha companheira de Oene que já tinha sido vítima de um “projeto que editorialmente era bom mas comercialmente não foi pra frente”, o Jezebel Brasil, vai atrás de outros projetos (leia-se: lugares que consigam pagar o que ela merece). Então é um vôo momentaneamente solo. Estou atrás de pessoas que queiram escrever para cá também, vou dar um tapa no visual (sim, novo logo, entre outras coisas) e também estou em busca de gente inteligente que possa me ajudar a fazer dinheiro com isso. Enquanto, ou junto de tudo isso, escreverei algumas coisas por aqui que, espero, possam gerar boas e saudáveis discussões.

Obrigado pela preferência e paciência. Vai ser divertido. 😉


  1. “O que essa foto de café tem a ver, Pedro?” Bom, eu tirei essa foto em um café em Boston, mais ou menos no momento de epifania que este seria o caminho a seguir. E como novamente a minha casa será o meu escritório, tenho de dizer que o café daqui é melhor que o da firma, algo bem importante pra mim. =) 

some random quote lost in here.