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Buscando conhecimento


Na Newsletter da semana, links sobre anti-semitismo, as câmeras colocadas nos uniformes policiais, uma conferência de brasileiros em Harvard, a mudança da conversa sobre transgêneros e muito mais.

Olá, amigos, tudo bem? Pedro por aqui, curtindo a primavera novaiorquina. Vou contar um negócio pra vocês: semana passada estive em uma conferência organizada por estudantes de Harvard, e escrevi algumas reportagens para a Folha sobre o evento.

Mas elas não fazem justiça à complexidade das discussões que vi. E não sei se textos fariam. Porque há um valor incrível, e difícil de mensurar, em conferências, palestras, encontros, colóquios, ou o que seja, em ambientes criados para disseminar conhecimento. Parece muito etéreo isso, e não sei se foi toda a aura das salas imponentes de Harvard, mas a verdade é que fiquei fascinado, energizado, e sentindo que ganhei uns pontos de QI, de uma forma diferente.

Os 20 minutos em que José Serra (sim, acredite) discorreu sobre a desindustrialização, a hora que Celso Amorim usou para explicar o que mudou na política externa dos anos 90 para os 2000, o ministro Barroso, do STF, dando as suas ideias para reforma política, um painel de duas horas sobre democracia na internet, o maior especialista brasileiro em PPPs discutindo com um dos diretores do BNDEs… Foram grandes momentos, obsessivamente anotados no meu notebook, que um dia aparecerão em alguma matéria.

Saí do evento de dois dias com um misto de otimismo e tristeza. Goste ou não de algumas ideias dessas pessoas, o fato é que temos sim cabeças pensantes, capazes de oferecer uma visão de país. Mas não temos arena pública para que as ideias sejam disseminadas, fato lembrado por alguns dos convidados (lamentar sobre a rasura e polarização do Facebook era tema recorrente). A mídia brasileira (e nós, na mídia alternativa de blogs e Facebook) se concentra nas “aspas”, em alguma fala polêmica, mas raramente vê a floresta. Parece não haver tempo ou interesse para discutir os problemas maiores, mais a fundo.

Essa newsletter sempre foi uma tentativa de juntar os pedaços para de alguma forma suprir essa lacuna. Mas ela só vai até um certo ponto, o das coisas escritas. Então tentem, se puderem, ir a alguma discussão pública de algum assunto que te interessa, de preferência em uma universidade. Sério, façam essa força. Vocês podem se surpreender.

E enquanto planejam a conferência que vai comparecer, leiam alguns links que eu pesquei durante os últimos dias. =)

 

Por que “faltam” tantos homens negros na sociedade? – Nos EUA, para cada 100 mulheres brancas, há 99 homens brancos “disponíveis”, ou seja: livres e vivos. Mas em relação aos negros, a conta não fecha: há 83 homens negros para cada 100 mulheres negras. Em cidades como Ferguson, a proporção é de 60 para 100.

Os dados estão nessa ótima reportagem do time de jornalismo de dados do New York Times, que buscaram uma maneira nova, interessantes e alarmante de explicar a violência e encarceramento em massa entre os negros. Ela conclui que:

Homens afro-americanos têm, há muito tempo, uma probabilidade maior de serem presos e morrerem jovens, mas a contagem combinada das duas coisas não deixa de ser espantosa. É uma medida das profundas disparidades que continuam a afetar homens negros – disparidades que estão sendo debatidas depois de uma recente sequência de mortes pela polícia. A diferença de representação entre os gêneros é em si mesma uma causa extra para problemas sociais, deixando muitas comunidades sem homens o suficiente para serem pais ou maridos.

Amigos jornalistas (há muitos que lêem essa newsletter, que eu sei), fica aí a dica de fazer a mesma reportagem para o Brasil. Nem sempre é fácil de achar esses dados, mas eles existem. E é uma outra maneira de falar de racismo e tratamento desigual dado pela polícia e justiça.

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Qual o limite da transparência da polícia? – Escrevi alguns meses atrás sobre a tendência dos departamentos de polícia nos EUA de colocarem câmeras nos uniformes dos oficiais. A ideia é deixar a força policial mais “transparente”, coibindo eventuais abusos. Com tudo filmado, o tempo todo, é mais fácil julgar casos de uso excessivo de força (ou de uma situação em que a integridade do policial realmente era ameaçada), sem precisar confiar apenas em testemunhos.

O experimento é recente, mas, pelas evidências colhidas até agora, parece que filmar toda interação do público com os policiais de fato tem um poder de coibir abusos. Mas será que esse é o melhor caminho? David Brooks, no New York Times, argumenta que não podemos ignorar os efeitos colaterais:

Na soma geral, câmeras policiais parecem uma boa ideia. Mas, como jornalista, eu posso afirmar a você que quando eu coloco um bloco de notas ou uma câmera entre mim e o que ou quem que esteja reportando sobre, estou criando distância entre eu e eles. As câmeras policiais podem dar um golpe a favor da verdade, mas elas machucam as relações. A sociedade será mais aberta e transparente, mas menos humana e com menos confiança.

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Transgêneros viram assunto nacional – Ao menos aqui nos EUA. A entrevista de Bruce Jenner na ABC em que ele revela como e por que está mudando de gênero foi das melhores coisas que eu já vi na TV. Se você não souber quem é Bruce Jenner, não se preocupe. Ele foi conhecido primeiro como um campeão olímpico em 1976, depois uma celebridade de palestras motivacionais e nos últimos anos o chefe da família de socialites Kardashian. Pode ser que nenhuma dessas coisas desperte sua curiosidade, mas vai por mim: se você tiver algum modo de assistir (usar o Unblock-us é uma possibilidade), veja a entrevista (ou leia o resumo). Porque ela coloca, através da narrativa de Jenner, o que é ser um transgênero.

Que é um assunto que, francamente, a maior parte do público não entende. Isso nos lembra, é claro, a nossa transgênero mais famosa no Brasil, a cartunista Laerte. A melhor reportagem sobre ela foi na Piauí, em um belo perfil de Fernando de Barros e Silva (para assinantes). Ele também fala da experiência de Márcia Rocha, uma travesti dona de empresas bem sucedidas no Rio, e conta:

A certa altura da conversa, Márcia fez questão de esclarecer um ponto de maneira didática: não confunda identidade de gênero (masculino e feminino) com orientação sexual (heterossexual, homossexual, bissexual, assexuado). “São coisas distintas”, ela explicou, citando-se como exemplo. Não há relação necessária entre o corpo biológico de alguém e seu gênero. Não há relação necessária entre o gênero da pessoa e seu desejo sexual. Falava como se estivesse revelando a mim a Primeira Emenda da Constituição dos transgêneros.

E conta como é o raciocínio de Laerte, de idas e vindas, de apresentar argumentos e logo depois contra-argumentos:

Ida: “De certa forma, as travestis que se sacrificaram e se sacrificam estão me permitindo uma espécie de existência num patamar seguro. É uma leitura possível.” Volta: “Mas, também, isso é um pouco injusto comigo. Em algum grau, também estou transformando a travestilidade numa coisa possível e viável. Não tenho muito como medir isso agora.”

Vale ler também essa ótima entrevista de Laverne Cox, estrela de Orange is the New Black, para a TIME (em que a capa falava sobre o “tipping point” dos transgêneros).

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Qual é a do “Tea Party Brasileiro” – O Movimento Brasil Livre foi um dos principais organizadores das manifestações que pediram o impechment de Dilma. Nesta reportagem de Claudia Antunes para a Piauí, dá para entender um pouco mais o que defendem os líderes ultraliberais do grupo. Chego um pouco atrasado, mas achei o melhor mapeamento desse novo movimento, que ainda não encontra representação nos partidos estabelecidos.

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Aprender a programar não é o novo “aprender a ler e escrever” – Estamos cercados de apps por todos os lados. Nossa vida é mediada por software. Então é compreensível que cada vez mais gente diga que todo mundo precisa aprender a escrever código. Mas esse movimento parte de uma premissa bem equivocada sobre o que é ser alfabetizado e qual a função de aprender uns comandos em Python.

Na Quartz, Chris Granger diz que a habilidade fundamental para todo mundo hoje é na verdade “aprender a modelar”.

Da mesma forma que redação ou compreensão não estão presas ao papel, modelar não é intrínseco aos computadores. É um processo que pode ser tanto físico quanto mental. Ele pode acontecer no papel ou no Excel ou em Legos. É uma habilidade incrivelmente poderosa, que nós podemos deixar ainda mais útil transpondo nossos modelos para os computadores. Para entender como fazemos isso, nós temos que investigar mais profundamente o que significa modelar [“prototipar” é um sinônimo mais próximo em português às vezes]. “Modelar é criar a representação de um sistema (ou processo) que pode ser explorado ou usado.

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É hora dos judeus deixarem a Europa? – Os judeus são menos de 1% da população da França, mas são o alvo de 51% dos ataques de racismo. Em Malmö, na Suécia, o rabino conta pelo menos 150 situações em que jogaram garrafas nele, o xingaram ou ameaçaram atropelá-lo na rua. O líder da comunidade judaica de Copenhague (onde uma sinagoga foi atacada este ano) disse em uma entrevista que o anti-semitismo lá não é tão “perigoso”, notando que é “só umas cuspidas, xingamentos, coisas assim”). No Reino Unido, 2014 foi um ano de recorde de incidentes de anti-semitismo, e mais de 50% dos judeus britânicos entrevistados em uma recente pesquisa dizem não acreditar haver futuro para a comunidade ali.

A reportagem de capa da Atlantic de abril conta tudo isso, e fala um monte de histórias escabrosas mais. E faz a pergunta: será que é hora de os judeus fugirem da Europa, de novo? Se sim, por quê? E para onde? Qual a “culpa” de Israel nisso tudo? Jeffrey Goldberg deixa mais perguntas que respostas, mas a sua reportagem, que passa por diversos países e é fruto de um ano de entrevistas, é fundamental para entender o atual momento de tensão no Velho Mundo.

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O problema do FGTS – Na Superinteressante, Alexandre Versignassi faz um monte de contas para mostrar que o FGTS foi nos últimos 15 anos um péssimo investimento para o trabalhador brasileiro. Ele esclarece que não está escrevendo para “defender a terceirização”, mas lembra que a massa que “investiu” no FGTS não tinha qualquer poder de escolha.

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PS: Lembrando que esse post é na verdade a newsletter quinzenal do Oene. Para receber mais disso, assine aqui. Para falar com a gente, mande e-mail. E curta nossa página no Facebook e assine nosso podcast no iTunes (ou Soundcloud)!

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