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Como acabar com o mar de celulares filmando shows


Em uma noite de novembro de 2011, quase 68 mil pessoas arriscavam o falsete e cantavam, em uníssono, tchu-ru-ruu,tuu,tu-ru-ruuuuuuuu. O Pearl Jam tocava, no Morumbi, pela enésima vez a versão ultra-estendida de “Black”. É a hora do show em que Eddie Vedder, depois de um grito que dura uns 30 segundos, deixa Mike McReady brilhar […]

Em uma noite de novembro de 2011, quase 68 mil pessoas arriscavam o falsete e cantavam, em uníssono, tchu-ru-ruu,tuu,tu-ru-ruuuuuuuu. O Pearl Jam tocava, no Morumbi, pela enésima vez a versão ultra-estendida de “Black”. É a hora do show em que Eddie Vedder, depois de um grito que dura uns 30 segundos, deixa Mike McReady brilhar em um solo improvisado de guitarra e o povo ajuda nos backing vocals. Mesmo quem não é fã da banda reconhece aquele ritual como uma dessas coisas especiais que só a música ao vivo proporciona.

Eu estava lá, me emocionando com a banda da minha adolescência, e tentando não me incomodar com o cara imediatamente à minha frente, um dos poucos que não se arriscavam no coro. O problema nem era tanto o tamanho da câmera que ele segurava um pouco alto (era daquelas boas, com visor basculante) e que obviamente atrapalhava a minha visão e de outras pessoas. Mas era a maneira com que ele se comportava para “capturar tudo perfeitamente”. Sabemos que quando alguém canta junto perto da câmera que filma um show o áudio fica deveras comprometido. E se você dançar ou balançar a cabeça, pior, porque aí seu vídeo tremido terá em vez dos tradicionais 1.432 views no Youtube, apenas 200 e poucos. Então o carinha ali, com camisa e bandana da banda, claramente um fã, ficava razoavelmente estático e não entrava na experiência comunal do coro desafinado (e ainda por cima olhava meio irritado para trás) para não estragar… o quê exatamente?

O registro da experiência, que cada vez mais se confunde ou substitui a própria experiência.

Calma, eu sei que reclamar que o povo “filma em vez de curtir” já é meio clichê e cada um faz o que quer da sua vida, ok? Mas sempre vale lembrar que se preocupar demais com o registro diminui o valor do momento naquele momento. Fora que é um lance meio egoísta, já que pode piorar a visão de quem está atrás. Mas bem, uma hora, aos poucos, cada um vai aprendendo a hora que vale deixar a câmera ligada ou não.

No Grand Canyon, este  aviso solicita o que deveria ser automático

No Grand Canyon, este aviso solicita o que deveria ser automático

Mas bom, vamos considerar que a profusão de câmeras levantadas o tempo todo em um show é realmente um problema. Como resolver? Há a alternativa Yeah Yeah Yeahs: a banda pediu mês passado – de maneira não muito sutil – para os fãs que parassem de ver o show por uma telinha. PUT THAT SHIT AWAY, disse, em CAPS, Karen O e família.

Conversar com o público sobre o assunto parece ser uma boa ideia. O comediante Aziz Ansari papeia e faz umas poses para a platéia logo no início de suas apresentações, e pede para que todo mundo fique à vontade de tirar fotos naquele momento. Depois, o público coloca o celular no bolso, com o check-in no Foursquare devidamente ilustrado. Parece funcionar.

Por um registro mais profissional

A solução da conversa com os fãs resolve só um pedaço do problema: há menos gente chata com tela pra cima, mas também menos registros para os fãs. Há outras saídas, e é curioso pensar que uma das alternativas mais engenhosas para combater o excesso de smartphones ligados em um show pode ser, surpresa, um app para smartphone. É o que se propõe o soundhalo, app lançado por enquanto apenas para Android, que estreou ontem em um show do Alt-J:

A proposta do soundhalo é fazer com que você não precise se preocupar em filmar a apresentação – eles cuidarão disso, com autorização dos artistas. A gravação é feita de maneira mais profissional, com áudio direto da mesa de som. O app na verdade é uma lojinha, uma forma de acessar este novo mercado de apresentações, bem rápido (às vezes antes do show acabar os clipes já estarão disponíveis). É possível fazer o download de músicas individualmente ou do show inteiro – a US$ 1,29 por música ou 10 dólares pelo show inteiro. As futuras versões devem permitir inclusive a separação do áudio e o vídeo, o que parece bacana. Qualquer pessoa pode comprar/baixar qualquer show, é claro, mas imagino que seja não só mais interessante para quem foi ao show ter o registro, mas me parece que há uma oportunidade das casas de show venderem o serviço como “bônus” para quem paga uma bolada no ingresso. Há várias oportunidades de negócio aí, inclusive para donos de Canon 5D e semelhantes que queiram virar fornecedores do soundhalo.

soundhalo

O criador do serviço, Baz Palmer, conta no blog do soundhalo que acha o registro do show uma coisa fundamental. Ele busca uma boa maneira de fazer isso desde que tocou com sua banda em um festival da Suécia para milhares de pessoas em 1988. Um momento absolutamente mágico, para ele, mas que ficou sem um único filminho para mostrar aos filhos. Desde então, ele acha que tem uma missão, realizada agora:

Para os fãs e as bandas, o SoundHalo mantém vivos esses incríveis momentos e oferece ao amante da música a chance de fazer isso enquanto está no show, no meio de tudo, quando a pessoa pode realmente apreciar quão especial é aquilo, sabendo muito bem que esses shows são como pássaros raros: uma vez que se vão, se vão pra sempre.

Os shows são cada vez mais o grande – muitas vezes o único – ganha-pão das bandas. E não é só o cachê que vale: é ali que os artistas vendem vinis, camisetas e pôsteres exclusivos, mementos daquela ocasião. Nesse sentido, o soundhalo se encaixa perfeitamente na estratégia. Resta saber quão profissional vai ser a coisa. Se for sempre essa megaprodução do show do Alt-J, não haverá escala e o app só vai fazer sentido em grandes turnês lá fora. Mas eu vejo uma oportunidade de filmagens mais simples, de câmera fixa, com o áudio da mesa. Faria bastante sucesso entre as pessoas que vão ao Cine Joia – eu compraria vários, pelo menos.

Toda essa ideia do soundhalo me lembra muito o Pearl Jam, de novo. Quando, em 2000, as vendas de disco deram sinais de queda e o compartilhamento de gravações dos shows só crescia (uma era pré-youtube), a banda criou a série Official Bootlegs. A banda de Seattle vendia, primeiro em CD e em turnês posteriores em MP3 e FLAC, o áudio de cada um dos shows – inteiros em suas mais de duas horas, sempre, com áudio de ótima qualidade. O Pearl Jam vendeu mais de 3,5 milhões de cópias das gravações dos shows, o que é bem impressionante hoje.

Se houver mais gente gravando profissionalmente, poderemos todos deixar o celular no bolso e cantar tchu-ru-ruu,tuu,tu-ru-ruuuuuuuu, com a certeza de que este momento será eternizado de todas as maneiras possíveis, na nossa memória e no Youtube, sem tremidos. Isso parece ser um futuro melhor.

Via Guardian [Imagem do abre: Laurent Breillat / Flickr Grand Canyon: Sweater Weather / Tumblr ]

some random quote lost in here.