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Entenda o poop, uma das coisas mais bizarras que você pode encontrar na internet


Entre clipes, vídeos de gatinho e memes instantâneos, o Youtube guarda uma das mais originais – e indutoras de epilepsia – formas de arte alternativa deste mundo. O poop, como são chamados os as colagens de imagens e áudio com ritmo frenético, é bizarro da primeira vez que você vê, mas representa uma forma bem […]

Entre clipes, vídeos de gatinho e memes instantâneos, o Youtube guarda uma das mais originais – e indutoras de epilepsia – formas de arte alternativa deste mundo. O poop, como são chamados os as colagens de imagens e áudio com ritmo frenético, é bizarro da primeira vez que você vê, mas representa uma forma bem particular e fascinante da zoeira online.

A palavra “poop”, que inglês significa cocô, é uma sigla para a expressão “piece of other piece” (peça feita de outra peça). Os elementos que compõem um poop fazem parte da cultura pop e podem ser trechos de filmes, desenhos, clipes, entrevistas, programas de TV e etc. Estes trechos são agrupados na tentativa de criar uma narrativa nova e, de preferência, que subverta o contexto original de cada imagem ou som. Portanto, se você se deparar com um remix de cenas, bizarras no Youtube, frenéticas, cheio de loopings perturbadores ou engraçados, então você encontrou um poop. E se você mergulhar em direção a outros vídeos como este, vai sentir como se seu cérebro estivesse fritando.

Um exemplo de poop que fez sucesso no ano passado e virou meme, ainda que nem todo mundo soubesse do que se tratava, foi o “NADADENADADENADADENADADENADADENADADENADADENADADE Seu Madruga”, essa criação musical maravilhosa que pode ficar repetindo na sua cabeça durante horas seguidas:

O universo do “Chaves”, inclusive, é um dos temas de grande frequência em muitos dos 670 mil vídeos que aparecem nos resultados da busca por “poop br” no Youtube. Os poopers brasileiros — “pooper” é o nome dado a quem faz poops — conheceram a “arte” com os americanos, que produziram os vídeos-remixes com cenas e personagens de jogos como Zelda e Mario Bros e que viraram meme por volta de 2007.

A ideia inicial destes primeiros vídeos, por sua vez, parece ter vindo de fora da internet: o primeiro registro de vídeos-colagens como estes está no “AKA Cult Toons”, um programa experimental exibido pelo Cartoon Network UK entre 1999 e 2000. Dirigido por Xavier Perkins and Brett Foraker, o programa convidava VJs e videomakers para fazer vídeos intercalando trechos de desenhos da Hanna Barbera com cenas de filmes de blackspotation e kung fu dos anos 70. “O AKA Cult Toons” inspirou outros programas posteriormente, como alguns mais recentes produzidos pelo Adult Swim, como Tim & Eric, por exemplo, que tem colagens doidas como um poop.

Como a veia cômica dos vídeos do “AKA Cult Toons” não se compara ao frenesi de um poop de Youtube, o poop é considerado uma criação puramente da internet. Tudo isso porque o poop de Youtube é ágil e irresponsável — independente da “linha editorial” adotada por um pooper, os vídeos quase sempre vão cair na anarquia. O poop não tem compromisso com nada além da zoeira pura. Afinal, onde mais você acha que poderia encontrar um vídeo em que aparecem, ao mesmo tempo, trechos de “Domingão do Faustão” com “SPTV”, “Chaves”, “Pânico na TV” combinados com Ruth Lemos, do antigo “Sanduíche-iche” e o personagem Morshu, do jogo Legend of Zelda, senão em um poop?

A razão desta total anarquia pode estar no modo como o poop é feito (em casa, sem muitos recursos de edição) e por quem é feito (jovens e adolescentes com identidades protegidas por pseudônimos). Os poopers brasileiros ainda tem outra característica em comum: a maioria utiliza o software de edição Sony Vegas, bastante comum por ser fácil de trabalhar (e piratear), o que facilita a velocidade da edição. “Alguns usam Adobe Premiere, After Effects, mas a maioria é no Vegas mesmo”, diz guilhox, um dos poopers brasileiros mais conhecidos. Ele tem cerca de 140 vídeos publicados e alguns deles chegam a ter 50 mil visualizações.

Guilhox explica que muitos poopers brasileiros se conhecem e o Poop Br, como se diferencia o poop feito no Brasil, funciona como uma grande comunidade. “Hoje em dia existe forte amizade entre muitos poopers. Eu mesmo namorei uma pooper durante os últimos meses, haha”. Essa comunidade compartilha piadas internas e arquivos com os próprios vídeos remixados, que são modificados por outros poopers e republicados novamente, formando os desafios de poops. E, consequentemente, dando maior vida às piadas internas e tentativas de superação.

Em momentos como este, cada poop se torna um produto construído coletivamente. É quando acontecem os “ping-pongs”, espécies de jogos de edição que podem ser feitos em duplas, trios e até extrapolar a casa da dezenas de participantes. Guilhox conta que já participou de ping-pong com 16 poopers. “Um edita o vídeo que já foi previamente editado pelo outro. Os dois (ou mais) combinam quem começa, opcionalmente escolhem um tema e seguem a partir daí. Às vezes tem um compartilhamento do vídeo original (ou source, como normalmente se diz), mas na maioria das vezes a nova edição se baseia mesmo só na do ‘oponente’ adicionando outros elementos pra aumentar a variedade”.

Apesar de guilhox explicar que a nomenclatura desses jogos quase sempre é criada “na hora”, algumas se tornam populares e são utilizadas por outros poopers, como o “ping-pong” ou “tennis”, que acontece entre dois participantes. “Ou soccer, que é o ping-pong com um poop musical”, diz guilhox. O poop musical é chamado de YTPMV, sigla para Youtube Poop Music Video, uma derivação de poop. Assim como o YTPMV a seguir, que celebra o sucesso do vídeo “Ah lelek lek lek lek lek”, aquele vídeo do Seu Madruga que aparece no começo do post é um YTPMV. Fala se isso não é arte?

Com relação ao que pode ser tema de um poop — ah, amigos — essa parte está longe de chegar a um limite. Tem poop com personagens de anime, memes como Nissim Ourfali e “Morre Diabo“, trechos de “My Little Pony” (um hype ainda não explicado claramente), pronunciamentos oficiais da presidenta Dilma Rousseff e pedaços de vídeos de vlogs. Muitas vezes as montagens criam falas cheias de palavrões e conteúdo NSFW, verborragia totalmente coerente com a megalomania do poop. Além disso, em um mesmo vídeo podem aparecer personagens cuja participação dura pouco mais do que um segundo, apenas para completar uma ideia. Em outros casos, há apenas um personagem ou trecho que repete, repete, repete, repete, repete, repete, e repete até você ter uma vertigem.

Até pouco tempo, Pelé era uma figura quase sempre presente nos Poop Br. Faustão, Jô Soares, Roberto Carlos e Renato Aragão (especificamente, um trecho onde ele diz “no céu tem pão?”) são algumas das personalidades que mais têm aparecido nos poops brasileiros recentes.

Quando um trecho vira meme de sucesso no Poop Br, ele é repetido exaustivamente até deixar de ser piada interna, fica velho e perde parte da graça, assim como acontece como os memes compartilhados nos blogs ou redes sociais.

Um dos memes mais fortes entre os poopers brasileiros foi o “jooj”, extraído de uma fala do Chaves em um dos episódios do “Chaves em Acapulco”. O “jooj”, que é formado pela sílaba “jo”, do verbo “jogar”, foi colada com “oj”, sua pronúncia ao contrário. Esta forma de remix também é uma das marcas do poop. O jooj foi uma piada interna tão duradoura que durante algum tempo o Poop Br também ficou conhecido como Jooj.

Fórmulas de edição como a do “jooj” são complicadas de descrever pois fazem parte de uma descoberta sutil do momento da edição de um vídeo, aquele estalo na cabeça de alguém que percebe que acaba de criar algo engraçado. E, talvez, essa constante e intensa experimentação com o som e a imagem seja a grande sacada por trás do poop. “O legal do poop é a aplicação surpreendente das ideias. Coisas que a gente ri porque são engenhosamente colocadas num lugar inesperado”, diz guilhox.

O gif que ilustra este post foi retirado de um trecho deste belo vídeo.

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