12323 É hora de encarar o medo do que está no prato - Oene
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É hora de encarar o medo do que está no prato


Comer "local", sem carboidratos, orgânicos, sem-glúten... Há tantas regras que estamos desenvolvendo "ansiedade alimentar". Como enfrentar isso?

Mercado aquecido, intervalos de almoço mais curtos e trânsito ruim fazem a gente comer cada vez mais vezes fora de casa. Prova disso é que hoje no Brasil gastamos mais que o dobro fazendo refeições em bares e restaurantes do que gastávamos há uma década. Todo mundo reclama do preço, cria páginas de boicote porque o hambúrguer gourmet está pela hora da morte, mas no fim continuamos engolindo a refeição. Mal.

Não é só a correria e o preço que incomodam. É, para muitos, o mero ato de comer.

Ainda estamos em janeiro – isso significa que as nossas resoluções de ano novo ainda têm alguma força. “Comer melhor” – seja para ficar mais saudável, ou para emagrecer, ou ganhar músculos, o que seja – está na lista de muita gente. Especialmente agora precisamos nos alimentar de uma forma que fiquemos dentro dos nossos objetivos para o ano. E quando estamos prontos a abocanhar o que está no prato, aquele monte de coisas que lemos sobre comida todo dia aparece na nossa cabeça. Até porque nunca consumimos tanta informação sobre comida. Você pode dizer que isso é um “problema de gente rica”, mas a verdade é que agora há mais obesos em países em desenvolvimento do que no primeiro mundo. Quando comer bastante passa a ser mais acessível, a preocupação com a alimentação também se democratiza.

Hoje em dia, por exemplo, eu raramente como um dos clássicos da minha juventude: o estrogonofe. Porque arroz e batata frita são uma desnecessária redundância de carboidratos e amidos – sem contar a gordura do óleo. O catchup usado tem açúcar e “estabilizantes” demais, e tenho algum bode com a comida industrializada. O creme de leite força a minha cota de laticínios diária – derivados fazem (ou ao menos é o que minha dermatologista diz) com que cravos apareçam no rosto.

Se você procurar saber, quase tudo que colocamos no prato pode fazer mal. Até as coisas que podemos pensar que fazem menos mal, como refrigerantes diet, de repente viram vilões pelo excesso de sódio, ou o que quer que descubram. Aí aguardamos o próximo Atkins dizendo que comer ovo é ok ou a Veja anunciar na capa que o chocolate está liberado.

Há sempre uma nova culpa: a de engordar, de comer os nutrientes errados, de comprar algo não-local ou não-orgânico, com transgênicos, com glúten, estabilizantes, hormônios. Dependendo do seu nível de envolvimento com a questão (ou quantas vezes viu o documentário Food Inc.), a pior coisa a acontecer pode ser dar dinheiro para marcas que não tratam bem os funcionários ou o meio ambiente. Até algumas marcas estão fazendo seu marketing em cima disso, como a Chipotle:

 

Os americanos chamam essa neura de ansiedade alimentar, algo que começou a ser mais percebido e comentado ainda nos anos 80. Julia Child, uma espécie de Ofélia/Ana Maria Braga mais refinada da TV americana, já via com preocupação o fenômeno, há duas décadas, e lembrava que apesar das dietas e regras alimentares “passageiras”, nunca deveríamos perder o foco de quanto que uma refeição é uma experiência prazerosa, gregária.

O que é perigoso e desencorajador sobre esta era [em que vivemos] é que as pessoas estão realmente com medo da sua comida. Sentar à mesa para jantar parece uma armadilha, não algo para ser usufruído. As pessoas deveriam levar a comida mais a sério. Aprenda o que comer e usufrua por completo.

Uma amostra de que estamos com certo medo da comida é o mercado crescente de shakes que “valem por uma refeição” (o Danoninho só valia por um bifinho, na minha época). A última invenção do gênero é o Soylent, criado por um grupo de nutricionistas americanos que levantou mais de 1,5 milhão de dólares no Kickstarter e conquistou investidores do Vale do Silício. O marketing do Soylent não se baseia simplesmente em uma refeição “completa e balanceada”. Os criadores vendem a solução para o problema de “se preocupar com a refeição”. Na descrição da página:

O Soylent é para todo mundo que sofre com alergias, hipertensão, refluxo ou indigestão, tem problemas em controlar o peso ou o colesterol, ou simplesmente não tem condições para comer bem. O Soylent liberta você de tempo e dinheiro gasto fazendo compras, cozinhando e limpando, deixa você com saúde excelente e reduz de maneira significativa o impacto ambiental, ao eliminar muito do desperdício e agressão ao meio ambiente que vem da agricultura, pecuária e lixo relacionado à comida.

É louvável a preocupacão ambiental, e de fato o dano causado ao meio ambiente por pastos e monoculturas não pode ser desprezado. Eu não tenho dúvidas das boas intenções do Soylent, mas ele também mostra que, no extremo, a solução para a nossa ansiedade com a comida é ignorar o prazer de comer e focar na funcionalidade da refeição. É um caminho perigoso este proposto pelos tecnólogos do Vale do Silício, e talvez devêssemos lembrar dos ensinamentos de Michael Pollan, autor do livro O Dilema do Onívoro, que dá três regras básicas para comer bem – e que, por serem simples, diminuem a nossa ansiedade:

“Coma comida”. Explicando melhor: “Não coma nada que a sua avó não reconheça como comida.” Isso faz a distinção entre comida – uma maçã ou um camarão – e um produto alimentício, itens processados que contêm normalmente mais de cinco ingredientes.
“Coma preferencialmente plantas. Trate a carne como algo para dar mais sabor ou para ocasiões especiais.” E: “coma animais que tiveram uma boa alimentação,”, o que normalmente requer evitar comprar carnes em supermercado.
“Pague mais, coma menos.”

Este resuminho está no Quartz, que também fez uma ótima entrevista com Pollan. Ele diz que um dos problemas em relação à alimentação é que há bem menos pesquisas sérias e de longo prazo sobre o impacto dos alimentos na nossa saúde do que precisaríamos de fato para tomar decisões embasadas. E por isso mesmo há tantas modas nas dietas.

Comer não deveria ser algo tão complexo. Mas talvez o processo da refeição poderia envolver mais que um PF ou um shake. Depois de criar essas três regrinhas no seu Eater Manual, Pollan foi adiante e escreveu um outro livro, publicado no ano passado, em defesa do ato de cozinhar.

Sim, cozinhar. Um estudo brasileiro mostrou que comer fora de casa, aquilo que fazemos cada vez mais, aumenta o risco de obesidade e hipertensão. Mais exatamente, quem come fora está mais propenso a consumir gordura. Mesmo quando fazemos aquelas pratadas de arroz ou um soborô de almoços anteriores, nos alimentamos melhor, segundo Pollan.

Cozinhar é provavelmente a coisa mais importante que você pode fazer para melhorar a sua dieta. O que importa não é um ingrediente em específico, ou um alimento em particular: é o próprio ato de cozinhar. As pessoas que cozinham tem uma dieta melhor sem nem se preocupar muito. O colapso da alimentação em casa foi o que nos levou à epidemia de obesidade.

Sei que temos intervalos curtos no almoço e tudo o mais, mas me parece um objetivo interessante a ser perseguido em 2014: em vez de perder peso ou “se alimentar melhor”, cozinhar mais. Pode ser divertido, exercita a sua criatividade e melhora seu conhecimento sobre comida. E no fim, um jantar, mesmo que envolva uma massa simples com molho de tomate, é sempre uma boa desculpa para chamar amigos para compartilhar a mesa.

[Imagem: Nick Wheeler/Flickr]

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