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Educação, o debate dos fingidores


O que podemos aprender com os países que têm a melhor educação do mundo? Foco.

O debate sobre educação, em um ano eleitoral como 2014, me lembra o poema de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”. É difícil acreditar que os candidatos, em todos os níveis, estejam realmente dispostos a seguir uma agenda de mudanças porque, entre um debate e outro, as propostas se concentram em quanto gastamos e que exames usamos para avaliar o quanto estamos gastando. É uma agenda velha e ineficiente, Mas a insistência com que o assunto vêm à tona em ano eleitoral mostra que, sim, por piores que sejam os candidatos, eles estão preocupados com o problema. No final das contas, os politicos são fingidores/que fingem se importar com um debate/com o qual eles realmente se importam.

O problema parece ser de carência crônica de ideias para a área. Talvez eles realmente não saibam o que fazer – ou não tenham percebido quão maior é a questão

E isso não é um problema apenas no Brasil. No começo do livro The smartest kids in the world (As crianças mais espertas do mundo), um dos mais celebrados estudos sobre educação do ano, a jornalista americana Amanda Ripley se pergunta por que os estudantes dos EUA estão ficando cada vez mais para trás nos rankings mundiais que medem a qualidade do ensino. Ela constata que, ano após ano, os estudantes da nação mais rica do mundo vem se saindo pior nos indicadores de matemática e ciências do que países não só com menos dinheiro para investir, mas que tinham uma educação precária meio século atrás.

Ripley então tem uma ideia: acompanhar três estudantes americanos do ensino médio na Finlândia, na Coréia do Sul e na Polônia (que estão no top10 da educação mundial). A partir das experiências de cada um deles, ela analisa as medidas que esses países vem tomando para conseguir resultados tão expressivos. A conclusão, claro, é uma comparação com os EUA. Mas dá muitas pistas sobre o que não se deve fazer no Brasil.

Primeiro, o que não se deve fazer: acreditar na ilusão das coisinhas que se mexem. iPads, notebooks, gadgets, não parecem fazer a diferença – e podem até atrapalhar. São recursos que poderiam ser gastos com a lista das coisas que, SIM, fazem a diferença, já que drenam recursos sem resultados claros. Outro item da lista negativa é mudar o objetivo das escolas – elas existem para aprender e ensinar, não para praticar esportes ou para servir de praça da comunidade. Com recursos finitos, foco é fundamental. Por fim, não adianta fazer nada disso se não existir uma relação clara de causa e efeito entre estudar e conseguir conquistar seus objetivos na vida. E aí o problema é mais complexo.

Os EUA, segundo Ripley, estão oferecendo cada vez mais exemplos de que é possível triunfar na vida sem estudar – da indústria de celebridades aos milionários do Vale do Silício, passando por membros do Congresso, são cada mais numerosos os exemplos de pessoas bem sucedidas que abandonaram a escola ou a universidade. Há até milionários que incentivam o caminho longe dos bancos escolares. Como Peter Thiel, o fundador do PayPal, deu 100 mil dólares para alguns jovens não entrarem na faculdade e começarem empresas. Ainda não chegamos a esse ponto no Brasil, mas há exemplos mais que suficientes de como ser bem-sucedido sem estudo de qualquer tipo para também entendermos isso como um problema.

Agora, o que se deve fazer. A carreira do magistério tem de ser valorizada com salários, plano de carreiras e perfil profissional – os professores devem ser recrutados entre os melhores alunos para que possam ser excelentes professores. Os recursos devem ser concentrados no que realmente importar: preparar e recrutar bem quem ensina (nada de gastar com iPads enquanto professor ganha pouco, portanto). Porém, nada disso vai adiantar se não houver incentivos para que os alunos estudem. E ai está a parte mais difícil do processo: organizar a sociedade para valorizar quem estuda. Isso envolve não só a criação de exames para entrar em faculdades ou cursos técnicos profissionalizantes, mas também aumentar o números de carreiras que exigem boa formação.

Deu para perceber como o buraco é mais embaixo, tanto lá como cá. E talvez essa seja a pista que esteja faltando no “debate dos fingidores”: para conquistar seus objetivos na vida, a gente bem sabe, sinceramente, aqui entre nós, que boas relações e, algumas vezes, sobrenomes, são mais importantes do que o quanto a gente é capaz de entregar a partir da quantidade de educação que nós temos. E para isso não é preciso nenhuma pesquisa empírica: basta olhar nos governos, nas empresas e nas universidades para saber que todo mundo defende o mérito, mas bem poucos o praticam.

Educação, ensina Ripley, não é uma bolha solta na sala. Não há como melhorá-la sem uma sociedade que realmente dê valor a ela.

[Imagem: Governo de Minas Gerais/Flickr]

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