12323 Entendendo a construção do mito - Oene
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Entendendo a construção do mito


As várias faces de Mandela e outros textos selecionados da semana.

PS: Este é o texto da última newsletter. Receba essa missiva sem sair da sua caixa de email, todo sábado de manhã:



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Nós ainda não nos conhecemos. Muito prazer, quem escreve é o Leandro Beguoci, a seu dispor (exceto nos horários dos jogos do Palmeiras). Explico essa entrada de sopetão. O Pedro Burgos me convidou a contribuir com o Oene. Aceitei, claro, e perguntei o que eu poderia fazer pra começar. “A primeira newsletter da volta do Oene. Topa?”.

É claro que sim. Então, com muito prazer, senhoras e senhores, essa é a primeira newsletter da nova fase do Oene, um site destinado a ser uma janela contra o ruído na internet, produzindo conteúdo relevante e sugerindo artigos, vídeos, e o que for, que te ajudem a entender melhor esse mundo #vidalokacabulosa. Ainda estamos ajeitando os móveis na casa nova (leia-se: postando coisas novas), mas você pode dar uma volta por aqui para ver como tá ficando.

Bastante coisa para ler este fim de semana. Aqui vão minhas escolhas:


Mandela era grande, enorme, como bem disse o excelente obituário da The Economist, e boa parte da sua grandeza está na sua tremenda ambiguidade de político habilidoso e de líder inspirador, como Clóvis Rossi contou na Folha .

A visão que o mundo tem hoje de Mandela é bem diferente do que foi décadas atrás. E é interessante agora ler esta carta de perdão que um dos maiores críticos do ex-presidente sul-africano escreveu após sua morte. É um bom documento para entender como uma parte do Ocidente via a volta de Mandela ao cenário político no começo dos anos 1990: um guerrilheiro que, ao assumir, iria liderar um regime assassino como o de Pol Pot no Camboja ou criar uma Cuba na África.

Mandela começou a construir seu mito ali, ao fazer tudo o que não se esperava que ele fizesse. Porém, essa atitude aberta e sem rancor não é unânime dentro da África do Sul. Sobre isso, recomendo a leitura desse texto, de um documentarista sul-africano para a Quartz.
Ele mostra que a ideia de “rainbow nation”, uma nação de várias cores (sonho ainda “em construção”, explica a Bloomberg), como defendida por Mandela, não é tão simples assim. Afinal, como ele conta, vários dos membros do regime do apartheid tiveram um comportamento que faria Mengele, o carrasco nazista, se orgulhar de sua influência duradoura no planeta.

A leitura de vários dos textos escritos sobre Mandela me deixou a impressão de que o legado dele é maior como símbolo do que como realidade. Isso não é necessariamente ruim. Símbolos poderosos, como ele, podem ter um efeito fantástico sobre o mundo. A Slate se pergunta por que as sanções internacionais funcionaram contra a África do Sul, mas se mostraram incapazes de derrubar regimes autoritários hoje. Uma das respostas é que poucos países têm homens como Mandela para simbolizar a luta contra as atrocidades de um governo contra seus cidadãos.

Eu poderia me estender nisso, mas passo a bola para Bono Vox. Em uma bela carta sobre sua relação com Mandela, o vocalista do U2 conta como o homem perseguido por Margaret Thatcher (uma notória pão-dura) conseguiu arrancar uma doação pessoal da Dama de Ferro para a fundação Mandela. É sempre bom lembrar que Margaret Thatcher chamava Mandela de terrorista, então é um momento curioso.

Homens são sempre mais interessantes do que mitos, e o próprio Mandela evitava sua santificação. Afinal, quanto mais humano é o mito, mais próximo ele é de cada um de nós.


Por falar nisso, essa semana também foi muito boa para entender outros mitos. Mas, desta vez, sem o mesmo efeito inspirador de Mandela.

Sabe como a China fez para melhorar seus rankings internacionais de educação e aparecer como um fenômeno para o mundo? Fácil. Ela só fornece as notas das escolas localizadas nas cidades com os melhores índices de educação. A China profunda continua lá, como era no começo do século 20.

A Coréia do Sul, frequentemente apontada como um exemplo a ser copiado em educação, produz crianças infelizes, uma das mais altas taxas de suicídio do mundo e uma das menores taxas de natalidade do planeta, e a Quartz coloca em um gráfico o preço de notas altas em testes internacionais. Se isso é o futuro, olha, prefiro ficar em 2013.

Falando em China, Coréia do Sul e obsessão com controle, Alexandre Versignassi, na Superinteressante, conta como era sua rotina em uma empresa de São Paulo que poderia, facilmente, estar em Pequim.


Outras leituras que valem a pena:

A excelente matéria da Época sobre como o SUS é um retrato da desigualdade brasileira – mesmo em um sistema público, quem tem mais dinheiro e conexões consegue algumas regalias -, e como a indústria farmacêutica contribui com ela.

No Polygon, uma bela reportagem (e ilustrações!) explica a criação do mito de que videogame é coisa de menino.

A lista dos 100 melhores livros do ano do New York Times (prepare-se: sua conta na Amazon ou no Kobo pode estourar).

Mas, se você está com pouco dinheiro e me deu a honra de chegar até aqui nessa newsletter, uma notícia. Se você mora em São Paulo, começa na próxima quarta a Feira de Livros da USP. Não haverá desculpa de falta de coisa para ler.


O Burgos sempre disse que não consegue escrever pouco. Então, para honrar o criador do Oene, faço a newsletter com o maior número de links que meus dedos foram capazes de digitar. Aproveite.

Nos vemos por aqui.

[Foto: Paul Simpson/Flickr]

some random quote lost in here.