12323 Esse networking vai acabar nos matando - Oene
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Esse networking vai acabar nos matando


Por que tanta gente, especialmente na indústria criativa, trabalha de graça?

A palavra trabalho, lá nos confins da etimologia, é uma atividade a qual você é obrigado a fazer para ganhar a vida. Ou para perdê-la, já que há uma grande corrente de filólogos que defendem a tese de que algumas palavras que usamos para definir trabalho, em várias línguas, têm origem em objetos de tortura. Mas, até onde se sabe, em nenhuma definição o trabalho nasce como algo recreativo. A isso se dá o nome de passatempo.

Portanto, trabalho de graça é uma contradição fortíssima com a própria ideia de trabalho (exceto se for voluntariado, e aí você está fazendo algo para criar um mundo no qual você acredita. É um esforço para obter benefícios para a sua consciência e para a sua comunidade. A remuneração não é salário). O simples fato de termos chegado ao ponto de aceitar fazê-lo sem salário mostra os caminhos e descaminhos que nos metemos nas últimas décadas. Especialmente nós, que vivemos das profissões que se materializam em textos, fotos, vídeos, áudios.

Há algumas semanas, Tati Bernardi, roteirista, escritora e colunista da Folha, publicou um texto no jornal reclamando das pessoas que, tal como ela no início da carreira, topam escrever roteiros, posts e o que mais possa ser classificado como trabalho intelectual em troca de pertencer a um mundo descolado. Ou, nas palavras dela:

“O problema é que o mercado “do cinema” carece profundamente de pessoas maduras. Todos posam de super profissionais, com seus óculos de aros muito grossos e pôsteres de longas europeus, mas não têm a menor ideia do que estão fazendo. E me refiro, especificamente, aos adultos pagantes (donos). O culpado disso? Você. Um jovem idiota que (como eu já fui um dia) topa tudo para pertencer a esse mundo cool.”

O texto teve uma enorme repercussão, com mais de 41 mil “curtidas” e uma infinidade de compartilhamentos. Era um sinal de mal estar na civilização – ao menos da civilização que vive de trabalhos impalpáveis. Afinal, ninguém pede a um pedreiro para encher uma laje porque seria ótimo para o portfólio dele.

Na coluna, a culpa recai sobre as pessoas. Se ninguém aceitasse trabalhar de graça, as empresas – editoras, agências, produtoras – seriam obrigadas a pagar para quem não paga hoje e melhor para quem já recebe algo como um “salário”. A jornalista Juliana Cunha, no seu blog, criticou o texto de Tati Bernardi. Juliana trabalhou em jornais, faz frilas e mantém um blog bem interessante. Ela concorda que o trabalho de graça é um problema sério. Mas, em vez de culpar os indivíduos, ela focou nas instituições que permitiram que a situação chegasse a esse ponto. Aliás, a discussão na área de comentários mostra que, às vezes, em ocasiões muito raras, essa caixa pode ser relevante. Enfim, ao texto. O principal ponto dela é esse:

“De quem é a culpa das relações de trabalho precárias no meio “artístico” e editorial? Na minha simplória opinião, a culpa é dos órgãos fiscalizadores das relações de trabalho (ministério, delegacias), que não cumprem seu papel; dos sindicatos inoperantes e dos trabalhadores mais experientes e estabelecidos que em vez de se organizarem ou darem um mínimo de suporte moral aos iniciantes simplesmente os tratam como “inexperientes e deslumbrados.”

São duas visões diferentes e complementares sobre trabalho gratuito. No Oene, tivemos uma grande discussão sobre as causas e consequências da proliferação desse fenômeno. Adianto que não chegamos a um consenso, tal como Tati Bernardi e Juliana Cunha também não. São argumentos muito bons e falam sobre partes distintas do problema. Por isso, concordamos em discordar sobre as causas, a dimensão e até mesmos as razões que nos levaram a trocar horas das nossas vidas por um portfólio que nunca, até onde se sabe, pagou uma conta de luz. Menos em um ponto.

Chegamos à conclusão de que um dos motivos para a proliferação do trabalho gratuito é o onipresente networking: a obrigação de construir relações o tempo inteiro com o objetivo de conseguir algo no futuro.

Trabalhos intelectuais, no final das contas, dependem de uma combinação aleatória de indicações para acontecer. Um indica o outro, que indica o um, que indica o fulano, que indica o siclano, que escreve um artigo de graça “pra você lembrar de mim quando abrir uma vaga”. Isso não é um fenômeno restrito nem ao Brasil nem à área em que atuamos. O nascimento, a consolidação e a proliferação do networking ainda vão merecer textos só para eles. Porém, no nosso caso, ele tem uma consequência cruel: é tão disseminado que nos vemos obrigados, algumas vezes, a trabalhar de graça ou por pouco, muito pouco.

Essa obsessão pode transformar a vida em uma eterna busca por trabalho. Você não sai mais por sair, para pensar, para se divertir. Você sai para construir relações. Você não para de trabalhar nem mesmo enquanto está no restaurante ou comprando artesanato numa praia do litoral norte de São Paulo. Sem perceber, você só para quando dorme – assim como o seu avô agricultor… O networking nos promete um futuro dourado, mas só entrega mais e mais horas de trabalho.

No final das contas, nos convencemos de que trocamos nosso tempo por aquilo que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de capital social. Embora eu tenha várias restrições a Bourdieu, o conceito é iluminador. Assim como você pode acumular capital econômico e erguer um negócio, o seu capital social é a rede de relações acumuladas durante os anos e que influencia os rumos tomados por você nesta longa estrada da vida. Assim, ao aceitar um trabalho não-pago, você está apostando que, no final do dia, estará acumulando capital social. É o famoso “vou trabalhar aqui, ganhar pouco, vou ganhar quase nada por um tempo, porque esse trabalho vai me abrir portas no futuro”. E, de fato, é muito difícil pensar em uma carreira, um empreendimento ou o que seja sem que exista uma boa rede de relações. Para o bem e para o mal, estamos conectados, confiamos na indicação dos nossos amigos e é muito mais seguro e rápido delegar um trabalho a quem você já conhece ou é colega de alguém em quem você confia.

Esse é o argumento prático e honesto do jornalista Luke O’Neil na New Republic, que diz “sim, você vai ter de dar seu trabalho de graça”. É a sua moeda para conseguir outros trabalhos que talvez te paguem melhor no futuro porque o mercado está organizado assim: o dinheiro das grandes empresas escasseou (ao menos é isso que ouvimos nos últimos anos) e, ao mesmo tempo, a oferta de criatividade aumentou – há cada vez mais gente escrevendo, filmando, gravando e editando. O seu trabalho vale alguma coisa – mas para você, não para as empresas e pessoas que o consomem. Então, o jeito é construir relações e esperar que elas deem algum resultado – o que não é garantido e pode ter resultados cruéis.

Afinal, poucas pessoas podem se dar ao luxo de trabalhar de graça para construir relações. O networking tem um limite, como sabem as pessoas que não tem um bolso infinito e tiveram que trabalhar como vendedoras quando a abastada colega de faculdade pôde pegar um estágio “bacana”, que pagava quase nada. E isso não é ruim só para elas. As empresas e a sociedade, a longo prazo, também vão sair prejudicadas. Se apenas poucas pessoas, geralmente de classe média e classe média alta, vão trabalhar em comunicação, cultura e moda, a produção de cultura e informação vai nascer com um sotaque de classe. Vamos ter uma visão muito turva e seletiva de nós mesmos. Ela sempre pode ser superada, claro, como mostram grandes escritores que conseguiram ir muito além da sua própria origem. O maravilhoso “Na pior em Paris e em Londres” foi feito por George Orwell, nascido na elite britânica, por exemplo. Mas, sinceramente, nós ainda não sabemos todos os efeitos que isso pode ter a longo prazo – seja na economia, ou na cultura.

Então a gente pode chegar à questão: E aí? O que fazer? Uma campanha contra o networking? Deixar tudo como está porque, afinal, o mundo é assim mesmo e um dia a gente vai encontrar uma solução? A questão é mais complicada.

A obsessão por construir relações tem vários problemas, mas também uma infinidade de benefícios práticos: para muita gente, ela economiza tempo, esse recurso tão escasso ultimamente. Fortalece relações de confiança, o que não é necessariamente ruim.  Em alguns casos, parece networking, tem cara de networking, mas é só a boa, velha e necessária camaradagem: você constrói um site para um amigo porque gosta dele, não porque espera obter algum benefício no futuro. Mas talvez o mais complicado seja tentar resolver uma relação social por decreto: o simples fato de declarar “vamos acabar com o networking” é tão inócuo quanto dizer “vamos acabar com o hábito de falar ao celular em qualquer lugar”. É desejável? Talvez sim, talvez não. O networking não é ruim por si. O ruim é o tamanho que ele tomou.

Ele ficou enorme, virou um monstro e se transformou numa obrigação. Na sua versão light, é o email que alguém manda de tempos em tempos para uma lista de contatos para lembrá-los de que ele continua por ali. No módulo intermediário, é ir a uma festa não para se divertir, mas principalmente para encontrar pessoas e fazer contatos. No estágio final, é trabalhar de graça. A lista é imensa e uma grande fonte de constrangimento.

Isso acontece porque, em alguns casos, ele se tornou o único critério de contratação e promoção. Revistas de negócios e carreira, como a Exame, têm centenas de textos sobre o assunto justamente por causa da força que esse fenômeno exerce sobre as nossas vidas. O networking desenfreado distorceu a forma como nos relacionamos, como avaliamos o nosso trabalho e o trabalho dos outros e, pior, como vivemos nossos dias sobre a terra. É sinal de que alguma coisa vai não vai muito bem quando uma boa parte da sua vida é dedicada a construir relações com objetivos profissionais. No limite, as relações que você tem são mais importantes do que as funções que você desempenha e todos os seus amigos não são apenas pessoas que você quer bem, mas pessoas que podem te indicar para outros cargos e funções.

O trabalho gratuito, no final das contas, é um sinal desesperado de que o meio (o networking) se tornou mais importante do que o fim: ganhar um salário para ter uma vida, para ter dias interessantes neste mundo. No final das contas, o trabalho voltou à sua raiz etimológica, mas para a mais sombria delas: uma tortura que nos impomos. Mas, dessa vez, sem nos darmos conta disso.

 

[Imagem: Reprodução do grafite de Banksy em Boston/2010. Compre aqui.]

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