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Levando a comida de Game of Thrones para sua mesa


Um dos motivos do sucesso da série “As Crônicas de Gelo e Fogo” é a maneira com que George R.R. Martin, desde os primeiros parágrafos, descreve em minuciosos detalhes os personagens, cenários e objetos. E não são apenas espadas, dragões e paisagens geladas que ganham todos aqueles adjetivos. Parece que o autor tem uma carinho […]

Um dos motivos do sucesso da série “As Crônicas de Gelo e Fogo” é a maneira com que George R.R. Martin, desde os primeiros parágrafos, descreve em minuciosos detalhes os personagens, cenários e objetos. E não são apenas espadas, dragões e paisagens geladas que ganham todos aqueles adjetivos. Parece que o autor tem uma carinho especial pela comida. A série é uma rica aventura para os amantes da boa cozinha, que passa pelos desjejuns simples dos campos de combate e dos acampamentos, a controlada ração dos prisioneiros, os fartos banquetes festivos e os incontáveis cornos de cerveja e taças de vinho, bebidos como água. A comilança é fartamente exposta na série produzida pela HBO, que virou um surpreendente hit, e deixa nos espectadores a questão: como é transportar o paladar do mundo mítico e medieval de George Martin para uma cozinha normal, não cenográfica, em qualquer lugar do nosso planeta?

Em março de 2011, logo quando a série foi lançada, os comes e bebes dos livros ganharam vida real em uma estratégia de divulgação. Em parceria com o chefe de cozinha Tom Colicchio, conhecido pelo reality show Top Chef, o canal fechado promoveu uma ação publicitária nos EUA, a bordo de um caminhão de comida. “No livro e também na série, a comida é muito importante. Então, nós estamos tentando aproximar alguns pratos [do público]… Vamos levá-los até as ruas de Nova York e Los Angeles em um caminhão de comida”, explicou Colicchio, em um vídeo da ação. Neste ano, uma nova edição do evento foi realizada, desta vez, em Londres, com a participação do ator Isaac Hempstead Wright, que dá vida a Bran Stark, no seriado. Mas ok, será que, além da ficção da TV e do criativo ambiente publicitário, é possível trazer os sabores de Gelo e Fogo para a nossa própria casa?

Recriar as receitas da obra no dia a dia e imaginar como elas seriam servidas foi algo que mexeu comigo. Essa ideia me levou a conhecer o interessante trabalho da dupla de food lovers Chelsea Monroe-Cassel e Sariann Lehrer, autoras do blog Inn At The Crossroads. O site, que carrega o nome de uma locação importante da série, traduzido como Estalagem do Entroncamento, na versão brasileira, surgiu quando as então colegas de quarto descobriram que tinham vários pontos em comum, em especial o amor por comida e a admiração pelos livros de George Martin. Na busca de entender melhor essa história e iniciar as minhas próprias experiências, enviei uma mensagem à Chelsea, que, atualmente, edita o Inn sozinha, e convidei-a para uma entrevista. Muito solícita, a blogueira contou vários detalhes sobre o projeto, que começou com uma receita dos bolos de limão tão apreciados pela personagem Sansa Stark, em março de 2011.

Para reproduzir os pratos da obra literária, Chelsea e Sariann realizaram um extenso trabalho de pesquisa sobre a culinária de períodos ancestrais, como o Medieval, o Romano e o Elisabetano. As atualizações do Inn, que só em 2012 recebeu 300 mil visitas de 187 países, seguem um rito de produção: em geral, cada postagem traz trechos dos livros que falam sobre determinada comida, avaliação do prato, aspectos históricos, adaptações e sugestões modernas e, por fim, a preciosa receita (sempre belamente fotografada). A fórmula deu tão certo que, em 2012, com o aval de George Martin, as fãs lançaram o livro A Feast of Ice And Fire: The Official Game of Thrones Companion Cookbok, uma obra que reúne mais de 100 receitas, divididas entre seis regiões de destaque na ficção: A Muralha, O Norte, O Sul, Porto Real, Dorne e Além do Mar Estreito. A produção do livro, que já vendeu mais de 60 mil cópias, aconteceu após um primeiro contato via email com o autor, no qual apresentaram o blog e elogiaram a série. “Olhares, sons, cheiros – são as coisas que fazem uma cena ganhar vida. […] É por essa razão que eu dedico tanto tempo e esforço descrevendo a comida que meus personagens comem: o que é, como é preparado, como se parece, como é o cheiro, como é o gosto. Essas características formam a base das cenas, dão à elas textura, as fazem vívidas, viscerais e memoráveis” – justifica George Martin, em texto assinado especialmente para a introdução do livro de receitas.

A-Feast-of-Ice-Fire

Durante a empenhada produção, as autoras perceberam um fato que, com certeza, vários leitores de George Martin também já devem ter reparado: não dá para comer tudo o que é apresentado nos livros. Inclusive, no blog há uma lista chamada Dishes even We can’t make (Pratos que até a gente não pode fazer). “Alguns desses pratos estão na lista porque os ingredientes são ilegais ou muito caros. Por exemplo, eu imagino que eu poderia ter sérios problemas por caçar uma garça-real, e um cisne custaria mil dólares! No entanto, eu ainda estou procurando por camelo e jacaré, os quais acredito que conseguirei encontrar”, explica Chelsea. Outros exemplos da lista – que provavelmente nunca serão vistos na marmita do brasileiro – são carnes de cachorro e de pavão. Apesar de algumas restrições, o trabalho de aproximação da fantasia à vida real das autoras traz pratos inusitados e desafiantes. Uma das ideias que achei mais criativas foi a união de vários cupcakes vermelhos para imitar um coração de cavalo – uma alusão ao momento em que Danerys Targaryen se apresenta ao povo Dothraki –, postado no blog em comemoração ao Dia dos Namorados de 2012.

Heart

“Aquele coração de cupcakes foi definitivamente louco. Eu também gostei muito de fazer o bolo de árvore represeiro. Estou tentando fazer um crânio de açúcar recheado com creme frutado, mas esse ainda está em desenvolvimento”, comenta Chelsea.

Recriando Westeros em casa

Depois de entender o projeto e ter o livro em mãos, decidi que seria a hora de provar minhas experiências de Gelo e Fogo na cozinha. A primeira parte do desafio foi montar um cardápio para o jantar de teste: além das muitas opções do livro, há receitas complicadas de executar em pouco tempo – pães com vários dias de fermentação e caldos de oito horas de fervura, por exemplo – ou, ainda, aquelas com ingredientes de difícil acesso – como cascavel e gafanhotos. Após bastante consulta, cheguei às seguintes escolhas: Salada na Muralha (Salad at the Wall), Costelas de Cordeiro (Rack of Lamb) e Vinho Quente (Mulled Wine), todas da região da Muralha e com indicações de combinação das próprias autoras, e Feijão Branco com Bacon (White Beans and Bacon), de Porto Real. Para a sobremesa, escolhi de cara os Bolos de Limão da Sansa (Sansa’s Lemon Cakes), uma receita que também está na sessão da capital dos Sete Reinos. A segunda parte foi organizar a decoração para servir os pratos e chamar os convidados – os quais eu acredito terem fornecido uma avaliação justa, visto que o grupo de degustadores estava formado por fãs de Game of Thrones e pessoas que não conheciam a história.

mesa

A terceira e última – e decisiva! – parte do trabalho foi levar à mesa o resultado de vários dias de preparação. Falando assim, até parece que foi complicado seguir as receitas – mas não, fique tranquilo, pois o passo a passo do livro é ótimo, didático e com várias dicas. Na verdade, foi necessário bastante planejamento do que eu iria fazer e também senti certa dificuldade em converter as medidas do “sistema imperial” (libras, onças e pints) – e, também, aumentar as quantidades de ingredientes, uma vez que servi o jantar para 10 pessoas (bem mais do que o indicado em todas as receitas). Outro pequeno obstáculo foi encontrar alguns produtos, como tomilho, amêndoas e gengibre, mas acredito que foi devido a um problema de abastecimento nos mercados locais.

Mas partindo para a cozinha, de modo geral, as cinco receitas são bastante simples. Me surpreendi com o tempo que demorei entre a preparação, o cozimento e a montagem, que foi bastante rápido. Ao todo, devo ter demorado, aproximadamente, duas horas e meia na cozinha, desconsiderando a receita dos bolos de limão, que optei por preparar no dia anterior. Em relação aos ingredientes, poucos foram modificados ou não utilizados. O caso em que isso aconteceu foi no Poudre Douce, uma receita medieval básica de mistura de temperos do livro, que serve para pratos variados, como no Vinho Quente e no Feijão Branco com Bacon. Não tive como adicionar o galangal, espécie asiática de gengibre que não encontrei na minha cidade (interior do Rio Grande do Sul) e o gengibre em pó, pois só o encontrei fresco, então tive que adaptar com as raspas. Outra pequena alteração que necessitei fazer foi também no Vinho Quente: a receita pedia a adição de cranberry, uma fruta que só é encontrada no Brasil em forma de suco e olhe lá – não a encontrei por aqui. Como a receita pedia que a fruta fosse desidratada, resolvi escolher outra nas mesmas condições (no caso, ameixa). Já na parte do preparo, como disse, tive poucas dificuldades. A única real diferença foi no tempo de cozer os feijões e assar a costela de cordeiro. Como forma de deixar o ponto das duas receitas o mais próximo do paladar brasileiro – feijões tenros e carne mais passada – foi necessário aumentar o tempo de cozimento e de forno.

Feijão Branco com Bacon de Porto Real

Feijão Branco com Bacon de Porto Real

Entre os pratos mais apreciados no jantar, embalado propriamente com a trilha sonora da série, estiveram os Bolos de Limão. Para nós, brasileiros, acostumados com grandes fatias de bolo, é engraçado ver essa receita, na qual cada bolo é bem pequeno, semelhante a um biscoito. Além disso, não é só no tamanho que são parecidos, mas também na textura: por dentro, são macios, mas, por fora, guardam certa resistência ao morder, quase como cookies. Na sequência, outra receita muito aplaudida foi o Vinho Quente, que é quase igual ao quentão brasileiro, mas tem um sabor menos adocicado e bem mais marcante do vinho. Como fiz uma versão para teste e achei que o pessoal apostaria mais na cerveja, acabou faltando para todo mundo repetir. Mas, atendendo ao pedido da galera, certamente essa receita vai ser refeita muitas vezes. Seguindo nas avaliações, vieram os feijões com bacon, que todo mundo achou o tempero delicioso. O porquê disso, mais do que o ‘Poudre Douce’, está, onde mais, na gordura do bacon, na qual o feijão foi cozido. Essa novidade o pessoal não gostou muito de saber, mas aí o estrago já estava feito e danou-se a dieta (haha!). Depois veio a salada, que chamou bastante atenção pela mistura de sabores e o toque agridoce. Inclusive, uma das convidadas, que não gosta de saladas, foi a que mais repetiu os verdes da Muralha e disse que foi uma das suas receitas favoritas da noite. Logo, essa também precisa ficar anotada no caderninho.

Cordeiro

Costelas de Cordeiro

Por fim, as maiores críticas ficaram com o cordeiro: apesar do tempero de cobertura ser muito saboroso (combinando vinagre, farinha, alho, tomilho, óleo de oliva, salsa e miolo de pão), o pessoal achou que a carne precisava ser um pouco mais passada e com menos gordura. Cogitamos que seria interessante provar os mesmos temperos com um corte de gado um pouco mais magro, como um vazio, por exemplo. Além de mudar um pouco o paladar, com certeza iria facilitar a limpeza da cozinha, que precisou de boas doses de água quente para dissolver a gordura do cordeiro. Finalmente, depois de cozinhar, servir, papear e limpar a cozinha, chegou a hora do descanso. Para completar essa experiência rica e interessante, ainda estou planejando encaminhar as fotos dos pratos para o Inn, que tem uma sessão específica para os testes caseiros de fãs do blog – comprovando que, sim, é possível fazer as delícias da série na cozinha do dia a dia. E, claro, decorar a sua mesa a la Game of Thrones com coisas que todo mundo tem em casa, como tigelas, taças não necessariamente iguais, utensílios de madeira, folhas ou flores secas e velas variadas.

A síntese de toda essa experiência é que o ambiente épico de Martin, mais do que encantar pela fantasia, traz um ambiente que toca sutilmente a nossa realidade. Se você se interessou pelo trabalho do Inn at The Crossroads, com certeza irá curtir o blog Game of Brews, também escrito por Chelsea. No site, ela ensina a produzir várias bebidas em casa, como cidras e vinhos – tudo com simplicidade, tal qual no blog de comidas. Outra iniciativa da autora, que deve agradar os fãs de Martin, é o ebook, Game of Thrones Party Planning Guide, no qual Chelsea dá dicas para os leitores prepararem as suas próprias festas temáticas. Todo o trabalho realizado e as oportunidades que surgiram a partir dele, mais do que a própria satisfação pessoal das autoras, também resultou em destaque e reconhecimento em diversas mídias. “Eu me sinto muito abençoada. Eu nunca previ nada disso quando eu ansiava por aqueles primeiros bolos de limão, então cada nova etapa têm sido maravilhosa e excitante. Eu apenas espero que o gênero de comida de ficção continue a crescer”, concluiu Chelsea.

E, agora, leitor, o que está esperando para preparar as delícias de uma mesa dos Sete Reinos? Faça a sua experiência e compartilhe com o mundo!

Fotos do jantar: William Alexandre Schoenau / Outras fotos: Divulgação/Inn at the Crossroads

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