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Malafaia “perdeu” e a ciência ganhou? Não tão rápido


“Me parece que o único motivo pelo qual o álcool é legal no Brasil, um dos motivos políticos é que simplesmente o cristianismo é dominante, e a religião dos Citas não teve esse privilégio de dominar e convencer um líder do Império Romano a adotar uma religião e forçá-la ao resto da população”. “Algumas hipóteses, […]

“Me parece que o único motivo pelo qual o álcool é legal no Brasil, um dos motivos políticos é que simplesmente o cristianismo é dominante, e a religião dos Citas não teve esse privilégio de dominar e convencer um líder do Império Romano a adotar uma religião e forçá-la ao resto da população”. “Algumas hipóteses, de certos historiadores e arqueólogos, é sobre como a droga é tratada na própria Bíblia. Dizem que Jesus aplica um certo tipo de emplastro de ervas medicinais, pra ajudar num milagre, numa cura. É muito irônico, mas é possível, não sei qual é a probabilidade disso, que o próprio Jesus Cristo utilizou na narrativa bíblica a maconha como erva medicinal. Outra hipótese, o que também foi dito por historiadores e arqueólogos, é que é possível que todas aquelas visões e relatos de Moisés podem ter tido a influência de um cogumelo que cresce na área (risos).”

O autor da aula de hipóteses históricas é o geneticista Eli Vieira. Procurei a origem da história levantada por Eli e defendida no último Bulecast, e todas elas remetem a uma pesquisa publicada em 2003 na High Times, revista americana não muito acadêmica sobre o consumo de drogas. No seguimento da conversa sobre a Descriminalização da Maconha, o interlocutor Edward MacRae, pesquisador da UFBA e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, arremata: “Essa teoria que você está falando pra algumas pessoas é absolutamente estapafúrdia, mas não é.”1.


Corta para uma semana depois. Hoje o geneticista Eli Vieira já é uma certa estrela da internet. Lá de Cambridge, onde faz o doutorado na prestigiosa instituição britânica, ele coleciona curtidas, menções e visualizações do vídeo assistido por quase 1 milhão de pessoas. Suas explicações científicas sobre a homossexualidade agora são elogiadas por celebridades, jornalistas e deputados. Dias depois de conversar sobre teorias de uso da maconha na Bíblia (assunto bastante delicado para os cristãos) sem citar fontes ou com estudos não muito confiáveis, Eli, graças às ferramentas da internet, agora tinha cacife e audiência para bater de frente com Silas Malafaia, o milionário e influente pastor da Assembléia de Deus Vitória em Cristo.

A discussão, que começou na desastrada entrevista de Marília Gabriela com Silas Malafaia no domingo, se concentrou em um ponto. Nela, o pastor fala: “Quem pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética”. Eli Vieira usa isso como fio condutor para mostrar o seu lado científico, e começa o vídeo com uma explicação (meio pedante, se me permite) diferenciando o que é “inato” e o que é predisposição genética – como se deveríamos entender tudo que um pastor fala literalmente. E diz: “Posso garantir que, sim, há uma contribuição dos genes. Isso não é passível de ser negado mais.” Não é o que pensa Silas Malafaia, que levou a discussão para o Twitter.

Veja os melhores momentos aqui.

O Capítulo Inteiro do Manual de Genética do Comportamento que Eli tuita tem as tabelas que ele cita no vídeo, triunfante – e vale a leitura, por ter linguagem bem acessível para quem entende o inglês. Aprendo por ali que desde os anos 50 foram feitas dez (e não dezenas) de pesquisas importantes com gêmeos para verificar se há, como ele sugere, uma prova cabal da influência genética na definição da homossexualidade.

Os estudos trazem, de fato, com graus bastante variáveis de concordância, o mesmo achado: há uma chance consideravelmente maior de um gêmeo monozigóticos ser homossexual quando o outro é, se compararmos com os gêmeos dizigóticos (chamados “fraternos”). Mas há problemas nessas pesquisas, que o próprio estudo citado por Eli pontua. Há o problema de os participantes da maior parte dos estudos terem sido selecionados a partir de chamadas em revistas para gays e lésbicas, a possibilidade de gêmeos idênticos terem tido a mesma criação (o que dificulta o isolamento do fator ambiental), a falta de variedade das amostras, basicamente nos EUA, e a absoluta falta de evidências quando falamos de homossexuais mulheres.

A revisão dos estudos citada pelo geneticista termina exatamente com este parágrafo, que eu prefiro traduzir na íntegra:

A essa altura, poucas conclusões podem ser atingidas com certeza no que diz respeito às determinantes genéticas e ambientais para a orientação sexual. Importantes inovações de metodologia de pesquisa têm o maior potencial para aprofundar o nosso conhecimento nas origens e desenvolvimento da orientação sexual humana. Pesquisas futuras deverão tentar também integrar outras abordagens biológicas, para prover informações valiosas sobre os caminhos específicos pelos quais os genes exercem a sua influência em orientação sexual e seus correlacionários.

É bastante diferente de “isso não é passível de ser negado” ou “A genética está dizendo que quando um gêmeo é homossexual o outro também é. E a chance é maior quanto maior é o grau de parentesco entre eles. Então como a genética não tem a ver, Malafaia?”, algumas das frases proferidas no vídeo.

Em declarações posteriores, parece que o geneticista baixou o tom, deixando claro que o ambiente era igualmente importante, e falando que de fato a principal razão de ser do vídeo, era a “causa” da promoção da igualdade das pessoas independente da orientação sexual. Agora, enquanto escrevo, estamos em um terceiro momento do imbróglio, quando começam a vir outras pessoas da própria Academia questionando a validade da argumentação. No que ele responde:

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O que me leva ao real problema, na minha visão, dessa história toda.


Ontem, acompanhando o Twitter e o Facebook, pareceu que a Ciência ganhou de goleada. Foi “uma aula da razão sobre o obscurantismo”, que deveria colocar um ponto final no assunto. Era “o cara que fez fortuna com a fé de muitos”, que não acredita na evolução das espécies, sendo derrotado pelos fatos por alguém razoavelmente como a gente que fala termos bonitos como monozigóticos e desfilava tabelas que pouquíssima gente tinha visto antes mas que, hey, seems legit. Não que eu não tenha vibrado um pouco no primeiro momento. Afinal, acho que o Eli, eu e boa parte dos leitores estamos todos aqui na mesma causa: também sou contra a ideia de Silas Malafaia de achar que seria algo desejável “consertar” homossexuais, de tratar uma orientação sexual como doença. Isso, sim, tem que ser combatido de alguma forma.

Mas não sei se usar a ciência como algo infalível, com uma fé não muito diferente da fé na Bíblia, como solução. Eu sou apenas um jornalista, mas, de novo, encorajaria qualquer pessoa que sabe razoavelmente inglês e tiver algum tempo sobrando para dissecar as conclusões dos estudos apresentados por Eli Vieira. Até onde eu chequei, as pesquisas apresentadas ali fazem o que boas pesquisas em um campo relativamente novo deveriam fazer: dizem o que os estudos indicam e quais os próximos passos que merecem ser atacados para um entendimento melhor do assunto. Nenhuma pesquisa fala “é o que a ciência fala, se liga aí Pastor bbk”2.

Eu até entendo que muita gente tenha se sentido incomodada com as coisas que Silas Malafaia falou no domingo3. Mas o problema não é só o tom da revanche, mas a confiança cega em “estudos”. Quando é conveniente para Eli Vieira, como no podcast narrado lá no início, ele cita hipóteses4. Quando Silas cita livros e outros estudos que contradizem a sua visão, que podem até ter base científica, isso é “charlatanice”.

Isso pode soar “anti-ciência” e não, não é o caso – mas bem o contrário. Mas não sei se temos que adotar uma postura, na falta de um termo melhor, cientificista, de achar que um estudo X valida qualquer ideia, ou se precisamos pensarmos mais na floresta e menos nas árvores. Veja o que aconteceu na maior parte dos últimos 10 anos no debate sobre o impacto humano no aquecimento global, especialmente nos EUA. Há basicamente um consenso sobre as causas – e certamente sobre as consequências que vemos –, mas a virulência com que muitos dos proponentes dessa tese estava impondo a noção aos “céticos” ajudou a politizar o debate, e deixou a real questão (o que vamos fazer?) em segundo plano5.

E o que vimos no caso “Malafaia x Geneticista” foi basicamente isso. Alguém levantando o cedro mágico de “artigos peer reviewed” para provar algo que ainda não está 100% provado. Não desmereço a didática de Eli Vieira, e certamente ele escreve coisas bem interessantes, como uma crítica bem fundamentada sobre o livro de Miguel Nicolelis6. Para os otimistas, o vídeo serviu para refrescar alguns conceitos de genética que eu aprendi no Ensino Médio. Mas há um risco de reduzir excessivamente a questão, como pontuou Regina Facchini socióloga do Núcleo dos Estudos de Gênero da Unicamp em seu Facebook:

Todos já ouvimos sobre estudos que procuram demonstrar que o “comportamento sexual humano” sofre infuências genéticas ou biológicas de modo mais amplo. Não há novidade nisso. Esses estudos pipocam na mídia há décadas. O novo é assumir e procurar difundir, de uma perspectiva da genética, que há demonstrações científicas dessa influência, mas também há o fato de que o comportamento humano NÃO É DETERMINADO geneticamente.

Lamento o uso que se tem feito na rede desse vídeo pra dizer que “vejam, que bom, a gente nasce assim!”. Além de simplificação absurda da questão e distorção do que o autor do vídeo diz, há uma acomodação a um olhar reducionista em relação ao “comportamento humano”, que desconecta a questão de seu norte político mais profícuo: trata-se de reconhecimento ou não dos direitos humanos (e, portanto, do status humano) de um contingente de pessoas que se identificam ou são identificadas a partir de desejos e afetos não direcionados para pessoas do “sexo oposto”.

Observando tudo isso, meu primeiro impulso é um olhar bastante pessimista sobre as possibilidades e limites da articulação entre ciência e luta política. Tendo a pensar que as pessoas, inclusive ativistas por direitos LGBT, não estão prontas ou dispostas a ver complexidade alguma e que de fato esperam que alguém aponte uma origem única e bem simples do “comportamento humano”. O que mais pode explicar que Malafaia tenha tantos ouvidos e que a difusão do vídeo de Eli Vieira tenda a aquipará-lo a um determinista de quinta categoria? Infelizmente, me parece que esse desejo de simplificação é nosso maior inimigo político e – o pior! – ele mora dentro de nós mesmos.

UPDATE: Uma versão anterior deste texto colocava as aspas como “isso não é passível de ser discutido”, quando na verdade Eli falou “isso não é passível de ser negado mais”. Peço desculpas ao cientista pelo erro de atribuição, mas definitivamente não foi mal intencionado.

UPDATE 2: A Sociedade Brasileira de Genética publicou no último dia 7 de março o seguinte manifesto:

A Sociedade Brasileira de Genética endossa as informações fornecidas pelo biólogo Eli Vieira em resposta ao pastor e psicólogo Silas Malafaia acerca das bases genéticas da orientação sexual.

A orientação sexual humana é uma característica multifatorial, influenciada tanto pelos genes como também pelo ambiente. Há fortes evidências de que o substrato neurobiológico para a orientação sexual já está presente nos primeiros anos de vida. Não há evidência de nenhuma variável ambiental controlável capaz de modificar de maneira permanente a orientação sexual de um indivíduo. Assim, essa faceta do comportamento humano é resultado de uma interação complexa entre genes e ambiente, em que nenhum dos dois tem efeito determinante por si só. Alegar que a genética nada tem a contribuir na compreensão da origem deste comportamento é ignorar meio século de avanços na nossa área.

Entendemos, também, que os fatos acerca dessa questão são desvinculados do debate ético sobre os direitos das pessoas que manifestam orientações sexuais e identidades de gênero.

No entanto, neste momento histórico em que o físico Stephen Hawking faz campanha para que o governo britânico se retrate pelos males que causou a Alan Turing, homossexual e pai do computador, expressamos que nós, como cientistas, desejamos um mundo mais igualitário, em que as pessoas não sejam julgadas pela sua orientação sexual ou identidade de gênero, mas apenas pela firmeza de seu caráter. Um mundo assim é um mundo mais receptivo ao pensamento científico, que se constrói de forma humilde e tentativa, em vez de dogmática e impositiva.



  1. Costumo assinar embaixo das ideias de Denis Russo a favor da legalização de algumas drogas, mas os argumentos mostrados no podcast são meio malucos, com base científica bastante discutível: em um momento, o professor convidado ao programa defende que “não há dúvidas que o crack tem de ser legalizado”. 

  2. A busca pela determinação genética da sexualidade já tem mais de 20 anos, e volta e mai anunciam “achados definitivos” que são posteriormente desprovados. Em 1993, em artigo publicado na Science, cientistas afirmaram ter descoberto o “gene gay”. O Council of Responsible Genetics tem um bom resumo disso aqui

  3. Se a parte homofóbica deu arrepios a muita gente, os primeiros 10 ou 12 minutos da entrevista foram até interessantes porque Silas tentou desmontar – com algum sucesso – a clássica visão preconceituosa sobre “os crentes”: que seriam todos uns ignorantes sendo estorquidos por gente que promete vender lugar no Céu. Voltaremos a falar disso algum dia, mas é interessante ver o tanto de “crente é tudo idiota” que você encontra em comentários sobre esta polêmica em vídeos no Youtube e isso é considerado ok e engraçado. 

  4. Para ser justo, são hipóteses “de humanas”, que não são comprováveis como algumas das ciências biológicas. 

  5. Escrevi pra Superinteressante uma matéria sobre os céticos do aquecimento global. Naquela época, entre 2006 e 2007, havia de fato uma cruzada contra esses cientistas e alguns estudos que ajudavam a sustentar teorias céticas – é possível lê-la na íntegra aqui. Eu terminava com uma frase de Michael Crichton: “A ciência não tem a ver com consenso. Consenso é coisa de política. Os maiores cientistas da história são grandes justamente porque desafiaram o consenso”. 

  6. Eli resenhou, em 2011, o livro Muito Além do nosso eu de maneira tão crítica que mereceu briga pública e block no Twitter. Nicolelis achou que ele não tinha credenciais para discutir aquilo. 

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