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Os problemas de seguir o mantra “ganhe a vida com o que você gosta”


A ideia de que só é feliz quem trabalha com que ama pode ter seus efeitos colaterais

Você possivelmente já viu o célebre discurso de Steve Jobs aos formandos de Stanford em 2005. Em um dado momento, ele diz o seguinte:

“Você precisa descobrir o que ama. E isso é verdadeiro para o seu trabalho da mesma forma que é para quem você ama. O seu trabalho preencherá uma enorme parte da sua vida, e a única maneira de estar realmente satisfeito é se dedicar ao que você acredita ser um grande trabalho. E a única forma de fazer um ótimo trabalho é amar o que você faz.”

Jobs foi um dos maiores defensores da ideia de que seria preciso “trabalhar com o que você ama” para conseguir uma realização pessoal. Não sabemos quem começou com essa ideia, mas livros de auto-ajuda, reportagens daquele cara “que largou tudo pra fazer __ ” e vídeos inspiradores martelam na nossa cabeça a noção de que, se não estamos fazendo o que amamos, há algo errado. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas mais jovens. Naquele famoso vídeo produzido pela Box1824 para explicar a Geração Y“, fica explícito que a única forma de “atingir uma vida plena” é trabalhando com o que gosta. Ao final de seus 10 minutos, ele pergunta: ”você está fazendo o que ama agora mesmo? Então comece!”

Em um excelente artigo para a revista Jacobin, a historiadora da arte Miya Tokumitsu apresenta uma teoria interessante: a de que esse papo aspiracional não é bom para a nossa sociedade. Em primeiro lugar porque, é óbvio, nem todo mundo pode se dar ao luxo de fazer o que quer[1], de perseguir o sonho, de “largar tudo”. Esse papo é interessante para quem já tem algo – seja ela uma família com suporte financeiro (Plano B: voltar para a casa dos pais), diplomas ou contatos. O mantra do “Faça o que você ama” (DWYL, no acrônimo em inglês) se dirige a uma certa elite econômica, que passa por Steve Jobs, os alunos de Stanford e alguns publicitários/designers/jornalistas trendsetters assistindo o vídeo sobre a Geração Y, que acham ali uma justificativa para não aceitar ordens ou se acostumar a uma rotina.

A outra questão é que esse mantra é problemático para a nossa vida em sociedade. O discurso de Jobs, Miya aponta, fala “você” e “seu”, o tempo todo. Como personalista que era, o fundador da Apple fazia parecer que a empresa era fruto de sua paixão, mas, ao fazer isso, “ele ocultou o trabalho de milhares de trabalhadores que permitiram a Jobs realizar o seu amor”. Ela prossegue:

A violência dessa omissão precisa ser exposta. “Faça o que você ama” pode parecer inofensivo e precioso, mas em última instância é individualista ao ponto do narcisismo. Ao nos manter focados em nós mesmos e na nossa felicidade individual, a lógica do DWYL nos distrai das condições de trabalho dos outros enquanto valida as nossas próprias escolhas e nos exime das obrigações com todos os que labutam, amando ou não. Pense na grande variedade de trabalho que permitiu a Jobs passar apenas um dia como CEO: a comida colhida nos campos, transportada por longas distâncias. Os produtos da sua empresa montados, empacotados, colocados em contâineres. A publicidade da Apple pensada, roteirizada, atuada, filmada. Processos encaminhados. Com a maior parte das elites ocupadas em seus trabalhos apaixonantes, não é de se surpreender que as condições de trabalho de seus subordinados (salários abismais, preço alto de creches, etc) mal são percebidas como problemas políticos? Ao ignorar a maior parte dos empregos e reclassificar o resto como amor, o “DWYL” pode ser a mais elegante ideologia anti-trabalhadores que apareceu.

Isso não quer dizer que, vamos deixar claro, pessoas fora dos trabalhos associados ao “prazer” (normalmente intelectual) não possam ser felizes em suas funções. É desejável que todo mundo seja feliz com o que faz porque, afinal, desejamos que todos sejam felizes. A questão é que ao enfatizarmos a função “realização pessoal” do trabalho, relegamos ao segundo plano a função social. Por mais individualista que sejam várias das ideias circulando pelo mundo, ninguém vive numa bolha isolada, sem depender do trabalho de outros e da generosidade de estranhos. E, aproveitando o recente aniversário de Martin Luther King, lembremos de sua sabedoria: “Nenhum trabalho é insignificante. Todo o trabalho que eleva a humanidade tem dignidade e importância e deve ser executado com meticulosa excelência.”

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Mas, claro, faz sentido que esse discurso de “faça o que você ama” tenha surgido nesse momento da história. De uma maneira bem simples, passamos milênios achando que apenas trabalhar e poder prover para a família já seria sorte e motivo de felicidade o suficiente. David Whyte, autor de The Three Marriages, Reimagining Work, Self And Relationship, diz que “não importa o que você faz para ganhar o seu sustento. Mesmo que você esteja trabalhando em uma fábrica, há poesia e dignidade a serem ganhos a partir do trabalho duro, honesto, um fato que a maior parte das tradições religiosas reconhece, mas os quais muitos de nós nos esquecemos.” Weber dizia que “o trabalho dignifica o homem”, não “o trabalho que faz feliz”. Como já diria o ditado popular, o sapo pula por necessidade, não por boniteza. Troque “sapo pula” por “trabalhamos” e temos ai uma história resumida da relação do homem com o trabalho ao longo dos anos.

Mas algo vem mudando – e rápido. Compare essa noção de realização intrínseca da labuta ao ditado, que nas redes sociais foi atribuído a Confúcio (sem fontes), repetido por diversos executivos de sucesso: “Escolha um trabalho que você ama, e você nunca mais terá que trabalhar na sua vida”. Então, como ficam as pessoas que só “trabalham”?

Como disse o Leandro aqui outro dia, “a palavra trabalho, lá nos confins da etimologia, é uma atividade a qual você é obrigado a fazer para ganhar a vida. Ou para perdê-la, já que há uma grande corrente de filólogos que defendem a tese de que algumas palavras que usamos para definir trabalho, em várias línguas, têm origem em objetos de tortura”. Há um excelente livro da filósofa da USP Maria Sylvia de Carvalho Franco chamado “Homens livres na ordem escravocrata” que conta como o trabalho era visto com desdém no Brasil colonial. Quem trabalhava era mal visto – porque o bom mesmo era não fazer nada. Mas ai o tempo passa, e, em uma história bem resumida, após a Revolução Industrial o trabalho passa a ser visto, primeiro, como necessidade de todo mundo. E, mais recentemente, na nossa época, como fonte de prazer.

Não há nada de errado, de novo, em seu trabalho ser uma fonte de prazer. Mas ao delimitarmos que ele necessariamente deve ser uma fonte de prazer para uma vida plena, 1) deixamos as pessoas que só trabalham para garantir a sua vida menos realizadas e 2) abrimos espaço para a exploração dos que “trabalham por amor”. De certa forma, relegamos as pessoas que trabalham por trabalhar, mesmo sem nos dar conta disso, a uma categoria inferior. E isso tem consequências sérias.

Pleno emprego. E a felicidade?

Estamos praticamente em uma situação de pleno emprego no Brasil. Mas isso não está trazendo necessariamente mais felicidade. Em 2004, 12% dos brasileiros queriam trocar de emprego. Em 2013, esse número havia aumentado para 56%. Ao alimentarmos a fantasia de que há o “emprego dos sonhos”, podemos estar transformando pessoas que até outra hora estavam satisfeitas em frustrados. Pessoas importantes para a sociedade, que desempenham funções que você possivelmente não estaria disposto. É legal que todos queiram ter seu próprio site, queiram ganhar dinheiro com seu livro de fantasia ou com uma ONG, mas quando falamos que o Brasil tem um “apagão de mão-de-obra qualificada” estamos falando, para começar, em caminhoneiros (130 mil vagas) e reparadores automotivos (90 mil). Se todos forem “em busca dos seus sonhos”, quem vai manter o país funcionando? Não podemos reconhecer mais o trabalho dessas pessoas que se realizam de outra forma? E celebrá-los, inclusive? Primo Levi, um dos maiores escritores italianos do século 20, autor do clássico “É isto um homem?”, sempre dizia que tinha orgulho de ser químico e trabalhar em uma empresa do setor. A literatura, para ele, era inseparável da condição de trabalhador. Por mais que fosse, como ele mesmo admitiu, tedioso ter de separar tantas substâncias, todos os dias.  Mas era preciso fazer, era preciso trabalhar, era preciso fazer esse tipo de trabalho.

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O segundo problema nos leva de novo à praga do “trabalhar por networking”, que discutimos bastante aqui. Trabalhar de graça, por contatos ou por pouco só é possível justamente porque ouvimos dizer que quando fazemos o que gostamos, “não é trabalho” – independentemente se outras pessoas lucrem com isso. Talvez seja possível dizer que a repetição dessa lógica tem a ver com a fala de políticos como Cid Gomes, governador do Ceará, que enfrentou professores grevistas dizendo que eles deveriam se contentar com a situação[2]. “Isso é uma opinião minha que governador, prefeito, presidente, deputado, senador, vereador, médico, professor e policial devem entrar, ter como motivação para entrar na vida pública, amor e espírito público. Quem está atrás de riqueza, de dinheiro, deve procurar outro setor e não a vida pública.”

Já que a satisfação emocional é suficiente e trabalho por amor sequer é considerado trabalho, pra que fazer greve? Pra que exigir melhores salários? A ideia de que sempre há um emprego melhor, que vai “te satisfazer” leva ao pensamento cínico daquele colega de trabalho que ouve uma reclamação e pensa: “não está satisfeito, procure outro”. Miya Tokumitsu acha que poderia ser bom se voltássemos à ideia de que o que fazemos por amor não precisa virar, idealmente, o ganha-pão. Pode ser muito bem um hobby, deixado para as noites livres e os fins de semana. Se você trabalha com o que ama ou ama o trabalho, ótimo. Eu fico feliz por você. Mas este é apenas um dos caminhos de se alcançar a tal “vida plena” .  Não existe receita de bolo, afinal. Um trabalho pleno pode ser um caminho para a felicidade. Mas não o único.

[Foto: Eddie Dangerous/Flickr]


  1. Há uma outra discussão interessante acontecendo nos EUA agora, que é de certa forma análoga a essa: a ideia de que o discurso feminista de emancipação também só é possível para quem tem alguma estabilidade financeira, para começar. A conversa surgiu no fim do ano passado, a partir da divulgação de estatísticas mostrando que mulheres casadas têm melhores condições financeiras. Na Atlantic, Emma Green diz: “Para mulheres pobres e não educadas, especialmente aquelas que têm filhos, a questão de se casar ou não é bastante diferente: é a escolha entre criar crianças a partir de uma ou duas fontes de renda, entre ter alguém para cuidar das tarefas domésticas e criação enquanto cuida de múltiplos empregos.” Esta abordagem quer mostrar que o feminismo, mesmo que de maneira menos aparente, pode ter bandeiras mais fortes ou mais fracas dependendo da condição social. Brigar por melhores creches deveria ser uma delas, por exemplo.  ↩
  2. Eu sou de Brasília e entre os meus colegas de faculdade sempre houve a disputa entre os que “trabalhariam por amor/vocação” versus “passarei em um concurso público pra resolver minha vida”. Quer dizer, essa era a simplificação usada pra quem gostava da guerrinha. Por muitos anos eu mesmo alimentei a disputa, mas ela é boba, olhando em retrospectiva: fazer o que “você ama” pode ser menos útil à sociedade que o trabalho que você considera “chato” de muitos servidores públicos. Ademais, pode ser mais estressante para você, dar menos chance de constituir família (pela dedicação à paixão/trabalho) e uma série de efeitos colaterais que acabam negando qualquer benefício que porventura pudesse existir no trabalho “dos sonhos”. Eu tenho inclusive a teoria hoje de que os salários de muitas carreiras no serviço público (especialmente das menos emocionantes, como às associadas aos técnicos do judiciário) estão infladas porque o governo está pagando um “adicional de custo de oportunidade”. É como se o Estado fosse obrigado a dar um salário melhor, com compensações por tédio, já que estaria impedindo o brasileirinho servidor público a “seguir o seu sonho”. Voltarei a discutir essa teoria aqui em breve.  ↩
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