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Newsletter: David Carr, como acabar com a violência, e a era do “acredito no que quiser”


Agora a Newsletter do Oene também vive para sempre por aqui. Leia agora, assista aos vídeos e guarde os links para ler depois no Oene.

Ei, pessoal, tudo bem? Aproveitando o carnaval? No frio onde estou a folia não é exatamente possível, mas existe também uma folguinha, um feriado chamado “Presidential Day”, que além de celebrar os presidentes dos EUA (!), é uma data importante para a família Obama, que usa o tempo livre para ver Game of Thrones antes de todo mundo.

A nova vida de estudante tem tomado um bocado de tempo, então agradeçam à Camilla, que providenciou mais da metade dos links dessa newsletter. Aliás, falando em vida de estudante, eu e o Leandro Beguoci (também estudando um tempo aqui e dividindo o HQ do Oene no Brooklyn) ressuscitamos O Norte, o nosso podcast que servirá para ver o Brasil de longe, e os EUA com olhos de brasileirinhos. Pense em algo como o Manhattan Connection, mas com muito menos dinheiro e sarcasmo. Ou melhor, não pense no Manhattan Connection, e ouça nosso piloto aqui (em breve, no iTunes).

E dizem que ler cura a ressaca, então vamos lá:

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Polícia, de novo e sempre Essa semana o El País Brasil deu uma reportagem interessantíssima sobre os “kits flagrante” da PM de São Paulo, que servem para encobrir os incrivelmente comuns casos de má conduta policial.

”A fraude é feita da seguinte maneira: um ou mais policiais atiram em uma pessoa e, antes da chegada do socorro ou da perícia, simulam um tiroteio com uma arma não registrada e a deixam ao lado do cadáver. Em algumas ocasiões jogam amostras das drogas para dizer que a vítima da suposta troca de tiros era um traficante que reagiu a uma abordagem policial.”

Também essa semana, continua a discussão sobre a morte de cerca de 15 jovens negros no Cabula, em Salvador, por policiais. A polícia diz que eram traficantes, as famílias dizem que foram executados. Na sexta-feira, outros três jovens foram mortos em uma controvérsia semelhante e a família de um deles afirma que o corpo tinha sinais esquisitos de maus tratos, e com eles a polícia supostamente apreendeu conjuntos estranhamente semelhantes aos kits da PMESP. O atual governador da Bahia gritou “gol”, a Anistia Internacional gritou “falta!”. É o mesmo roteiro de sempre. Tem saída? Esse texto irretocável de Fernanda Mena na Ilustríssima da Folha resumiu o nosso problema, as encruzilhadas e as possíveis soluções.

“A polícia tem vícios e defeitos inegáveis”, afirma José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro. “Só que existe um reducionismo no conceito de segurança pública, que hoje é sinônimo de polícia, quando deveria englobar controle de fronteiras, Ministério Público, Tribunal de Justiça e sistema carcerário”, afirma.

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A morte do símbolo do bom jornalismo – David Carr (da foto no topo), o maior repórter especializado em jornalismo (chame de meta-repórter) que conhecemos, morreu na sexta-feira, em plena redação do New York Times. Para entender o tamanho da perda, sugiro ler o texto que a Daniela Pinheiro escreveu para a PIauí, ou o que colegas como Alexis Madrigal ou Nick Bilton (dois dos meus favoritos) escreveram sobre a experiência pessoal de lidar com Carr. Todos que o conheceram de perto o consideram o jornalista mais generoso com os colegas. Ainda por cima ele tinha uma história impressionante (que envolve bastante crack), como ele conta nessa entrevista que deu para o Ronaldo Bressane quando esteve no Brasil para a última Festa Literária de Paraty (devidamente linkado na newsletter antes).

A especialidade de Carr era realmente falar sobre mídia – e ele tinha a rara capacidade de ter um pé na “velha mídia” e os olhos bem abertos para o que estava vindo. Essa coletânea que a Vox fez com alguns de seus melhores textos é bem boa para começar, mas se você quiser realmente ter uma aula sobre o futuro do jornalismo, pode ir direto para a disciplina que ele deu na Boston University (todas as leituras e exercícios estão linkadas aqui. Pra finalizar, acho que vale assistir a essa excelente mesa redonda.

Pessoalmente, toda vez que eu perdia fé no jornalismo eu lia alguma coisa dele e pensava “é isso, é uma vocação, é uma função social, é o futuro, dá pra fazer melhor, tem jeito”, e me empolgava de novo. Pode ser a saudade de casa também, mas confesso que fazia tempo que eu não chorava com a morte de um completo estranho. Na sexta, meu coração apertou. E, pra completar David Carr era bastante amigo de dois dos meus professores, e estava previsto que ele desse uma aula pra gente durante o semestre aqui. =(

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Ouça O Norte – Sim, o nosso podcast voltou! Agora eu (Pedro Burgos) e o Leandro Beguoci conversamos sobre o preço das coisas nos EUA (alto!) a violência em Nova York (baixa!), e alguns dos maiores choques culturais nesse primeiro mês morando no hemisfério norte.

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A hora e a vez da energia solar no brasil? – Tasso Azevedo defende, mais uma vez, o uso da energia solar como redundância da nossa rede, ou uma espécie de colchão para dar segurança nos picos de demanda no verão. A lembrança é preciosa, porque a seca, como sabemos, não afeta apenas o abastecimento de água, mas o de energia elétrica, já que nossa matriz é completamente dependente do nível das represas de hidrelétricas (e térmicas sujas, quando falham). O texto faz algumas contas simples para mostrar o tamanho da oportunidade perdida.

Em notícia mais ou menos relacionada, a Apple anunciou o investimento de 850 milhões de dólares em um parque solar que fará sua nova sede (e algumas lojas na Califórnia) serem auto-suficientes. Lindo, só que o lugar escolhido para instalar os painéis abriga bastante vida selvagem e espécies ameaçadas de extinção. Ou seja: nenhuma solução é necessariamente verde, ou perfeita.

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A era dourada do “acredito só no que quero” Os EUA estão vivendo uma surreal epidemia de sarampo, que suspeita-se ter se espalhado por causa da crescente recusa de pais em vacinarem os filhos. Esse texto de Eric Weiner no Quartz traz de volta os temas da exposição seletiva e do viés de confirmação (dos quais já falamos muito nas eleições ano passado) para falar também da saúde: será que basta, como acreditam os médicos e cientistas, espalhar as informações sobre as doenças pelos canais normais (mídia, campanhas institucionais)? Weiner acha que não. Especialmente porque muitas das vezes que apresentamos a informação correta, ela vem com uma carga de “esses imbecis não entendem”.

A maneira mais eficiente de corrigir uma informação falsa não é simplesmente apresentando a verdade, ou não apenas, mas se relacionando com as pessoas como iguais, como parceiros intelectuais, mesmo que você considere as visões delas de mundo Paleolíticas. Ao sermos condescendentes, acabamos alienando as pessoas, fazendo com que a mensagem não seja ouvida. Ao invés de começar uma conversa com “fatos”, é melhor “abrir com os valores, para dar aos fatos uma chance de entrar na batalha”, diz o escritor de ciências Chris Mooney na Mother Jones.

Seja como for, o Medium fez outro texto sobre o sarampo, que explica melhor porque ele é perigosíssimo, (já que a nossa geração não tem muita familiaridade com a doença) e porque o movimento antivacina nos EUA é uma péssima notícia para todos.

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Como Nova York diminuiu incrivelmente a violência? – Foi um dos assuntos do nosso podcast: Nova York completou, durante a última semana, um recorde de 12 dias sem registrar um assassinato. Andando por aqui, temos a sensação de estarmos em uma zona extremamente segura. Nem sempre foi assim: há 25 anos, a cidade registrou 2.245 homicídios, proporcionalmente pouco maior do que o Brasil hoje (30/100 mil versus 29,2) e o triplo de São Paulo). Mas em 2014, foram 328 assassinatos no total, e parece que teremos menos ainda este ano. Como chegou-se a isso? É um pouco de um monte de coisa: a Vox listou 16 possíveis causas. Mais polícia e mais prisões, pelo menos no início, parece ter ajudado. Mas outros fatores menos votados, como a legalização do aborto e mudança na composição da gasolina, podem ter tido alguma influência também.

A Atlantic também se debruçou sobre o tema, dizendo que os EUA em geral estão bem mais seguros, mas prender esse monte de gente deixou de ser eficiente, e começa a causar mais violência. E isso nos trás de volta ao Brasil: lembramos desse interessante texto da Pública (publicado na Carta Capital em maio do ano passado) que fala dos presídios privados “modelo” no Brasil e suas contradições. A matéria foca totalmente nos aspectos negativos, conflitos de interesse e o que poderia ser deixado de lado para as empresas que exploram o modelo terem mais lucro. A questão toda é que a lógica de penitenciária privada se alimenta do encarceramento em masa, que está sendo discutido agora nos EUA, algo raramente tocado pelos defensores da política.

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50 tons – A estreia de cinema da semana, da adaptação do que é talvez o livro mais comentado dos últimos anos. Alguns dizem que 50 tons de cinza teria impulsionado a venda de apetrechos sexuais; Mariliz Pereira Jorge diz que os homens podem aprender alguma coisa no livro (spoilers: mulheres ainda querem caras românticos); e Edir Macedo acha que é tudo culpa dos demônios da perversão.

Confesso que não li o livro, mas me contentei com essa deliciosa resenha de Andrew O’Hagan, do London Review of Books. Ele compara 50 Tons aos clássicos de soft-porn dos anos 70 e 80, escritos por Sidney Sheldon ou Danielle Steel, e no fim diz que a forma que ele foi atualizado tem mais a ver com símbolos de riqueza e de capitalismo do que com novas fantasias sexuais.

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Por que não podemos ter políticos que falam o que pensam – Na última semana, foram publicadas três entrevistas que o presidente dos EUA deu a importantes membros da “nova mídia americana”: Buzzfeed, Vox e Re/code. Cada uma tem um approach diferente, e é interessante vê-las não apenas para entender o que pensa o homem mais poderoso do mundo – o que nem sempre se traduz em ação –, mas como se deve conversar com a imprensa, de maneira geral. Algo que sentimos muita falta aqui. Dá uma olhada na entrevista do Vox:

Mas se há um problema em comum aos EUA e o Brasil é como a imprensa tem obsessão por gafes. As entrevistas parecem ter valor – e isso percebemos bastante nas eleições – apenas por aqueles 15 segundos onde o político fala alguma bobagem. Ezra Klein, jovem editor da Vox que entrevistou Obama diz neste artigo que é exatamente por esse comportamento da mídia que os políticos se preparam ao máximo para serem entediantes, e não falarem nada muito polêmico. Nós não deixamos.

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PS: Depois de anos usando o Mailchimp estamos experimentando com o Tinyletter, outra ferramenta de fazer newsletter, mais barata e mais prática. Ao menos pra gente. Digam o que acharam aí (basta responder este e-mail).

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