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Newsletter: Estado Islâmico, hostilidade na internet e drones


Uma explicação completa sobre as motivações ortodoxas do Estado Islâmico, a hostilidade na internet, a obra de Caetano Veloso autocomentada – e muito mais na nossa newsletter.

E aí, pessoal, tudo bem? Pedro aqui. Esta newsletter demorou um pouquinho mais, mas porque conversamos um bocado e mudamos oficialmente a periodicidade, como parte de uma faxina no Oene – mais detalhes aqui, semana que vem. Mas, em resumo: teremos newsletter aprofundada quinzenal, podcast semanal e atualizações diárias de leituras recomendadas no Facebook.

Ou seja: falaremos mais constantemente com vocês, de diversas frentes. E somos oficialmente três: eu, Pedro Burgos, Camilla Costa e Leandro Beguoci. Para deixar a coisa um pouco mais pessoal, PB, CC e LB assinam os links. Eu embalo e entrego a cartinha na caixa postal de vocês todos. Parece bom, não?

E, se você gosta do nosso trabalho, espalhe este link, e peça para outras pessoas assinarem. É de graça!

Vamos lá!

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O progresso social na América Latina parou. O que fazer? – Muita gente comentou a capa da versão latino-americana da Economist, que diz que o Brasil está em um lamaçal. É um duro, mas razoavelmente realista resumo da situação que nos encontramos. Há uma outra reportagem interessante na mesma edição, que fala de como a diminuição da pobreza que aconteceu em todos os países da América Latina nos últimos 12 ou 15 anos simplesmente parou na maior parte do continente desde 2012, salvo as honrosas exceções: Paraguai, Colômbia, El Salvador, Peru e Chile.

Na verdade, 130 milhões de latino-americanos (21% do total), esteve constantemente pobre desde 2004, e não há muitas expectativas de que eles ascendam socialmente: faltam habilidades, educação, contatos ou mesmo motivação para entrar ou melhorar a posição no mercado de trabalho. O cenário pintado é um pouco sombrio (inclusive no Brasil), mas há alguns bons exemplos sobre o que fazer após a assistência emergencial de bolsas família e semelhantes. (LB)

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Estado Islâmico, um texto essencial – É gigantesco, mas vale cada palavra o ensaio/reportagem de Graeme Wood na Atlantic. Até agora, a cobertura do Estado Islâmico tem sido episódica. Recebemos um vídeo de decapitação aqui, a notícia de um ataque ali, ameaças, bombardeios, e a vaga noção de que aquele é um grupo “extremista islâmico” (apesar de Obama rejeitar o adjetivo). Wood amarra todos os nós para dizer que caracterizar o EI (ou ISIS) como apenas um monte de malucos fundamentalistas é perigoso e talvez contraproducente. A insistência de tirar o aspecto islâmico da organização, mesmo que com o motivo – importante – de não permitir uma associação apressada da maioria pacífica muçulmana com esse tipo de gente, pode dificultar o entendimento desse grupo. O estado islâmico funciona do jeito que funciona especificamente porque ele é bastante islâmico, se considerarmos uma interpretação extremamente ortodoxa e antiga das escrituras sagradas. Isso não quer dizer que “o islamismo é o culpado”, mas que é preciso enfrentar esse paradoxo: ao mesmo tempo em que é preciso proteger a comunidade muçulmana do preconceito, talvez seja importante entender de verdade os elementos religiosos que estão no discurso de um grupo como este.

Tudo que o EI faz está previsto no Corão – especialmente o principal conceito que o une, o de um califado que iria estabelecer a ordem “justa e correta” no planeta, incluindo a “punição dos infiéis”. Para o EI, não é possível discutir a paz, já que o califado não reconhece fronteiras soberanas. Ao mesmo tempo, ele é um governo, que controla todos os aspectos de uma população de 8 milhões de pessoas, da educação às leis e ao saneamento. O Estado Islâmico parece ser o equivalente ao que seria um grupo de cristãos sugerindo que as coisas voltassem a ser exatamente como no Antigo Testamento, até o último detalhe. Essa visão desconsidera algo importante: as escrituras sagradas foram escritas há muito tempo, em um momento histórico bem particular. Por isso, organizações cristãs (ou judaicas) de modo geral não defendem uma volta ao Antigo Testamento hoje em dia (mesmo que existam, sim, interpretações bem fundamentalistas da Bíblia por aí). Da mesma forma, a imensa maioria das comunidades islâmicas rejeita a maneira como o EI quer construir o seu “Estado islâmico”. Mesmo assim, o grupo parece ter uma estratégia política e militar para chegar até lá e a está colocando em prática.

A reportagem de Wood fala com salafistas (os convincentes estudiosos que pregam a ortodoxia), explica por quê a ideia do califado atrai jovens de diversos países e pontua a diferença entre o EI e grupos como a Al Qaeda, que é bastante sensível. Wood acha que entender perfeitamente as motivações religiosas do grupo pode ajudar a prever seus passos e a destruí-lo, mas não será tão fácil assim fazê-lo. A boa notícia é que o território controlado pelos extremistas, do tamanho do Reino Unido, finalmente começou a diminuir, especialmente pela ação dos vizinhos, bem mais ameaçados que qualquer país do Ocidente. (PB & CC)

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Por que o Facebook está cheio de opiniões absurdas e discussões hostis? – As pessoas compartilham as “notícias” mais absurdas, claramente falsas, e depois entram em acalorados – e inúteis – debates. Por que repetimos esse padrão? O Rodrigo Ghedin resolveu ir a fundo na questão neste ensaio no Manual do Usuário, e fala da culpa do viés da confirmação, expresso pela máxima “Se você pesquisar o suficiente no Google, qualquer coisa se torna verdade”. Há também a preguiça, e o fato de que ninguém mede muito as consequências do que fala online. O Ghedin é gentil em citar a gente aqui do Oene – que discutiu diversas vezes o assunto –, e acho que ele vai bem no receituário para evitar consumir e produzir chorume. (PB)

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O jornalismo amador pode trazer justiça para as favelas do Rio? – Matthew Shaer escreveu um ensaio para a renovada revista do New York Times, que foi traduzido pelo RioOnWatch (original, com fotos incríveis, aqui). Shaer conta o trabalho do Papo Reto, grupo que começou a publicar o dia-a-dia do Complexo do Alemão, especialmente flagras de violência. O trabalho deles chamou a atenção da Witness, ONG americana que acredita ser possível usar os vídeos gravados pelos moradores para processar e prender malfeitores.

Shaer, que esteve nas manifestações de 2013, conta a difícil aproximação dos dois grupos (há uma desconfiança em relação a ONGs na comunidade) e detalha o trabalho a ser feito pelo Papo Reto: quais as diretrizes para poder flagrar, publicar, guardar e – se tudo der certo – usar como prova especialmente os abusos policiais capturados com as câmeras de smartphones. O “jornalismo” executado por todo mundo do Complexo quer ter um resultado direto, mensurável. E a reportagem dá indícios de que esse é um caminho para iluminar (e, consequentemente, diminuir) a violência em lugares onde a tal grande mídia não chega. (PB)

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Feministas são tão atacadas online que escolhem fugir da rede – “Ao mesmo tempo que a mídia digital conseguiu amplificar as vozes feministas, ela também cobrou um alto preço na saúde mental. As mulheres, encorajadas a contarem as suas histórias, estão sendo ferozmente punidas quando o fazem”, diz o excelente texto de Michelle Goldberg no Washington Post. A tese dela, amplamente apoiada em histórias, é que nunca tivemos tantas vozes atuantes sobre o feminismo – mas nunca elas sofreram tanto por expressarem suas opiniões. Ela questiona, contabilizando casos de terapia, ameaças diárias de estupro, estresse e xingamentos online, por quanto tempo essa geração vai durar. E conta um dos casos:

Filipovic, a antiga editora do blog Feministe, diz que, apesar de ter ficado mais casca grossa durante os anos, a necessidade diária de se armar contra a turba online a mudou como pessoa. “Eu me questiono muito mais. Você lê tantas vezes que você é uma pessoa terrível e uma idiota, e é muito difícil não começar a acreditar que eles vêem algo que você não vê.” Ela também acha difícil baixar a guarda. “Eu não descobri como eu posso passar o dia lutando contra as críticas – não apenas críticas, mas coisas terrível que as pessoas dizem pra você e sobre você – e ir para casa e 30 minutos depois ser uma pessoa normal, disponível emocionalmente.

Dias depois desse texto, a Folha publicou um importante vídeo mostrando como feministas brasileiras que se expressam bastante na web, como Nana Queiroz, do #nãomereçoserestuprada ou Juliana Faria, do ThinkOlga, sofrem com agressões constantes online.

A urgência do assunto é clara, e para ir além recomendamos com fé esse texto de Amanda Hess para a Pacific Standard, que diz por que as mulheres não são bem-vindas na internet, e o de Ana Freitas no Brasil Post, dando dicas práticas sobre como se livrar dos sujeitos que agridem as mulheres online. (PB & CC)

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Precisamos falar sobre drones – Recentemente, descobrimos que os EUA estão pagando indenizações às famílias de civis atingidas por seus drones no Iêmen. Tudo por debaixo do pano – talvez para não admitir culpa.

Mas o problema de mortes colaterais dos ataques de aviões não-tripulados é muito real, como mostra esse vídeo do Guardian, que é tocante. Ele coloca de uma maneira bem clara como é o cenário real das pessoas que são mortas “acidentalmente” pelos ataques: os EUA aparecem de longe, apenas como o perpetrador da violência. A Al-Qaeda, por outro lado, está ali pertinho para colher os mártires que são semeados. No ano passado, John Oliver também fez uma reflexão importante sobre como as atividades dos drones e sua coordenação são pouco transparentes nos EUA, e como isso só aumenta o ódio. (CC)

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Caetano Veloso, a obra autocomentada – OK, não é novo. Mas a rádio batuta, do MIS, fez um especial com a maior parte das músicas famosas de Caetano Veloso, todas comentadas. Aprendi ali, por exemplo, que Menino do Rio foi feita por encomenda de Baby Consuelo, para um rapaz que ela estava a fim – amigo de Caê, aliás, que compôs a música na frente do cara. As versões e gravações são excelentes também. Pegue o laptop, coloque um bom fone de ouvido e curta aí. (CC)

 

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