12323 As manifestações estão começando - o que falta para elas decolarem
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Legal, mas e agora?


Foi um momento histórico, sim, foi lindo tomar as ruas e não ver briga com a polícia, andar pelas artérias da cidade sem ter qualquer medo de ser assaltado ou atropelado, ver a galera sorrindo por acreditar fazer parte de algo maior. Os bandidos que atacaram a polícia primeiro ou picharam prédios históricos eram minoria […]

Foi um momento histórico, sim, foi lindo tomar as ruas e não ver briga com a polícia, andar pelas artérias da cidade sem ter qualquer medo de ser assaltado ou atropelado, ver a galera sorrindo por acreditar fazer parte de algo maior. Os bandidos que atacaram a polícia primeiro ou picharam prédios históricos eram minoria infitesimal. A mensagem maior que ouvi segunda e terça, aqui em São Paulo pelo menos, foi que “o povo acordou” e que “O povo, unido, é gente pra ca*”. Então, ok, agora que estamos de pé e sabemos nos organizar pra sair à rua no mesmo horário, o que fazer? Permitam-me discordar de muitas pessoas.

Qual é o mal de ser “só” sobre 20 centavos?

O que o povo repete agora é que “não é mais sobre 20 centavos”, que a manifestação vem de um mal-estar geral sobre diversas coisas. Cada analista projeta suas próprias frustrações na massa, que apesar disso, não é manobrada: uns dizem que as passeatas são sobre a truculência da PM do PSDB/PT (depende da UF), outros que é contra a Dilma, ou contra os gastos da Copa, contra a corrupção. Pode ser sobre tudo isso mesmo, e se por um lado é importante que ela seja plural, que sommeliers de protesto não encham o saco, também é importante lembrar que, se a história nos ensina alguma coisa, é que as manifestações populares que levaram a uma mudança prática em um curto espaço de tempo tinham um desejo específico. Talvez o ensinamento de ontem é que se nos metermos na causa alheia (muita gente que marchou esses dias tinha carro) damos mais poder a ela. Então, na próxima marcha de professores por melhores condições de trabalho (top5 pleitos), seria interessante se mais gente se juntasse à luta, enchesse a Paulista, caminhasse junto. Porque, veja, deu certo com o Movimento Passe Livre. É importante lembrar que segunda-feira, a primeira manifestação popular pra muita gente, foi o “Quinto Grande Ato Contra o Aumento de Passagens”. O quinto. E depois da mobilização inicial do MPL em algumas cidades (há de se dar o crédito) e o coro engrossado, prefeituras cederam e sete capitais reduziram o preço da tarifa. ATUALIZAÇÃO: Inclusive São Paulo e Rio. Qual vai ser a causa norteadora das próximas manifestações?

O que me leva à outra questão.

Por que ter lideranças é visto como algo ruim?

Na segunda, enquanto rolava a manifestação, a estudante de Direito Nina Cappello e o professor de História Lucas Monteiro de Oliveira estavam no Roda Viva discutindo as manifestações e o Movimento Passe Livre, do qual fazem parte. Eles não são líderes per se como tínhamos nos presidentes da UBES/UNE no movimento Fora Collor, mas são caras, nomes, gente bastante articulada que sabe de cor quais são os problemas e conseguem debater as soluções de maneira clara se alguém (imprensa, governo) exigir. Se este nosso movimento mais amplo que ensaiamos for pra frente com outras reivindicações, alguém vai ter que negociar com o governo as pautas. É interessante que tenhamos essas pessoas – o MPL tem 40 ou 50 integrantes ativos em São Paulo, que não só vão às ruas, mas fazem um trabalho em escolas, empresas, debatem em audiências públicas há anos. O governo não vai sentar à mesa de negociações com hashtags, mas com pessoas que estão há algum tempo estudando os problemas e tenham algumas ideias de solução, sim. E se discutirmos e elegermos – há várias ferramentas na internet para isso – mais pessoas como essas do MPL, acho que qualquer movimento avança:

Por que não diferenciamos pluripartidarismo de não-partidarismo?

Na primeira manifestação do Movimento Passe Livre, ao menos aqui em São Paulo, já havia bandeiras do PSTU, PSOL e PCB no meio dos cartazes. Nada mais natural: desde que o PT passou a ser Governo, coube a partidos ainda mais à esquerda apoiarem manifestações dos trabalhadores, sejam elas grandes causas da população ou não. Mas por onde eu passei vi um enfrentamento muito grande a qualquer bandeira. Bastava aparecer uma bandeira vermelha que o povo gritava “SEM PARTIDO”, vaiava e, em alguns casos, partia para violência verbal até fazer o mastro descer. Os militantes, em minoria, se defendiam, dizendo que “estavam ali desde o início” e que “impedir manifestação política é fascismo”. E eles tem razão. Eu entendo a desilusão com todos os partidos, de não querer que a causa seja alugada por alguma sigla, mas tampouco entendo a lógica de querer uma ausência absoluta de bandeiras. Vi nas manifestações algumas bandeiras de organizações estudantis, do movimento LGBT, e até a OAB. Por que esses podem e os partidos não? “Partidos políticos não me representam”, eu sei, mas eles representam algumas pessoas, que tem orgulho da filiação. Elas não podem participar?

Ademais, da mesma forma que precisamos de líderes, precisamos de algum diálogo com os partidos, ou com os políticos. Nós ainda estamos em uma democracia representativa, acho que está todo mundo ciente, mesmo que 84% dos manifestantes, segundo a Folha, não tenham partido. Então não é simplesmente via petição online, um tumblr ou cartazes que vamos conseguir alguma coisa. Se tivermos algum apoio político, alguma ponte com as assembléias legislativas e o Congresso (ponte legítima, canal aberto) isso tem de ser comemorado, é uma oportunidade. Eu ouvi muito “o povo unido não precisa de partido”, mas a verdade é que pelas regras da nossa democracia, precisamos sim. Os partidos podem, se não ditar a pauta, ajudar a organizá-la. O Yuri Machado escreveu no Facebook algo que vale ser pensado:

Estávamos, hoje, tão felizes porque éramos muitos que simplesmente despimos a raiva da repressão, do banditismo da PM, do crescimento absurdo da tarifa do ônibus, e realocamos este mesmo ódio para o PSTU, para a Dilma? (…) Não pensei que ia dizer assim, mas precisamos dos partidos, nem que para discordar deles. Das bandeiras, dos projetos de país. Não vi projeto de país hoje. Vi gente expulsando, na verdade, os poucos que deveriam ter tido a mínima liberdade de tentar convencer alguém, nem que para voltarem para casa solitários. Precisamos de algo que pelo menos tente nos unir, porque senão vamos continuar sendo 100 mil autistas andando juntos fingindo que concordamos uns com os outros. E o pior, extremamente orgulhosos disso.

Por que cobramos o governo e esquecemos o empresário?

Queremos nos comparar bastante com o movimento Occupy Wall Street, mas a semelhança fica mais na idade dos manifestantes, o uso de #hashtags e a ausência de uma pauta unificada. Há um pleito importantíssimo na pauta dos americanos (que é um case de ineficácia a ser observado), possivelmente a faísca original dos protestos, que não vi muito por aqui: a necessidade de responsabilizar mais o empresariado pela situação que estamos. Cada vez mais sabemos que a margem do varejista, maior que em outros países, por exemplo, é componente importante do “custo Brasil”. Sabemos também que parte considerável dos custos inflacionados da Copa vêm de empreiteiras repassando novas despesas. Alguém reclamou delas? Não vi cartazes. Eduardo Fernandes levanta essa bola no Caos Ordenado, dizendo que o problema dos protestos não é que eles eram difusos demais, mas justamente que eles são concentrados: a manifestação…

mostra o quão desconectados estamos da política que é exercida concretamente, no dia-a-dia. Afinal, não marchamos para as portas das corporações. Não aparecemos na frente da Bovespa. Alguém fez manifestação em frente dos bancos? “Nossa visão da política ainda é extremamente centralizada. Nós ainda esperamos que o Papai Estado se mostre arrependido de ter nos tratado mal.

Ainda estamos celebrando uma diminuição da desigualdade no Brasil porque resgatamos muitas pessoas que estavam na miséria. Mas a classe média que chega ao mercado de trabalho agora (os manifestantes em sua maioria) corre um risco real de ser achatada, como na Europa e EUA, e ficar mais distante do topo da pirâmide. Lá fora, no Occupy, eles xingavam CEOs pelas altíssimas margens de lucro dos empresários, que cortam o custo a qualquer custo e ainda dão bonificações indecentes a executivos de empresas que não vão bem das pernas. Nós temos absolutamente todos esses problemas aqui, talvez amplificados, e não vejo muita gente revoltada – talvez por que ainda tenhamos a fantasia de que chegaremos lá? No Brasil, um diretor ganha quase 10 vezes mais que um profissional normal. Nos EUA, onde eles estão indignados com o 1%, a relação é 4 pra 1. Os bônus dos executivos brasileiros, aliás, são os maiores do mundo. Em quantos lugares você trabalhou onde era uma batalha conseguir um aumento de 300 Reais e um “diretor de algo”, que trabalhava menos que você (mas ficava o dia em reuniões “importantes”) embolsava múltiplos do seu pagamento? Sei que colocar “lucros abusivos” na pauta soa anticapitalista e isso pra alguns é sinônimo de comuna, palavra maldita. Mas se não pensarmos em algum tipo de estratégia, como será daqui pra frente? Em um mundo com mais automação e softwares trabalhando no seu lugar, a diferença de remuneração do “dono do capital” e você não-dono-de-startup pode se acelerar. Isso já está acontecendo em muitas partes do mundo. Então, podemos pegar emprestado o “somos o 99%” e mostrar que nossa insatisfação é sim com os mais poderosos, mas eles não são só os políticos corruptos – mas nossos patrões.

Isso é uma pauta meio etérea, eu sei. E cobrar mais impostos, mesmo que seja de alguns dos setores que mais lucram no mundo (bebidas e bancos no Brasil, por exemplo) é tabu. Mas então podemos aproveitar o embalo do MPL e discutir o lucro das empresas de ônibus. Será que a população e governo precisam se apertar em subsídios para manter um mínimo de lucro? Haverá licitações novamente para novas licenças este ano, será que um limitador do lucro não poderia entrar na pauta? Será que não poderíamos, como sugeriu Sakamoto em uma reunião do conselho da cidade, aumentar o IPTU de estacionamentos? São ideias perigosas, mas necessárias. O Estado de São Paulo tem uma dívida bilionária e pelo menos no curto prazo, será preciso punir/taxar alguém para conseguir os recursos que melhorarão o transporte público. Quem deve pagar?

Por que não conquistamos o resto da população?

Ontem, depois de andar e subir a íngreme Brigadeiro Luís Antônio, parei numa padaria chique – uma boulangerie, mais precisamente – na Alameda Santos. Fomos os últimos a entrar antes de os funcionários trancarem as portas, com medo. Eu falei “calma, a PM não tá aqui hoje”. A atendente arregalou o olho. “Mas isso é pior!” Tive que explicar que a coisa estava pacífica, que não haveria confronto. “Mas eles fecharam todas as ruas. Como eu vou pra casa?” Essa era a preocupação. A colega ficou meio resignada, calculando que horas da madrugada chegaria.

Eu entendo que é legal tomar as ruas, que é necessário até. Mas falta uma pequena dose de empatia com a parcela que está fora do protesto – a grande maioria da população. Coisas mínimas. Achei ali na marcha que poderíamos organizar a caminhada para deixar a faixa de ônibus livre em algumas vias, por exemplo, mas a ideia não foi bem recebida. Na segunda-feira, aqui em São Paulo, em um dado momento não havia gente o suficiente para fechar as vias em vários pontos por onde passei, mas os manifestantes aceleravam o passo e sentavam em cruzamentos para garantir que ninguém andasse, mesmo que fossem só ônibus. Ocupamos a faixa contrária da Brigadeiro, onde há um corredor exclusivo. Pra quê? As pessoas presas dentro dos coletivos, 10 horas da noite, não pareciam estar exatamente felizes com o movimento, mesmo pacífico e alegre. Porque o povo daqui acha que todo mundo vê as redes sociais, mas há muito mais gente fora do Twitter do que dentro. E muita, muita gente foi pega de surpresa – até porque ninguém sabia ao certo qual seria o trajeto.

Não havia um trabalho de diálogo com quem estava à margem, fora o “vem pra rua” entoado, às vezes meio ameaçador, tipo “por que diabos você tá olhando e não vem pra cá?”. Havia cartazes de “desculpe o transtorno, estamos tentando mudar o mundo”, sim, mas poderia haver mais. A celebrada desorganização impediu que tivéssemos panfletos explicando por que estávamos fazendo aquilo, por que era importante, quais eram os objetivos, junto com um singelo pedido de desculpas. Eu li que havia “gente de todo tipo, todas as idades, todas as classes”, mas a verdade é que a enorme maioria era de gente de classe média bem educada. Não há mal nisso – muitas grandes revoluções foram iniciadas pela classe média. Mas é preciso se conectar mais com todo mundo, explicar que, sim, vamos fazer com que sua viagem normal de duas horas dure quatro horas e meia hoje, mas é para o seu bem. E pequenas gentilezas. Juntar 6 pessoas para parar um cruzamento e gritar “vai perder a novela” não me parece ajudar.

Por que desrespeitamos a imprensa?

Assim como me preocupo com a ideia encampada por grande parte do movimento-que-não-é-movimento que nenhuma agremiação política é bem-vinda, me incomoda a visão de que “a velha mídia” é do mal e que as redes sociais são de alguma forma donas da manifestação. Há um monte de gente tuitando o dia todo “isso a TV não mostra” porque é cool achar que estamos participando de algo à margem da mídia. Eu sei meter o pau na imprensa quando preciso e tenho me esforçado em ser um bom ombudsman essa semana e vos digo: depois de uma desastrosa cobertura inicial, canais como Globonews e BandNews têm reportado os fatos de maneira, se não exemplar, bem decente. Fora a autista Veja não há grandes deméritos da imprensa em geral, ao menos em São Paulo. A visão que tive de dentro do movimento e de fora, pela TV e os sites, é parecida: foram separados manifestantes de arruaceiros, e apareceram vários especialistas celebrando ou tentando entender, como eu e você, o que está acontecendo. Mesmo assim, nas marchas eu ouvi um monte o único grito de manifestação com validade de 30 anos (“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”) e também testemunhei repórteres de outras emissoras sendo hostilizados. Entendo a insatisfação com o estado geral da imprensa, mas por outro lado eu realmente não compreendo a lógica de levar flores para os PMs e achar bonito isso aqui:

Como eu falei, e acho que é preciso reforçar, não é todo mundo que está no Twitter. Não é todo mundo que tem acesso à “nova imprensa”. As 20 mil pessoas que viram a Twittcam ao vivo na Paulista ontem parece muita gente porque era todo mundo da sua timeline, mas não é. Esse movimento de descrédito da imprensa é culpa em boa parte dela mesma, e provavelmente a maior parte das pessoas que participaram das manifestações já não usem a mídia tradicional como fonte principal de informação (ou só acham que não, na maioria das vezes). Mas a verdade é que uma enorme parte da população ainda vai saber do que aconteceu na Paulista, na Esplanada ou na Rio Branco, pelo Jornal Nacional ou o Datena. Se quisermos que a visão dos fatos seja objetiva, se quisermos que o nosso lado seja respeitado, temos que respeitar o trabalho do profissional da informação – que teria muitos motivos para protestar, aliás. E porque, quando feito direitinho, o velho jornalismo ajuda a mobilizar, a ver a urgência da causa e a estupidez de usar o Choque contra a população, como nessa reportagem da TV Folha:

Por que não viralizamos mais informações úteis?

Antes das manifestações de segunda-feira, eu vi muitas pessoas compartilhando links de “quais os direitos você tem se a polícia se pegar”, “por que o vinagre é importante contra bombas”, dicas de kits de primeiros socorros, listas de advogados e enfermeiros voluntários. O povo se preparava para uma guerra, parecia. E só. Vi pouca gente espalhando links que ajudassem as pessoas a entender por que diabos estávamos indo para as ruas, fora bullet-points de 4 linhas com cifras meio erradas do custo da Copa e custo da educação. E isso é um erro comum das mobilizações da internet. Da mesma forma que durante toda a campanha (inócua, como era óbvio) “Fora Renan” pouquíssima gente se importava em contextualizar por que o senador não era a pessoa certa para o cargo, faltou aqui uma viralização de posts, dados, infográficos, opiniões sobre as nossas reivindicações. Então, para terminar este post que era otimista quando comecei a digitar mas agora tende a parecer um velho cansado, contribuo com duas leituras importantes pra gente entender o problema do transporte público em São Paulo (que deve valer para o resto do Brasil, em essência): esta análise do Drunkeynesian e este infográfico do Vinicius Ramos (quem acessa pelo celular, link aqui):

Transporte SPPorcentagem sobre a tarifa daquilo que o usuário final paga. Desmembrando a Tarifa.Críticas e sugestões para melhorias | Infographics

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Gosta do Oene? Quer que eu escreva sobre mais coisas por aqui? Mande email no pedro@oene.com.br e dê uma força! =)








[Foto: Bruno Fernandes/Flickr. Arte do cartaz: Coletivo Vem pra Rua]

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