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Por que compartilhamos?


O que você anda fazendo com as teorias e opiniões alheias?

Ainda restam questões sobre as circunstâncias e motivações da dupla que matou o cinegrafista Santiago Andrade em um protesto no Rio. Pode até ser que o crime em si esteja resolvido, mas a maneira com que a história foi apresentada deixou muitos pontos sem nó (como bem listou Jânio de Freitas) e que foram apressadamente amarrados por um pedaço da mídia, como criticou Alberto Dines.

Não há muita surpresa então em ver que as redes sociais nos últimos dias tenham sido tomadas de assalto com ainda mais perguntas sobre o caso. Afinal, apesar de não ter sido a primeira morte nas manifestações, ela foi bastante simbólica: a imagem chocante de algo explodindo na cabeça de Santiago pode mudar ainda mais a maneira com que o público percebe os protestos, como a polícia age e mesmo como os políticos surfam na onda.

O excesso de interrogações não é um problema, é claro. Mas as respostas, as teorias prontas e as associações livres vendidas por aí, com certezas firmes demais assentadas em terreno frágil, assustam.

Não há dúvidas de que o ceticismo é importante e temos de cultivá-lo. Mas também é sempre bom entender o que separa o ceticismo do cinismo[1]; o “é melhor investigar” do “tá na cara que eles estão manipulando”; a dúvida sadia, que coloca os poderes em xeque, da descrença absoluta nas instituições. O cético quer mais e melhores provas e está pronto para mudar de opinião; o cínico não se importa com elas. Não acreditar a priori na imprensa, na polícia, nos partidos ou nas instituições em geral tem virado uma constante em nosso tempo, e pessoas que radicalizam essa lógica acabam, de uma forma perversa, se destacando – mesmo que dias depois todas as suas teorias caiam por terra.

Para ficar no caso da morte de Santiago: dezenas de milhares de pessoas, de jornalistas a deputados federais, compartilharam um vídeo e fotos que sustentavam a ideia de que quem disparou o rojão seria um policial infiltrado entre os manifestantes. Não foi a primeira vez que algo assim foi sugerido, e até aí seria só mais uma teoria conspiratória “inofensiva”. O problema é que a identidade do “suspeito” foi revelada, o que transformou a vida do rapaz (inocente, não era a mesma pessoa que jogou o explosivo) em um inferno por alguns dias. Ele reclamou no Facebook, mas o desmentido não teve um décimo da repercussão da acusação original. E é assim com um sem-número de teorias e acusações, na mídia profissional ou amadora — da qual todos nós participamos em plataformas como Facebook e Twitter.

As pessoas que sigo nas redes sociais não representam o conjunto dos brasileiros, claro, mas nela estão algumas das pessoas mais afinadas com os debates que acontecem no país. Nos dias que se sucederam à morte de Santiago, surgiram duas correntes. Uma rejeita em bloco qualquer ideia ou fato apresentado pelas autoridades ou por veículos ditos “conservadores”. Outra apressa-se em ligar qualquer pessoa envolvida – ainda que minimamente – ao fato com PSOL, Black Blocs ou os inimigos da civilização da vez. É um debate de soma zero. Nada avança na desqualificação total do argumento ou do opositor. Nos posts mais compartilhados, há ”perguntas“ que, claro, já querem oferecer respostas[2]. São tentativas de mostrar que a ”verdade está lá fora“: um posta um vídeo de ”um outro ângulo“, outro faz montagens com a foto de uma acusada, outro ainda republica 20 ”questões abertas”… E assim tem se seguido, com muitas pessoas, mesmo as não comumente associadas às conspirações, compartilhando teorias que beiram o absurdo.

Há algum tempo deixei de discutir essas coisas no Facebook. Quando vejo, suspiro. Mas, em privado, interpelei alguns amigos que compartilhavam essas atualizações conspiratórias e a melhor resposta que recebi foi que o compartilhante não “concordavam com tudo”, mas que era importante, por motivos diversos, retransmitir a mensagem, uma “opinião diferente”. Então pus a me perguntar: o que é exatamente “compartilhar”, no sentido Facebookiano?

Você é o que compartilha?

O excesso de compartilhamento de opiniões estranhas pode ser sinal de outro fenômeno, tão ou mais preocupante que este cinismo. É a preguiça de tentar formar uma opinião. Pode parecer algo contraintuitivo, já que costuma-se dizer que as pessoas hoje têm opinião pra tudo, e se esforçam para oferecê-la ao mundo o mais rápido possível. Dizem que sofremos com a tal “Síndrome de Ejaculação Precoce Opinativa”, como define o Inagaki. Mas o que é cada vez mais aparente é como as pessoas se apressam para pegar emprestado as opiniões alheias.

Adoraria ver um estudo sobre, mas em minha observação não-científica de uma amostra que pode ser viciada em opinião (jornalistas e pessoas correlatas, especialmente), chuto que para cada opinião “original” e pessoal sobre o assunto da vez há 4 ou 5 compartilhamentos de opiniões de outras pessoas, sejam updates no Facebook, posts em blogs ou textos de colunistas. Posso estar tendo um ataque de falsa nostalgia, afinal sempre nos apoiamos e amplificamos as opiniões dos “pensadores” e “intelectuais” dos nossos tempos – já em 1758 Samuel Johnson dizia: “Aqueles que não assumem o desafio de pensar por si mesmos vão sempre encontrar alguém para pensar por eles.”

O problema novo, para mim, é que as opiniões que compartilhamos não são exatamente as nossas, pegamos a mais fácil, mais perto da nossa mão. E essas opiniões nos definem, de certa forma.

Quando vemos aquelas mesas redondas ao vivo, alguém diz “eu compartilho da sua opinião sobre” quando quer concordar com o que acabou de ser dito. Mas online, “compartilhar” um pensamento não parece ser necessariamente assinar embaixo. E não muito raro a discussão que se segue é a discussão-padrão sem sentido do Face, como descreve o College Humor (tem mais dessa discussão interminável lá).

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Nos últimos dias, conversei com alguns amigos que compartilhavam um texto que a meu ver era claramente conspiratório, na linha do “Está tudo tão estranho” de meses atrás. Sabia do pensamento crítico dos amigos e, havendo claros buracos na argumentação dos textos compartilhados, queria entender por que diabos eles estavam dando mais publicidade a essas teorias.

O primeiro disse que era um “compartilhamento irônico” – ou seja, ele absolutamente discordava de tudo aquilo, e sua audiência já saberia o que era verdade e o que era zoeira. No fim, como nas colunas do Duvivier, nem todo mundo nos comentários sacou a ironia. Eu particularmente acho ironia algo bastante ineficiente online, já que o contexto e o público desejado, bastante importantes, muitas vezes se perdem pela internet — compartilho das opiniões do Guilherme Valadares aqui sobre o assunto. Tenho um vasto histórico de compartilhar o que não gosto, só “pela úlcera”, mas em 2014 estou participando da campanha pelo fim do “Clique de Indignação”, que as mulheres do ThinkOlga propõem. Irônico ou não, o compartilhamento do que discordamos parece fazer pouco sentido.

Outro amigo falou que não concordava com tudo que havia compartilhado, mas achava interessante — inclusive responsabilidade dele, jornalista — trazer visões dissonantes sobre o assunto da vez. Questionei o quanto que mostrar uma versão dos fatos que eu ele sabemos não ser verdadeira ajudaria a melhorar o entendimento. Será que essa teoria não está apenas tomando tempo para discussões mais importantes? O exemplo que dou é sobre o aquecimento global: um pedaço da mídia conservadora, especialmente em países como os EUA e Reino Unido, dá um excesso de voz aos céticos, o que cria uma falsa impressão que não atingimos um consenso possível para avançar o debate. Em outras palavras: temos que ter um mínimo de acordo sobre o que está acontecendo antes de ter opinião. Se não concordamos com a realidade (no caso da polêmica da vez, se ainda há gente discutindo que quem jogou o rojão foi um P2), aí o debate é impossível. O meu amigo insistiu que opiniões divergentes, mesmo as malucas, sempre devem ser colocadas para discussão. O que concordamos em discutir algum dia fora do Facebook, afinal.

Outro amigo reconheceu que não tinha lido tudo, mas como tinha a opinião que “a história tava mal contada” achou que seria legal compartilhar algo que todos compartilhavam. Chamei a atenção para os pontos mais nebulosos. Ele concordou. O desejo era fazer parte da conversa, talvez, e ser o primeiro a trazer o ponto de vista diferente para o seu público. Como disse Lester Bangs (o personagem interpretado por Philip Seymour Hoffman baseado no grande jornalista), em Quase Famosos: “A única verdadeira moeda neste mundo falido é o que compartilhamos com outra pessoa quando nós não somos cool.”

Então, temos três situações: o compartilhamento irônico, o compartilhamento não-concordo-mas-é-importante-questionar e o compartilhamento concordo-com-a-ideia-mas-sei-que-os-argumentos-são-meio-furados. Claro que não são as únicas formas de compartilhar uma opinião, e imagino que das centenas de milhares de pessoas que compartilham há um sentimento genuíno de concordância. Ou, mais que isso, que aquela opinião republicada é a única válida, a que pode encerrar o debate (esses compartilhamentos vem acompanhados de “palmas”, “disse tudo”, “zerou o assunto”, “finalmente uma voz lúcida”, etc.).

É bastante claro, para mim, que o que as pessoas compartilham ajudam a definir a sua personalidade — ou ao menos como as outras pessoas percebem a sua personalidade. Online, quando temos informações incompletas sobre os compartilhadores, isso pode jogar contra: um único email “FW:FOTOS_DA_DILMA_TERRORISTA” pode mudar totalmente a minha percepção sobre um novo colega de trabalho. Por que seria diferente nos links que oferecemos nas redes sociais? Então eu sugiro que nós tiremos um tempo para pensar sobre as pernas que estamos dando às mentiras, às meias-verdades ou simplesmente ao ruído.

Anil Dash, um cara bastante ativo no Twitter, resolveu se questionar sobre as mensagens que ele andava compartilhando para os seus quase 500 mil seguidores. E resolveu fazer um experimento, sem aviso prévio: passou todo o ano de 2013 retuitando apenas mulheres. Ele contou o resultado da sua experiência em um post bem interessante. Ao primeiro pensar sobre o “mensageiro”, de repente ele se viu em outras discussões importantes, acabou ganhando novas amizades e deixou de lado a “odiosa prática de retuitar o que odeia”. Dash recomenda que todos façam um exercício parecido (não necessariamente retuitando apenas um grupo específico), mas que no fim é importante cada um “pense melhor sobre as vozes que compartilha, amplifica, valida e promove para os outros”. Eu compartilho dessa ideia.


  1. Sei que “cinismo” pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. E, lá atrás, ser cínico significava seguir uma certa filosofia de vida que renegava a cultura estabelecida em busca de algo puro. Mas hoje o cinismo pode ser visto como mais próximo do niilismo, da rejeição das normas sociais. O epistemologista Jeremy Sherman tem um artigo interessante sobre a evolução do significado da palavra.  ↩
  2. É como nas manifestações de junho. Quem dizia que “Está tudo Tão Estranho” ou que aquilo “Era um Golpe” não fazia perguntas, de fato. Mas sim elaborava um texto com perguntas a partir de “provas” desconexas para levar o leitor a uma resposta desejada. O apelo à nossa mania de explicação, à falácia narrativa, é um truque conhecido, que discuti aqui.  ↩
some random quote lost in here.