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O Kickstarter agora tem um Oscar. O que isso muda para o cinema?


“Inocente”, um inspirador documentário em curta-metragem sobre uma artista de rua de 15 anos, ganhou ontem o Oscar em uma das categorias menos badaladas. Mas a importância da premiação não pode ser subestimada, porque marca a coroação de uma nova era do cinema independente: o filme de 40 minutos teve a ajuda de 294 pessoas, […]

“Inocente”, um inspirador documentário em curta-metragem sobre uma artista de rua de 15 anos, ganhou ontem o Oscar em uma das categorias menos badaladas. Mas a importância da premiação não pode ser subestimada, porque marca a coroação de uma nova era do cinema independente: o filme de 40 minutos teve a ajuda de 294 pessoas, que apostaram nele e levantaram 52 mil dólares através do Kickstarter para realizá-lo. Será que isso pode mudar a história do cinema independente?

Já está mudando. Em janeiro, o maior site de crowdfunding1 do mundo comemorava a marca de US$ 100 milhões levantados para filmes independentes2 desde a fundação, em 2009. Sábado, a equipe lembrava em seu blog outras indicações ao Oscar em anos anteriores. Até 2012, três filmes que custaram menos de 15 mil dólares para fazer e ganharam reconhecimento mundo afora foram de alguma forma viabilizados através do esquema do Kickstarter: o produtor apresenta o argumento, normalmente com um vídeo, estabelece uma meta e lista as recompensas, que vão de links para baixar o filme a quem paga 5 ou 10 dólares a, no caso do vencedor do Oscar, ilustrações da própria Inocente, valendo mil ou 2,5 mil dólares.

Este ano os filmes de Kickstarter estavam particularmente fortes na premiação da Academia: além de “Inocente”, “Kings Point” (na mesma categoria) e “Buzkashi Boys”, este indicado a curta de ficção, também poderiam fazer história.

Em entrevista ao Mashable, o co-diretor o diretor Seth Fine disse que o Kickstarter é um ótimo lugar para filmes, especialmente documentários. Elliot Grove3, fundador de alguns dos mais importantes festivais de cinema independente do mundo, vê no Kickstarter uma forma de eliminar o intermediário de duas formas importantes: consegue-se o acesso direto ao dinheiro e ao público. Ele disse à BBC que o “crowd-funding virou uma parte importante de qualquer estratégia para cineastas”, e que 30% dos filmes mostrados no último festival foram financiados por dinheiro da comunidade.

Quer dizer que qualquer um pode fazer um filme através de uma vaquinha de estranhos e ganhar uma estatueta? Calma. A coisa é mais complicada um pouco. “Inocente” não era um projeto de conclusão de curso de um estudante de cinema, mas um filme bastante profissional de uma dupla que teve outra indicação ao Oscar (por War/Dance, de 2007). E, a bem da verdade, o filme não custou apenas os 52 mil dólares levantados pelo site, mas ele usou este dinheiro extra para conseguir adaptar o filme a mais formatos, criar um site e lançá-lo digitalmente, além de criar um material educacional e de promoção para quem quiser projetar o filme em um cineclube.

A gente sabe que uma das maiores barreiras dos cineastas independentes é a distribuição, e o Kickstarter pode ser um importantíssimo aliado nesse último e não menos importante estágio. Antes só havia os festivais como destino a essas produções, e recentemente se tornou possível colocar filmes inteiros no Youtube também. Mas é interessante para os realizadores poderem testar outros meios. No caso de “Inocente”, a campanha do Kickstarter permitiu o lançamento, por exemplo, no iTunes – foi lá que consegui alugar e assistir do conforto do meu tablet, logo depois da cerimônia. Todo o lucro do filme vai para a Shine Global, ONG que tem como missão “acabar com o abuso e exploração de crianças em todo o mundo através de filmes que aumentam o conhecimento sobre os problemas, promovem ação e inspiram mudança”.

Além de ter a sensação de estar fazendo o bem, no caso de “Inocente”, havia uma vantagem prática para os financiadores. “As pessoas me disseram que agora elas tem um real motivo para assistir ao Oscar”, disse Alexandra Blaney, da equipe de “Inocente”, ao Kickstarter. Os financiadores não estavam simplesmente torcendo para o filme favorito, mas o filme deles. Deixa tudo mais divertido, criando um interesse extra para categorias menos famosas. Será que ano que vem você também terá uma co-produção sua para tocer?

No Brasil

O que temos mais próximo do Kickstarter no Brasil é o Catarse, site que opera da mesma maneira e já teve 87 projetos bem-sucedidos na categoria cinema – a segunda com mais projetos, atrás apenas de música. Há alguns casos excepcionais, como o documentário “Homem-carro”, de Raquel Valadares, que fala do incrível designer de carros brasileiro Anísio Campos, que levantou quase 70 mil Reais e está em fase final de produção:

O financiamento do Catarse ajudou a melhorar consideravelmente a qualidade do filme:

Tivesse encontrado os carros na cidade de São Paulo, o filme estaria garantido… Com a descoberta de que alguns dos carros projetados por Anísio Campos estão fora de São Paulo, fez-se necessário captar recursos adicionais a fim de que esses carros façam parte do filme. UM “ROAD-MOVIE” QUE LEVE ANÍSIO CAMPOS ATÉ SUAS CRIAÇÕES SÓ SERÁ POSSÍVEL COM A SUA COLABORAÇÃO!

Rodrigo Maia, sócio do Catarse, comentou comigo por email que é muito difícil comparar os casos de crowdfunding nos EUA e no Brasil e que “sucesso” aqui é muito diferente de sucesso lá: “Nem precisamos de Oscar não. Só de sair do papel já é um ganho aqui no Brasil. E por isso acho que precisamos atingir mais gente, e fomentar uma cultura de crowdfunding no país, que ainda engatinha. Alguns dos aspectos fundamentais do crowdfunding, como a familiaridade e adequação a meios de pagamento online, além de prática da população em geral com transações online e doações, contribuem, para além da competência da equipe da plataforma, com a performance do Kickstarter. Mas estamos otimistas aqui no Brasil, e acreditamos que o financiamento colaborativo, e outras vertentes da nova economia, caem como uma luva em alguns setores por aqui.”

Eu perguntei a ele se o valor pedido pelos filmes no Catarse aqui não são muito baixos para fazer algo de qualidade, e ele acha que não: “Acho que com o barateamento dos meios de produção, o ‘interessante’ não necessariamente está ligado ao custo de produção. Hoje é possível fazer bons filmes com orçamentos baixos, baixíssimos se formos considerar o padrão de hollywood.”

Rodrigo deu como outro exemplo de sucesso o filme “Belo Monte – Anúncio de uma guerra”, que teve mais de 3 mil apoiadores para conseguir a verba de finalização, e no final levantou 140 mil Reais. O interessante é que o benefício não é só daqueles que apoiaram não só um projeto, mas a causa. Desde junho do ano passado ele está disponível para quem quiser assistir as suas 1h40, no Youtube:

Até outro dia desses, se você fosse um produtor independente teria basicamente duas possibilidades para financiar um filme: levar a ideia e ir atrás do dinheiro de algum estúdio que já tenha a estrutura e recursos (pouquíssimo provável no Brasil) ou conseguir apoio público, através de renúncia fiscal como a Lei de Incentivo à Cultura, ou por editais específicos. Se essas instituições – governo ou estúdios privados – não gostassem do projeto, você nunca teria a chance de se comunicar com o público. Com o crowdfunding há uma terceira via, que pode ser, no mínimo, complementar às outras. O sucesso de “Inocente” resgata o ideário do cinema independente: se você tiver uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e 294 pessoas empolgadas com ela a ponto de abrir as carteiras, temos um filme.

Ilustração: Marina Val


  1. Como a tradução do inglês sugere, crowdfunding é o modelo de financiamento onde várias pessoas dão dinheiro para realizar algo, não necessariamente com retorno garantido. O case de sucesso mais antigo de crowdfunding, segundo a Wikipédia, foi a própria construção do pedestal da Estátua da Liberdade, quando 125 mil pessoas doaram no período de 6 meses para terminar a obra. Além de apoio a música e filmes, o crowdfunding é especialmente bem sucedido no ramo de games – 7 dos 11 projetos que levantaram mais de 1 milhão de dólares no Kickstarter são dessa categoria. 
  2. No Kickstarter, até hoje 900 mil pessoas contribuíram para financiar filmes independentes. Foram 2.394 projetos de documentários (42 milhões de dólares arrecadados), 2.331 de filmes narrativos (US$ 31 milhões) e 3 mil curtas, além de 619 séries para a web e 223 animações. 
  3. Elliot Grove é fundador do Raindance Film Festival e o British Independent Film Awards. Eu achava que Raindance era só uma piada com Sundance, mas o festival existe há 20 anos e já teve estreias de filmes importantes, como Amnésia, Oldboy e A Bruxa de Blair. 
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