beta

Por que tanta gente está postando o vídeo do encontro de Marina Abramovic com Ulay e qual é a história por trás dele


Pode ser que você tenha visto pelo menos um amigo postar no Facebook nesta semana o link do vídeo “Marina Abramovic Meet Ulay” acompanhado de um comentário do tipo “muito lindo!! chorei!“. Caso você não tenha assistido ao vídeo e nem faça ideia de quem seja essa mulher, explico: Marina Abramovic é uma artista performática […]

Pode ser que você tenha visto pelo menos um amigo postar no Facebook nesta semana o link do vídeo “Marina Abramovic Meet Ulay” acompanhado de um comentário do tipo “muito lindo!! chorei!“. Caso você não tenha assistido ao vídeo e nem faça ideia de quem seja essa mulher, explico: Marina Abramovic é uma artista performática com mais de 40 anos de carreira, nascida na Iugoslávia. As imagens desse viral cult mostram o reencontro dela com seu ex-amor Ulay que aconteceu de surpresa durante a exposição “The Artist is Present” (“A artista está presente”), que esteve em cartaz no MoMa, em Nova York, em 2010. O vídeo é realmente tocante como um recorte da realidade, mas é apenas um trecho de algo bem maior e mais importante: o premiado documentário “The Artist is present”, lançado no ano passado. Este post do blog Vodca Barata lembra este que a história de amor de Marina e Ulay não é só esta imagem delicada e poética. Por trás deste encontro, há uma história intensa e dolorida.

E por que este vídeo só viralizou agora? Uma das hipóteses pode estar relacionada à exibição do filme em eventos no Brasil este mês. Outra possibilidade pode ser o buzz gerado pelo prêmio de cinema independente Spirits Awards, que realizou a entrega dos troféus no sábado passado. O filme sobre Marina Abramovic concorreu e foi premiado na categoria “Documentário”.

O documentário retrata a preparação para a exposição-retrospectiva “A artista está presente” no MoMa. A mostra era composta por vídeos e reproduções de suas performances ao vivo por seus alunos/discípulos, formando a retrospectiva do trabalho de Marina, que teve início nos anos 70 e é marcado pela experimentação entre o performer e o público, os limites do corpo, e as possibilidades da mente.

Um dos pontos altos da exposição foi a performance inédita criada por Marina, cujo trecho é retratado no vídeo em que ela reencontra Ulay. A artista pediu que a produção instalasse uma mesa e duas cadeiras para que as pessoas sentassem de frente e a encarassem, pelo tempo que quisessem. A fila para tentar olhar para Marina pelo menos por alguns minutos era gigante e permaneceu assim durante toda a exposição, que durou três meses. O documentário mostra a emoção de quem conseguiu sentar-se de frente para o olhar profundo da artista, incluindo o ator James Franco.

Em um trecho desta entrevista, Marina fala sobre o que sentiu durante a performance que durou exatamente 736.030 minutos, de acordo com as contas dela:

E não houve história, não houve uma crescente, não houve um desenvolvimento…era apenas sentar-se. E o público tinha a inteira liberdade de ficar ali o quanto quisesse. O curador da exposição me disse que talvez seria apenas uma cadeira na minha frente, na maioria do tempo. Aconteceu que nós batemos o recorde de visitas do museu e, de 850 mil visitantes, 1.750 sentaram-se na minha frente. Sem fim. Houve uma pessoa que ficou sentada ali durante sete horas. Eles esperavam a noite inteira para sentar-se, apenas porque havia algo realmente acontecendo, de uma forma que é quase racionalmente inexplicável.

E, realmente, parece que havia algo especial acontecendo ali. Tanto que um tumblr foi criado apenas para receber as fotos de quem chorou ao sentar-se de frente para Marina.

Já o encontro com Ulay guarda uma enorme história. Como diz Judith Thurman em um artigo para a revista New Yorker, traduzido aqui pela Bravo!, “a carreira de Marina Abramovic divide-se em três períodos: antes, durante e depois de Ulay, pseudônimo de Uwe Laysiepen”. Eles se conheceram quando eram adolescentes em um abrigo antiaéreo em Solingen, cidade da Westfália, na Alemanha. Marina era filha de católicos e ex-heróis da Segunda Guerra Mundial. Ulay era filho de um soldado nazista.

Juntos, o casal produziu arte durante 12 anos nômades, entre 1976 e 1988, viajando em um trailer. Eles se diziam um só corpo (nascidos no mesmo dia, em anos diferentes), feito de duas cabeças, mas com a mesma identidade e propósito artístico. “O principal problema neste relacionamento foi o que fazer com o ego de dois artistas. Eu tive que descobrir como colocar o meu de lado, assim como ele, para criar algo como um estado hermafrodita de ser que nós chamamos de morte do ser”, explica Marina.

Ulay participou de algumas das maiores obras da carreira da artista, como “Imponderabilia”, de 1977, que marcou a história da arte performática e produziu imagens clássicas, como estas:

E vídeos experimentais que viraram referência para estudantes e apreciadores da arte, como este:

Marina e Ulay permaneceram juntos até 1988, quando ele resolveu terminar, provocando a revolta da artista que disse “Todos se esforçam tanto para começar um relacionamento e tão pouco para acabar com ele”. Como bons artistas dramáticos e intensos, eles fizeram uma última performance antes da separação, realizada na Muralha da China. Ela veio do leste e ele do Oeste. Encontraram-se após três meses no meio e se despediram.

Mas nem tudo foi arte em seu estado mais puro. Em 2003, nesta entrevista, Marina revelou que o término aconteceu também por causa de uma traição de Ulay e que ele ficou com todas as obras depois da separação, tornando sua vida um inferno. Segundo Marina, ela só conseguiu recuperar as obras comprando tudo de Ulay de novo. E assim, depois deste término doloroso, eles ficaram sem se ver durante 25 anos. Até o momento da preparação para a exposição no MoMa.

Atualmente, Marina Abramovic administra um instituto que leva seu nome, chamado Marina Abramovic Institute for the Preservation of Performance Art, em Hudson, Nova Iorque. A ideia atual é preservar a arte performática, como o próprio nome do Instituto diz.

Tudo isso porque, para Marina, a arte performática é algo transformador e poderoso, assim como ela explica nesta entrevista para a Folha de São Paulo:

“Posso dar um exemplo muito simples: pegue uma porta e abra ela constantemente, sem entrar ou sair. Se você faz isso por três, cinco minutos, isso não é nada. Mas se você faz isso por três horas, essa porta não é mais uma porta, ela é um espaço, o Cosmos, se transforma em outra coisa, é transcendente. Em todas as culturas arcaicas, rituais e cerimônias eram repetidas sempre da mesma forma e existe um tipo de energia que fica alocada nessa repetição que afeta também o público. Isso só se consegue em performances de longa duração.”

some random quote lost in here.