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Previsão para o jornalismo: Tempestades de neve ocasionais


A mídia brasileira começa a experimentar com as grandes reportagens cheias de "multimídia". É um esforço bonito - mas está longe de apontar para o futuro do jornalismo.

A Folha de S. Paulo publicou, no último domingo, uma imensa reportagem sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Se você ainda não o fez, passe lá e percorra as mais de 15 mil palavras que compõe uma dos mais ambiciosos trabalhos jornalísticos dos últimos anos. Vale sua hora (no mínimo) de atenção, já que aquele é certamente o documento mais completo – ainda que longe de ser perfeito – sobre o que será a terceira maior hidrelétrica do mundo e que motiva alguns dos mais relevantes e controversos debates do país há quase 30 anos. Belo Monte mudará decisivamente a vida de milhares de pessoas, entre índios, ribeirinhos e 25 mil operários envolvidos na empreitada. É uma hidrelétrica que devolve o país à era das obras grandiosas – com o lado bom e ruim dessa época.

“Tudo Sobre Belo Monte”, como se intitula o especial, não é apenas importante pelo tema, mas também pela ambição e o que representa para o tal “jornalismo de internet” (apesar de ter saído também, em versão inferior, no papel). Segundo a própria Folha, 19 profissionais ficaram envolvidos em 9 meses de trabalho para falar – sempre com ênfase – tudo sobre o assunto. Um tratamento gráfico especial, com entrevistas em vídeo, infográficos animados e fotos imensas, maravilhosas (Lalo de Almeida merece todos os prêmios de fotojornalismo), em um ambiente separado do resto do site, contribuíram para mostrar que aquele não é o jornalismo que estamos acostumados a ver na Folha nem em qualquer lugar da internet brasileira.

E ai começa um debate interessante: Tudo sobre Belo Monte é o futuro do jornalismo? Vamos por partes.

Nem a Folha nem qualquer outro jornal do mundo pode fazer algo assim sempre. É caro demais. O ambiente onde a publicidade não polui, apesar de bacana (nós, aqui, gostamos), é insustentável para um gigante daquele tamanho. Além disso, nem todo assunto cabe nesse tipo de narrativa. É preciso algo “frio”, como se diz no jargão. E raramente coisas frias atraem muita atenção.

Então, qual é a ideia? Ou melhor: pra que serve esse tipo de reportagem? Nós aqui nos interessamos um bocado pelo futuro do jornalismo, e a discussão sobre as reportagens especiais, que usam todos os recursos possíveis de uma página de internet, é fundamental para entendermos onde estamos e para onde queremos ir. Nos EUA, os especialistas em mídia já discutem exaustivamente o assunto há um ano, desde que o New York Times publicou Snow Fall. A história monumental, sobre uma avalanche que matou três dos maiores esquiadores do país, narrada com requintes literários, rendeu um Pulitzer ao repórter, John Branch. Sempre vale revisitá-la, aqui.

A reportagem do New York Times não foi a primeira a experimentar com os limites da narrativa na web, mas, com suas mais de 3 milhões de visitas na primeira semana, foi a primeira a chamar a atenção para as possibilidades inexploradas do jornalismo na internet. Tanto é que virou um verbete entre jornalistas. Quando a reportagem da Folha sobre Belo Monte saiu, era comum ouvir o “e o Snow Fall da Folha, hein?”

Se você curte a ideia, dê uma olhada em alguns dos nossos Snowfalls favoritos:
O Guardian sobre a espionagem da NSA
A resenha do Polygon para o PS4
– A corrida de trenó no Alasca, no Grantland
O colorido perfil de Daft Punk, na Pitchfork

Reportagens assim apontam para o futuro do jornalismo, como muita gente fala. Mas provavelmente não pelos motivos aparentes à primeira vista.

A insustentável leveza do HTML5

Com WordPress, Youtube, streaming, Twitter e o fim da proteção corporativista à necessidade do diploma, qualquer um pode ser jornalista. E podem sê-lo em qualquer lugar. As pessoas ficam um terço do tempo conectadas dentro do Facebook, e Zuckerberg quer que aquele lugar seja o jornal delas – se produzido dentro da própria rede social, de graça, tanto melhor (pra ele e os acionistas). Afinal, você paga para usar o Facebook sempre que compartilha um link ou coloca uma nova foto sua. O modelo de negócios da rede social é a minha, a sua, a nossa privacidade compartilhada com milhões de anunciantes pelo mundo.

Mas não é “qualquer um” que pode fazer um Snow Fall1, ou um especial de Belo Monte. A primeira mensagem da reportagem da Folha é tentar reafirmar a importância do jornalismo profissional. No mesmo domingo em que o especial foi lançado, o jornal publicou em sua versão impressa uma reportagem reafirmando que as maiores reportagens dos últimos anos foram feitas pelos veículos profissionais. É como falar “ei, pra isso você precisa de gente bem paga, e por isso vale os 25 Reais por mês da assinatura digital”. Parece uma visão cínica, mas a primeira função de grandes reportagens assim é de puro marketing. É do jogo – e não é ruim. Afinal, boas matérias não são feitas com permuta. Tudo sobre Belo Monte vai ganhar vários prêmios – e lembra aquelas peças que agências fazem especificamente para concorrer a Cannes. É uma peça para reafirmar que, sim, o jornalismo é importante.

E ai começamos a responder à questão: é ou não é o futuro do jornalismo?. É possível dizer que só três empresas no Brasil têm músculos para levar a cabo uma empreitada assim (o G1 já fez coisas parecidas, aqui). Mas nenhuma delas pode fazer isso regularmente. Não há dinheiro. É possível vender essas reportagens separadamente, como fez o New York Times, mas é difícil imaginar que elas tragam de volta o investimento inicial. Então, não há como esperar que esta seja a nova cara do jornalismo. Mesmo que o custo caia, ainda vai ser necessário bastante gente, e as fontes de receita estão secando.

É sempre difícil fazer previsões, mas é relativamente garantido acertar ao dizer que o modelo Snow Fall não é o futuro do jornalismo. A Folha.com ou o UOL não terão dezenas de reportagens assim no futuro. O custo é só parte do problema, que essas reportagens agravam – e, vejam só, são mais bonitas justamente porque não há um monte de publicidade junto. Elas são reportagens sem uma fonte de faturamento clara.

A questão que deve ser posta é: para que serve a beleza dessas reportagens? Seria um jornalismo mais bonito o futuro do jornalismo, mesmo em uma escala mais modesta? Certamente no caso do especial sobre Belo Monte as fotos estouradas, muito maiores que o normal, ajudam a dimensionar a coisa. Mas há alguns vídeos, GIFs animados e infográficos que agregam menos.

Ouvimos falar das promessas da “multimídia” há pelo menos 30 anos. E existe um motivo além do gratuito para a Wikipédia ter se sobressaído sobre a Encarta, a série de DVDs vendidas pela Microsoft nos anos 90. Ou por que a Magazine e a Economist dão um banho em várias revistas cheias de infográficos animados no iPad. O conteúdo, a mensagem, sempre será a coisa mais importante. E se os elementos extras não estiverem a serviço da história a ser contada, eles não só não ajudam. Eles atrapalham. É a fantástica ilusão das coisinhas que se mexem, e o site do filme Space Jam nos alerta sobre como as coisas podem ser constrangedoras quando vistas pelo retrovisor.

Na Slate, Farhad Manjoo resumiu a crítica comum a reportagens do tipo no tocante à programação gráfica. Ele diz que toda vez que tentou ler Snow Fall (algumas), ele sempre achou não só grande demais, mas cheia de elementos distrativos. “Será que o Times se importa se eu ler a matéria? Talvez você só precise dar o scroll e assistir aos vídeos?” E conclui:

Eu sou totalmente a favor de experimentação no jornalismo de internet. Eu acho que vídeos, gráficos, imagens de grande formato e outros elementos além do texto podem melhorar a forma de se contar uma história. Mas suspeito que daqui a alguns anos, nós vamos olhar para Snow Fall, The Jockey e similares (…) como um exemplo de excesso, um momento onde os designers se deixaram dar vazão à toda a criatividade porque agora eles têm os meios técnicos de fazerem isso, e não porque isso melhora o entendimento dos leitores sobre aquilo.

Manjoo cita como bons exemplos de reportagens que estão no meio do caminho – são mais bonitas e aprofundadas que a média, mas não tem tantos elementos multimídia – como bons exemplos a seguir. A investigação sobre o nosso vício em carne é um deles.

O mais importante é que boas histórias possam ser lidas por qualquer pessoa, em qualquer lugar. E Belo Monte até que se sai bem neste quesito, já que funciona direitinho no smartphone ou tablet – mas pode engasgar até os melhores computadores. E poucas coisas deixam a gente mais irritado que clicar em uma reportagem e esperar longos 15 segundos para ela carregar. Por isso, em suas previsões para o jornalismo em 2014, o Nieman Lab – dos maiores centros de estudo sobre as tendências da comunicação – destacou a opinião de Mandy Brown:

Apesar de nossos designs serem mais sofisticados, eles são, como sempre, melhoras progressivas em cima de uma reportagem que deve ser capaz de sobreviver sem os elementos extras. Quer dizer, na nossa empolgação de expandir o que é possível fazer na web, não vamos esquecer o que faz dela melhor que outros meios: o potencial de alcançar todo mundo, em todo lugar, independente de suas habilidades ou riqueza.

Menos Belo Montes, mais belos vales

O Tudo sobre Belo Monte é o que se costumava chamar nas faculdades de “jornalismo de revista”. Algo de fôlego, longo, que resistirá por certo tempo – pelo menos um mês, enquanto a capa estiver disposta nas bancas. Mas esse tipo de matéria não casa com o modelo do jornal, tanto menos com o jornal online. Publicada no domingo, a reportagem já não estava mais na homepage da Folha na quarta-feira. Foi enterrada, entre outras coisas, pelas notinhas de celebridades do F5 e a cobertura política do jornal, que se concentra na guerrinha entre duas siglas, frases rebatidas por A ou B ou no que a ombudsman Suzana Singer chama candidamente de “pessimismo crônico” ao ler pesquisas governamentais. Um baita esforço que, a partir de agora, só poderá ser encontrado pelo Google. Belo Monte merece a vitrine da Folha – ainda que não esteja dando tantos cliques assim.

A redação da Folha de S. Paulo

A redação da Folha de S. Paulo

Qual o sentido então de produzir um filé de jornalismo e escondê-lo logo depois? Se o objetivo de iniciativas assim é convencer mais pessoas a pagar por jornalismo, por que não vendê-las melhor? Esses problemas me levam a crer que a snowfallização não apenas não conseguirá salvar o jornalismo online como pode acabar apontando problemas mais profundos.

Há a questão do imediatismo. A internet se acostumou com o “cronológico reverso”: blogs exibem o último post (e não o mais importante) no topo, idem para o Twitter, Instagram e basicamente qualquer ferramenta na qual você pensar. Quando o Facebook tenta mudar isso (preconizando as atualizações “mais importantes”), há chiadeira. Então, na lógica dos “capistas” da Folha.com, o que tem mais destaque é o que é novo, não necessariamente o mais importante. O problema, claro, não é deles. Talvez muitos deles discordem disso. O nó é o “espírito do tempo”. A lógica do jornalismo digital é trocar as chamadas – mesmo que não exista nada para colocar no lugar. Perdemos as noções de hierarquia e destaque, tão caras ao jornalismo.

O resultado dessa obsessão não é apenas o sumiço de textos mais longos, trabalhados. Entrando nos portais hoje, encontramos a notícia que “Dilma não falará sobre Snowden”, que “Empresa de dirigente do Flu atende CBF”, e que “Metrô afasta gerente ligado a empresa contratada da Alstom.” São três assuntos interessantes, importantes, que dizem um bocado sobre o mundo e o Brasil. Mas se você não os acompanha desde o início, provavelmente terá perdido o bonde, por mais que exista uns 3 ou 4 parágrafos no pé de cada matéria para explicar rapidamente o caso. Estamos perdidos no fluxo eterno do presente.

Aceitamos como regra do jornalismo a obsessão por sempre colocar as atualizações incrementais de maneira mais destacada do que o contexto. O objetivo dos jornais é dar as últimas notícias, não ajudar a explicar o mundo.

Mais reportagens de contexto, como a de Belo Monte, ou grandes histórias bem contadas, como Snow Fall, significariam necessariamente um volume menor de atualizações. E algum dia, eu tenho fé, vamos perceber que menos é mais também em jornalismo. Meu lado otimista vê cada vez mais pessoas como Lauren Rabanio, editora de apps de notícias do Seattle Times, que acha que 2014 será o ano em que contextualizaremos notícias:

Os temas que têm um impacto nas nossas vidas são formados de notícias sinuosas, personagens principais que duram toda a trama e mudanças tópicas que são importantes para entendermos a história toda. Esses elementos não se resetam, iniciam de novo, todo dia com um novo ângulo, como forçamos os leitores a acreditar. Nós estamos limitando a oportunidade dos leitores de entender todo o impacto de notícias que se entrelaçam ao reduzir o contexto a alguns parágrafos de “entenda” em cada nova atualização das coisas que escrevemos sobre.

Belo Monte é exatamente o que precisamos mais: uma janela para entender melhor um assunto, com vários ângulos, histórias, personagens, números. A Folha pode dizer que não tem como produzir tantos especiais assim porque tem a prioridade da sua equipe é manter o site quente e atualizado com dezenas de textos de 4 parágrafos (e uma galeria) sobre a celebridade do momento. É do jogo. Mas será que é útil tanto para a Folha quanto para o mundo? Há muita gente já fazendo isso, inclusive a própria celebridade, em seu Instagram ou Facebook. Por que não reorganizar a equipe em torno não do que gera page views simplesmente, mas para o que é mais importante e valioso? Afinal, a Folha não precisa de tantos page views assim para vender publicidade – ou ela pode dizer que há métricas melhores. Se o anunciante quiser muitos e muitos page views, ele tem o Google e o Facebook à disposição. O anunciante quer a Folha por causa dos leitores da Folha e pelo que a Folha é e representa.

O jornal vai argumentar que analisar assuntos complexos requer gente “cara”. Mas é tudo uma questão de concentrar esforços. A Folha, por exemplo, se exime da tarefa de analisar profundamente alguns fatos jogando a responsabilidade na mão dos colunistas. Ela já tem mais de 100 deles (mais que Washington Post e New York Times somados), e não há muita preocupação em zelar pela qualidade das opiniões. Só mais gente dando opinião. Opinião por opinião é barato – para contratar e para publicar. Análise qualificada é bem mais cara, mas pode ter um efeito positivo a longo prazo. Basta pensar que a The Economist ou o New York Times são assinados por milhares de pessoas ao redor do mundo principalmente por causa das suas reportagens, e não por causa dos seus colunistas.

A recepção positiva de Snow Falls mostra que os jornais podem não só produzir mais pequenos livros de não-ficção, mas também fazer um pouco mais o papel de Wikipédias mais bonitas, qualificadas. Provavelmente a reportagem mais lida sobre a crise na Síria (tinha mais de 600 mil curtidas, ate onde vi) foi esta do Washington Post, onde Max Fisher responde as 9 perguntas que você tem sobre a Síria mas tem vergonha de perguntar. Entre elas, uma fundamental: “por que as pessoas lá estão brigando entre si?” É algo que o nosso jornalismo diário ignora – e que tem um imenso valor.

Assim, esperamos que no futuro próximo a meta do jornalismo seja aumentar sua relevância, e não ser um pequeno floco de neve raro que cai de vez em quando e faz alguém sorrir. É bonito, mas dificilmente mudará a percepção geral de que a mídia está perdendo sua força. É sintomático pensar que o texto mais salvo no aplicativo Pocket em 2013 tenha sido uma matéria do Guardian que diz que notícias são ruins para nós, e que precisamos parar de consumi-las tanto.

Nós precisamos de mais jornalismo de qualidade. Precisamos diminuir a distância entre o Tudo Sobre Belo Monte e a cobertura diária dos grandes veículos de comunicação. De uma maneira bem simples, o futuro do jornalismo passa pela medida: precisamos diminuir a distância entre as grandes reportagens e as matérias do dia a dia. O cotidiano precisa ser tratado com mais carinho. Porque bom conteúdo, no final das contas, faz com que cada um de nós seja uma pessoa melhor. E essa é, como você já sabe, uma das maiores missões do Oene.

 

[Imagem: David Hepworth/Flickr]

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  1. Se você se interessa pelas tecnologias, HTML5, CSS e Javascript aplicados, é interessante ver este post da equipe do New York Times explicando o processo do Snow Fall, ou este de Brook Ellingwood investigando minúncias do código. De todo modo, mortais podem conseguir efeitos bem próximos dos que são vistos na reportagem através do novo Medium, por exemplo, ou através de ferramentas como o Creatavist.

 

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