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Seth MacFarlane não mandou tão bem no Oscar, mas será que o politicamente correto nas redes sociais não piora nossa diversão?


O principal assunto na repercussão da cerimônia do Oscar entre a imprensa americana – e pedaços da nossa tuitosfera – foi o mestre de cerimônias Seth MacFarlane. Muitos sites avaliam que o criador de “Family Guy” e “Ted” foi um dos piores hosts que o Oscar já teve. Seth é chamado de sexista, racista e […]

O principal assunto na repercussão da cerimônia do Oscar entre a imprensa americana – e pedaços da nossa tuitosfera – foi o mestre de cerimônias Seth MacFarlane. Muitos sites avaliam que o criador de “Family Guy” e “Ted” foi um dos piores hosts que o Oscar já teve. Seth é chamado de sexista, racista e homofóbico, uma pessoa com o pensamento limitado com relação às mulheres e que sua intenção de homenagear os anos 50 ironicamente tinha a ver com fazer piadas que pareciam ser daquela época. Só que, indo além, o caso Seth-no-Oscar mostra não só o que acontece quando um comediante apresenta material ofensivo (e possivelmente fraco) em um evento grande como este. Ele também é um bom exemplo da atual onda de politicamente correto combinada com o fluxo incessante de comentários histéricos nas redes sociais.

Logo no começo, com piadinhas levemente desconfortáveis com os principais indicados, a apresentação da cerimônia não parecia que iria criar um grande problema. Ela só não dava a impressão de que seria tão divertida e leve quanto o que Amy Pohler e Tina Fey conseguiram fazer na noite do Globo de Ouro neste ano, mais ou menos na mesma linha, mas com um roteiro mais afiado. O problema é que Seth, aos poucos, fez com que o show ficasse preso nas referências a si mesmo e aos seus trabalhos. Convenhamos: ainda que a maioria das pessoas que conheço goste de “Family Guy”, era possível apostar que sua fórmula anárquica e debochada, ofensiva a absolutamente todos os grupos de pessoas, não funcionasse para o palco do Oscar, o momento onde o cinema se autocelebra. Sem ter o público ao seu lado, toda e qualquer piada feita por Seth virou alvo de análise e crítica.

São dezenas de resmungos antiMacFarlane em diversos sites, mas há pontos que merecem maior análise para avaliarmos se as críticas — iniciadas ou reverberadas nas redes sociais — são ou não reações exageradas. Vamos às situações em que há praticamente um consenso de que Seth não mandou muito bem:

A primeira e mais criticada piada é a performance musical “We Saw Your Boobs”, na qual Set homenageou de forma torta atrizes famosas, citando os filmes nos quais há cenas em que seus seios aparecem. Traduzindo, um trecho da música ficaria assim: “Meryl Streep, nós vimos seus peitos em Silkwood (O Retrato de Uma Coragem)/ Naomi Watts em Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos)/ Angelina Jolie nós vimos seus peitos em Gia”.

Margaret Lions, do Vulture, escreveu que o musical deveria começar com um aviso “isto não é para você (mulher)”, notando que piadas com peitos não tem graça para elas. E alienar um pedaço grande da plateia não era o maior problema para Sarah Hughes, do Guardian: “de Jodie Foster em ‘Acusados” e Halle Berry em ‘A última Ceia’ a Angeline Jolie em ‘Gia’ e Charlize Theron em ‘Monster’, todas estavam interpretando vítimas de estupro”. A produtora Cathy Schulman, que já ganhou um Oscar e é presidente do grupo “Women in Film”, disse ao New York Times que não tinha ouvido uma pessoa comentar que o número era “de bom gosto”, e que a nudez das atrizes era um tema bastante sensível. Os defensores de Seth vão dizer que ele estava fazendo piada com os homens meio bobos que vê os filmes só pelas cenas de nudez, mas se tanta gente achou a coisa sexista como eu, é porque no mínimo a piada foi mal feita. Pareceu um número só para homens que não vai além do babaca.

A segunda pior piada acabou com a sexualização de uma criança de apenas nove anos, no caso a fofa atriz mirim Quvenzhané Wallis, de “Indomável Sonhadora”. “Para você ter uma ideia de como ela é jovem, daqui 16 anos ela estará muito velha para [George] Clooney”, disse Seth. É claro que o alvo da piada era George Clooney e sua suposta predileção por novinhas. Mas a fala de Seth inevitavelmente encaminha nosso raciocínio para um balde de repulsa: você entende que ele direciona a brincadeira para o ator, depois lembra que a figura utilizada para a piada é uma apenas uma menininha e urgh — não, não dá.

O top 3 Piada Com Ponto Negativo teve como alvo o peso de Adele. Como se não bastasse usar uma fórmula pequena e baixa que é o humor sobre gente gorda — e Adele é atualmente a número 1 do mundo em piadas como esta — a provocação de Seth MacFarlane ainda respingou em Melissa MacCarty, a atriz e comediante-queridinha dos Estados Unidos por seu papel na série “Gilmore Girls”, aludindo a um episódio que teve uma repercussão bem chata na carreira dela. Seth disse “o que o crítico Rex Reed (que criticou Melissa por ser gorda) diria depois da apresentação de Adele no Oscar?”. Seth quer que Rex Reed repita um comentário rude com Adele? Ou ele está dizendo que Adele foi bem demais para uma gorda e que agora Rex Reed vai ter que se render a isso? De novo, esse tipo de pergunta mostra que a piada não funcionou.

Claro que nem tudo o que Seth MacFarlane fez foi um grande chorume. “O melhor momento de Seth MacFarlane na sua apresentação do Oscar talvez tenha sido mais para o fim da noite quando, ao anunciar Meryl Streep, ele disse “nosso próximo convidado não necessita de introdução”…e apenas saiu de cena”, diz Spencer Kornharber, no Atlantic.

Outros momentos necessitam que o público reflita se a maioria das pessoas estão ou não tendo reações exageradas, como por exemplo quando Seth diz “chegamos ao momento da cerimônia onde Javier Bardem, Penelope Cruz ou Salma Hayek vem ao palco e nós não temos ideia do que eles estão dizendo — mas nós não nos importamos porque eles são muito atraentes”. Seth foi racista e antilatino como urraram os comentários ou apenas estava fazendo uma crítica ácida aos americanos por demonstrarem pouco interesse sobre o que os atores latinos dizem?

Na Salon, Andrew Leonard escreve que essa cultura de assistir ao que passa na TV tentando assimilar tudo muito rápido para poder tuitar/criticar talvez prejudique nossa percepção das coisas:

“Ao democratizar comentários sobre eventos que todos nós compartilhamos coletivamente, o Twitter dá acesso igualitário a qualquer voz marginalizada previamente. Não é uma coisa ruim, é claro. E é muito divertido quando nós assistimos às coisas que gostamos juntos. Mas a recompensa natural deste atire-primeiro-pergunte-depois do Twitter às vezes falha ao dar conta de (ou ignora de propósito) certos contextos ou nuances. O Twitter abre as comportas do nosso id coletivo e sem filtros. Uma multidão real e difícil.

E se muitas outras piadas ou conteúdos de TV tenham sido injustiçados por esta nossa pressa de classificar o que é correto ou não? Bate uma vergonha quando percebemos que as redes sociais e a tentativa de “zerar” os assuntos talvez nos incentivem às posições definitivas e precipitadas sobre todo e qualquer tema. O tempo todo.

Andrew conclui:

“Mas isso de nós assistirmos um evento em tempo real e falarmos sobre ele nas redes sociais é ainda algo novo o suficiente para fazer com que não reconheçamos algumas das suas consequências negativas. No nosso passado pré-Twitter, nós apenas desligaríamos a TV ou zapearíamos os canais quando MacFarlane começasse a cantar sua canção sobre peitos. Mas nós continuamos assistindo para compartilhar nossa raiva! (…) E isso não acontece somente quando um comediante está tendo um dia ruim. Nós fazemos isso durante os debates presidenciais ou quando estamos assistindo aos comerciais do SuperBowl ou às séries como “Downton Abbey”.

E, no caso do Brasil atualmente, isso vale para quase tudo que está na TV, do Big Brother ao jogo do Corinthians. Bem, se estamos expostos aos comentários sobre os programa de grande audiência e as reações exageradas nas redes sociais, a saída para ter uma experiência realmente divertida com um evento como o Oscar seria:

1) não deixar-se levar pela polícia das redes sociais e 2) se tiver ruim demais, mudar de canal.

Parece simples, não?

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