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As novas tecnologias estão fazendo a gente “perder a memória”? Não tem problema


No livro Smarter Than You Think, Clive Thompson discute o que é ser inteligente quando estamos sempre a poucos cliques de saber tudo.

Não foi só quem acompanhava xadrez que se assombrou com a notícia que Garry Kasparov, provavelmente o maior jogador da história, perdeu uma partida para o Deep Blue, a supermáquina da IBM, em 1997. A história que se desenhou na imprensa foi que ali o ser humano mais inteligente havia perdido para o computador mais “inteligente”[1], capaz de calcular mais de 100 milhões de posições no tabuleiro por segundo. Parecia que as histórias de robôs dominando o mundo, populares na ficção científica, de repente se tornaram factíveis.

Pouco depois, houve um outro lance interessante que recebeu menos atenção. Em 1998, depois de perder não apenas uma partida, mas um “match” para o computadorzão, Kasparov organizou do primeiro campeonato que envolvia homens colaborando com PCs, modalidade batizada de “xadrez avançado”, ou centaur chess. Cada jogador (ou time) tinha à disposição uma vasta biblioteca de movimentos e poderia avaliar as sugestões do computador a partir de situações parecidas às do tabuleiro. O grande mestre achou a experiência “perturbadora mas animadora”. No fim, reconheceu que aquele seria o jeito mais interessante de jogar. Porque agora uma parte enorme da sua energia mental não precisava mais ser alocada para memorizar jogadas e situações de partida. De repente ele poderia só focar na parte criativa, do estilo de jogo.

O xadrez avançado se popularizou, e anos depois os campeonatos desse tipo também tiveram uma surpresa. Em 2005, Steven Gramton e Zackary Stephen, dois amadores munidos de computadores comuns ganharam de mestres experientes e supermáquinas. No caminho para o título, a dupla bateu Hydra, o rei dos computadores de xadrez.

“Quem é melhor no xadrez? Humanos ou computadores? Nenhum dos dois. São os dois juntos, trabalhando lado a lado.” É o que conclui Clive Thompson em Smarter than You Think: How technology is changing our minds for the better (“Mais esperto que você pensa: como a tecnologia está mudando as nossas mentes para melhor”, ainda sem tradução para português”), que abre com essa parábola enxadrística para desenvolver a seguinte tese:

Em seus melhores momentos, as ferramentas digitais nos ajudam a ver mais, reter mais, comunicar mais. Nos piores, elas nos transformam em presas para a manipulação dos seus criadores. Mas no saldo, o que está acontecendo é profundamente positivo.

Thompson diz que da mesma forma que livros amplificaram nossa memória e papel e caneta à mão permitiram externalizar rapidamente o pensamento para consumo e refino posterior, as novas tecnologias estão, bem, deixando a gente mais inteligente e com o raciocínio mais rápido. E precisaríamos, ao invés de lutar contra algumas das tendências, abraçá-las mais, como fizeram os enxadristas.

Até quando será proibido “colar” nas provas?

A visão de Clive Thompson é interessante porque a discussão sobre o impacto das novas tecnologias muitas vezes carece de nuance. Tanto que os bestsellers do gênero estão em extremos, como A Geração Superficial, de Nicholas Carr (que é uma versão estendida do seu artigo “O Google está deixando a gente estúpido?[2]) ou, do outro lado, o empolgado Lá vem todo mundo, de Clay Shirky, que acredita que a inteligência das massas produzirá milhares de versões da Wikipédia, e não montagens no 9GAG. A realidade, é claro, está mais no meio do caminho (como desenvolvo no meu livro, fazendo um rápido autojabá).

Na verdade, não é tão difícil sustentar a tese que estamos mais espertos: o uso racional e não obsessivo/viciado das tecnologias conectadas tornam a nossa vida mais fácil. Mas Smarter than you think é especialmente interessante porque traz muitos argumentos a favor da tal “memória infinita” permitida pela conexão constante e custo de armazenamento tendendo a zero. Volta e meia alguém diz pra mim que “não se lembra mais do telefone (ou aniversário) de ninguém” ou lamenta que as discussões de bar constantemente são interrompidas com alguém sacando o smartphone e a wikipédia para checar algo – ou que estudantes copiam a Wikipédia. Para Thompson, isso tudo é saudosismo.

Algo mais importante do que saber alguma informação, argumenta Thompson, é a chamada “metamemória”: a capacidade de lembrar onde podemos encontrar algo que não sabemos, ou não lembramos os detalhes. A metamemória sempre foi uma habilidade importante, antes até do aparecimento da escrita. Cada tribo tem pessoas com conhecimentos específicos, como sites temáticos. Ninguém precisava saber o que era bom pra cada doença, porque tinha o xamã para consultar. Thompson diz:

Apesar de pensarmos que o conhecimento é uma posse individual, a nossa sabedoria sobre os fatos é muitas vezes extremamente colaborativa. Nós estamos cientes das nossas forças e limitações mentais, mas somos bons em intuir as habilidades dos outros.

Ele cita diversas pesquisas que mostram que casais de certa forma dividem as tarefas de memória. Você já deve ter vivido algo do tipo: fulana sabe que dias caem cada cada conta, fulano dos endereços da família. Nos acostumamos a perguntar praquele colega qual o nome de um jogador de futebol obscuro, e eu aqui olho para a Nina e pergunto “de onde eu conheço essa atriz?” e a resposta vem mais rápido que o imdb.

Então, a nossa terceirização da memória para agenda do celular e o Google é só uma maneira mais eficiente de dar prosseguimento a esse atalho que sempre usamos. O que assusta é que hoje substituímos pessoas e livros pelo Google e o smartphone, e como temos sempre eles à mão (ao contrário dos suportes de memória “analógicos”), deixamos um bocado da parte pesada de lembrança para a nuvem.

Se você está lamentando que ninguém se lembra de nada direito, pense primeiro no que está sendo esquecido. Datas de aniversário e números de telefone sempre foram dados aleatórios que precisavam de um certo esforço para serem armazenados e recuperados da memória. Decorar nunca foi algo desejável, daí o termo “decoreba” sempre designar uma parte desnecessária do nosso ensino.

Então, podemos começar a pensar que um efeito positivo da memória infinita e acesso constante a informações é a redefinição do que é ser inteligente.

“O cara é uma enciclopédia” costumava ser um elogio comum, mas é uma herança de uma era pré-Google. E não saber as coisas de cor não deve ser visto como ser menos inteligente. Thompson argumenta que essa discussão que temos hoje se deu séculos atrás quando a imprensa foi inventada.

Sabemos agora que a produção em massa de livros foi desenvolvida antes na China, no início do segundo milênio. E a invenção preocupava bastante gente por lá. “Como é fácil para os sábios comprarem livros, a sua capacidade de recitá-los da memória está deteriorando”, lamentava o intelectual Ye Mengde, citado por Thompson, que ignorava o fato de que as pessoas antes sabiam livros de cor simplesmente porque não tinham opções[3]. Ouvindo reclamações parecidas na Europa no século 16, Sir Francis Bacon mandava os decoradores – que ele classificava como “malabaristas, bufões, que usam suas habilidades para ostentar” (não muito diferente que algumas pessoas que recitam poesias) –pararem de encher o saco: o livro havia chegado para ficar.

À medida que os acadêmicos começaram a se acostumar com a profusão da palavra impressa, eles entenderam que a habilidade dos tempos modernos seria gerenciar o acesso à memória externa. Se você vai ler vários livros diferentes mas normalmente lê-los apenas uma vez; se você vai se embrenhar no universo de ideias em constante expansão lendo por alto ou recortando trechos da mesma forma que lendo profundamente; então você precisa confiar na memória semântica: você absorverá o resumo do que lê mas raramente reterá as especificadades. Depois, se você quiser pensar melhor sobre um detalhe, você deverá ser capaz de achar novamente um livro, uma passagem, uma frase, um artigo, um conceito. Acesso é algo crítico. Em essência, uma nova e crucial habilidade intelectual emergiu. Quando o mundo oral puro morreu, o mundo da biblioteconomia nasceu.

Como os enxadristas apontam, a metamemória é mais importante que a lembrança dos fatos. Mas nossa educação ainda não se deu conta disso, e nossos hábitos de uso da tecnologia também não acompanham a mudança de paradigma: 90% das pessoas não sabem usar o ctrl+f, lembre-se.

Thad Starner usa um computador nos óculos há duas décadas [Foto: Salfor University / Flickr]

Thad Starner usa um computador nos óculos há duas décadas [Foto: Salfor University / Flickr]

Saber o que, onde e como procurar é importante. Esta seria a nova inteligência. Entender quando devemos buscar conhecimento também é crucial. Hoje, é fácil saber mais coisas, já que tudo está ao alcance dos dedos, no smartphone. E quando estiver ao alcance do olho, em coisas como o Google Glass? Nossa noção de inteligência mudará ainda mais?

Thompson conversou longamente com o americano Thad Starner, um dos primeiros caras a usar algo como o Google Glass – e que hoje é consultor do Google. Ele tem um visor acoplado a seus óculos, ligado em um computador do tamanho do livrinho, que fica em uma espécie de mochila. Os comandos não são de voz: há um micro teclado que ele opera com apenas uma mão, normalmente no bolso. Ele usa essa parafernalha há 20 anos e diz que o que ele faz é “criar um nível mais alto de intelecto”[4].

O autor de Smarter than you think diz que conversar com Starner é interessante, porque ele tem “truques de memória” incríveis, do tipo você começar a contar a história de uma empresa e ele lembrar do slogan dela. “Se você acha informações que dão apoio à sua conversa, que está tornando o papo mais rico; isso é multiplexing, e não multitasking” – defende Starner. Como fazer isso sem parecer um maníaco que olha para cima o tempo todo? Ao longo desses anos, o inventor desenvolveu regrinhas. Ele espera pausas naturais nas conversas para fazer anotações ou consultar assuntos correlatos. Ele não checa emails ou busca coisas “offtopic”, pela internet. “Se você checar email enquanto conversa, seu QI cai uns 40 pontos. As pessoas não conseguem ser multitarefa. Não é possível. Eu acho que atenção é uma questão bem, bem importante.”

Starner, na verdade, raramente busca por novas informações. Ele faz anotações de coisas que já tinha buscado antes, e cria um Google personalizado. “Ele está retomando informações, refrescando a memória por detalhes que ele já sabe. Este processo é rápido e não o distrai. Mas tentar embedar novos fatos requer foco e atenção, o que ele evita fazer enquanto está conversando”, explica Thompson.

Será que o acessório dá a Starner +3 de INT (com penalidade de carisma, provavelmente)? É uma discussão interessante. Os enxadristas nos mostram que o computador é o nosso amigo e que saber é bem menos importante que conectar os pontos. E se formos centauros ou ciborgues, podemos aprender com Starner a domar a nossa atenção e a sede por conhecimento. Lembrando sempre do aforismo de Nassim Taleb: “Eles [os tolos] acham que inteligência é saber coisas que são relevantes (detectar padrões); em um mundo complexo, a inteligência consiste em ignorar coisas que são irrelevantes (evitar padrões falsos).”

 

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  1. Há alguma controvérsia sobre aquela partida, com Kasparov alimentando por muito tempo a teoria de que humanos escolheram alguns dos movimentos. E que a “jogada de gênio” do Deep Blue aconteceu por causa de um bug.  ↩
  2. O argumento de Thompson para rebater o papo de que estamos mais superficiais é interessante: ele diz que sempre tivemos dificuldade de nos concentrarmos, e por isso ao longo dos anos a sociedade criou instituições que se prestam a isso: bibliotecas, universidades, templos e clubes do livro. Somos apenas mais tentados a ser superficiais, à medida que não delimitamos espaços de profundidade.  ↩
  3. O conhecimento profundo é, por mais vezes que gostaríamos de admitir, fruto de constrições espaciais ou orçamentárias. Um Atlas ficou no banheiro da minha casa por muito tempo, e eu decorei capitais de micropaíses porque era a única coisa que lia no trono. Eu consigo hoje desenhar uma fase inteira de Mario Bros. porque era o único jogo que tinha no meu nintendinho. E sei até hoje a ordem (e Lado A e Lado B) de alguns discos do Legião porque não tinha um Spotify da vida na minha infância, e ouvia até morrer aquelas coisas. Hoje temos um conhecimento superficial sobre mais coisas e isso não é necessariamente pior: precisamos ter profundidade sobre algumas coisas, mas podemos escolhê-las melhor.  ↩
  4. Thad Starner, assim como vários pioneiros da computação vestível, nunca quis colocar uma filmadora em seu proto-Google-Glass, por uma óbvia questão de privacidade. Gordon Bell, um “lifelogger” que há décadas tem uma câmera que tira fotos há cada minuto, desistiu de usar um mecanismo de gravar áudio depois de brigas com a esposa.  ↩
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