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Você não precisa de explicação para o que está acontecendo


Considere essas micro-histórias: A) João vivia um casamento feliz com Maria. João matou Maria. B) João vivia um casamento feliz com Maria. João matou Maria para ficar com a herança. Qual é a mais provável? A resposta é fácil, não há pegadinhas. Tempo. A primeira é a mais provável, obviamente. Porque como ela não dá […]

Considere essas micro-histórias:

A) João vivia um casamento feliz com Maria. João matou Maria.
B) João vivia um casamento feliz com Maria. João matou Maria para ficar com a herança.

Qual é a mais provável? A resposta é fácil, não há pegadinhas.

Tempo.

A primeira é a mais provável, obviamente. Porque como ela não dá um motivo para a súbita mudança de rumo, ela abarca a explicação da herança e qualquer outra – ataque de fúria, um tiro por acidente, um comentário de blog mal compreendido. Mas se você teve como primeiro instinto marcar a segunda proposição, não se preocupe. É o seu cérebro. Quando encontramos fatos marcantes em sequência que não tem uma lógica clara, nos apressamos para preencher com explicações, e essas vêm do nosso repertório estabelecido de causalidade. Sabemos de histórias de crimes por herança, então a explicação oferecida “faz sentido”. Nós não gostamos de aleatoriedade.

O seu dia-a-dia é caótico, cheio de ações desconectadas e randômicas. Mas nós estamos condicionados a ver o mundo com uma certa lógica, por uma questão evolutiva. Em termos de energia gasta no cérebro, a informação cheia de nuance, caos e detalhe é cara para ser obtida. Também é caro guardá-la, há um custo energético para lembrarmos em detalhes. Quanto mais você resume, quanto mais ordem você coloca, menor é o custo de processar e recuperar a informação. Se eu colocar uma sequência de 15 palavras aleatórias aqui você vai precisar prestar atenção e reler várias vezes até decorar. E daqui a 15 minutos provavelmente não se lembrará mais. O esforço para decorar a letra de uma música ou uma historinha é significativamente menor. Renato Russo provavelmente sabia disso quando compôs Faroeste Caboclo, que você lembra a letra até hoje, mesmo sem fazer esforço para isso.

Pois bem. Como temos espaço limitado no cérebro para armazenar tudo, rejeitamos o que é incoerente por natureza. Então precisamos que o mundo faça sentido. “Ao contrário do que todo mundo acredita, não teorizar é uma ação. É preciso um esforço considerável para ver fatos (e lembrar deles) atrasando julgamento e resistindo a explicações”, explica Nassim Nicholas Taleb no (clássico moderno da filosofia, na minha opinião) A Lógica do Cisne Negro, de onde tirei a o exemplo lá de cima. Como não resistimos e tentamos achar explicações para tudo, caímos no que ele descreve como “Falácia Narrativa”[1], especialmente quando nos deparamos com eventos raros e não-previstos – que ele chama de “Cisne Negro”[2]. Esses dois conceitos têm muito a ver com o que tenho lido nas redes sociais enquanto o Brasil vai às ruas pela democracia no fim da tarde e compartilha teorias conspiratórias depois do Jornal Nacional. Acompanhe:

A Falácia

Vários especialistas apresentaram suas teorias sobre o motivo de haver tanta gente na rua, “de repente”, em vários países do mundo por razões diferentes. Eu simpatizo com a explicação dada pelo guru da internet Clay Shirky, que diz que estamos vendo uma aceleração do que os sociólogos chamam de Cascata da Informação (A opinião dele está nessa boa reportagem do programa Milênio, da GloboNews). A coisa começa com uma microbandeira e os efeitos de rede aumentam muito rápido a escala e o alcance – sem haver um rumo ou agenda clara.

Não vou ser redundante aqui e oferecer alternativas de explicação do fenômeno. Eu me interesso mais pelo que será do movimento-que-não-é-um-movimento do que como ele começou. Mas queria voltar à Falácia Narrativa, definida assim por Taleb:

A falácia narrativa [é um conceito que] explica a nossa capacidade limitada de olhar sequências de fatos sem costurar uma explicação, ou, de maneira equivalente, forçando um elo lógico, uma seta de causalidade, entre eles. Explicações ligam os fatos entre si. Eles fazem que todos sejam mais facilmente lembrados; fazem com que eles façam mais sentido. Essa propensão pode fazer mal quando ela aumenta a nossa impressão de entendimento.

Como isso se aplica aos eventos dos últimos dias? O que temos de razoavelmente incontestável sobre os fatos é que boa parte da mídia chamava de baderna os protestos levados a cabo basicamente por grupos de esquerda; depois da truculenta ação da polícia em São Paulo (divulgada também pela grande imprensa) os mesmos veículos passaram a apoiar o direito às manifestações (e salientar que os “vândalos” são minoria). Com o impulso de redes sociais as manifestações aumentaram e desde segunda-feira reúnem diariamente centenas de milhares de pessoas nas ruas de todo o Brasil, causando também um bocado de caos em várias cidades. Crescida e sem as bandeiras iniciais, a cara das marchas mudou. Se a pauta inicial era sobre o aumento das passagens, a o foco agora é contra a corrupção, altos gastos na Copa, e problemas de representação política em geral – coisas que não são exatamente “de esquerda” mais.

Há aí uma sequência resumida de fatos, e de certa forma, dependendo do seu viés, eles parecem muito contraditórios ou suspeitos. Há um certo caos – de ideias, de apoio ou negação de partidos, de ações pacíficas de um lado e crime e brutalidade policial do outro, mudança brusca de cobertura da mídia, pessoas que parecem “não pertencer” a uma manifestação popular marchando junto. O cérebro tem dificuldade de juntar tudo isso, mas temos uma necessidade de criar uma historinha coerente. Se não conseguimos sozinhos, abrimos espaço para que outros ofereçam suas teorias.

Farei uma generalização aqui, me perdoem, mas pelo que observei as pessoas mais propensas a apoiar o governo (de esquerda, ma non troppo) sentem mais falta de uma narrativa coerente. Observando os pensadores e veículos de esquerda mainstream, parece que os 10 anos de governo do PT melhoraram a vida de todo mundo, há uma aprovação incrível (ainda que em queda), vamos sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, temos quase pleno emprego e, diabos, o aumento da passagem “foi tão pequeno porque Dilma e Haddad retiraram impostos”, na explicação de Paulo Henrique Amorim (o post que fala isso é engraçadíssimo, olhando em retrospectiva). Esse tanto de gente na rua não faz sentido, é um Cisne Negro gigante.

Para pessoas mais à direita ou mais críticas do governo, as manifestações até demoraram: o Brasil é um país corrupto por causa do Lulismo e os “petralha$”, o povo cansou e foi às ruas. A faísca é detalhe. É difícil ver essas pessoas buscando explicações muito complexas para além do que está aí.

Se “você é o que você compartilha”, como diz o Gil Giardelli, as explicações que você acredita dizem mais sobre quem você é do que sobre o que está acontecendo de fato.

Eu não tenho partido, nas últimas eleições votei no Haddad e segundo essas pesquisas da Capricho na internet, sou “liberal de centro-esquerda”, mas fiquei profundamente fascinado pelas explicações que apareceram, que resolviam todo esse caos, vindas todas da esquerda. Três particularmente, ao menos aqui na minha timeline, ganharam notoriedade/likes/retuítes: Os textos da socióloga Marília Moschkovich (A primavera brasileira e o golpe iminente), do ""“jornalista”"" Paulo Henrique Amorim dizendo Globo derruba a grade. É o Golpe! e o Tubber/VJ PC Siqueira “revelando” a posição da Globo e o seu papel nos protestos.

Há algumas diferenças de método entre as explicações, mas todas deixam claro que A) há uma posição “do mal” e outra “do bem” (no caso do PC Siqueira, numa simplificação grotesca de posições políticas) e B) Basta juntar as peças que você verá que o mal está manipulando as manifestações, que começaram legítimas – por legítimas, para essas pessoas, entenda “de esquerda” – e descambam para o “fascismo”. “Fascismo”, pelo que leio, é querer derrubar a presidente em 2013 (em 1999 não era) ou não querer a presença de bandeiras de partidos.

Mas voltando aos textos. Todas as pessoas que vi compartilhando tinham uma clara inclinação pró-governo (o que alguns, novamente, confundem com “de esquerda”) ou muito anti-direita. Em um caos cognitivo, essas opiniões estavam impondo alguma ordem em fatos que pareciam desordenados. Cada vez que eram compartilhadas, ganhavam um pouco mais de legitimidade, pela aprovação dos pares.

Você pode ver as opiniões que linkei e tirar suas conclusões, mas farei um resuminho (com o meu viés). PC Siqueira dizia para o espectador: você, que defende o direito de todos, é do bem. E se há gente do mal fazendo bobagem como rasgar bandeira de partido (ou sair à rua em clima de festa) isso acontece porque a grande mídia, “poderosíssima”, quer. A “grande mídia” é personificada na Globo, obviamente e ela “não está do nosso lado”. Já Paulo Henrique Amorim, como de costume, deixa claro que o que está à sua frente parece não fazer muito sentido, seleciona os fatos a serem destacados na cobertura e trata de criar uma narrativa com frases curtas e impactantes. Conclui: “Não existe passeata de 50 mil pessoas apartidária. Ou não dá em nada, ou derruba o Governo. A Globo vai derrubar !” Pelo pouco que conheço do PC Siqueira, acho que ele pode ter tido apenas um “erro honesto” ao mostrar a visão (comum) estreita sobre preferências políticas[3]. E, cá entre nós, quem nunca jogou o Supertrunfo do debate político nacional que é mostrar a carta É MANIPULAÇÃO DA GLOBO? É um truque automático do brasileiro universalmente reconhecido e aceito, independente da validade, tanto quanto o “vou me atrasar 20 minutinhos que o trânsito tá difícil” é para os paulistanos.

O caso da socióloga é mais bizarro. Ela cita dezenas de fatos que acha “muito estranhos”, alguns resultantes de uma observação muito direcionada da realidade e outros da associação de fatos que não deveriam se associar, um caso clássico de Falácia Narrativa. Exemplo, negritado no texto, de uma situação “muito suspeita” é que “a nova embaixadora dos EUA no Brasil é a mesma embaixadora que estava trabalhando no Paraguai quando deram um golpe de estado em Fernando Lugo”. Significa. Ela conclui ali: “Nem sempre um golpe é um golpe de Estado. Em 1989 vivemos um golpe midiático de opinião pública, por exemplo. Pode ser que estejamos diante de outro. Essa é a impressão que, ligando esses pontos, eu tenho.”

Depois de ler esse texto da socióloga, fiquei mais interessado na questão patológica da Falácia Narrativa. O que faz as pessoas terem uma visão tão selecionada dos fatos e achar que tudo faz sentido, de uma maneira tão descolada da realidade? A gente não sabe exatamente qual o pedaço do cérebro que força essa mania de explicação, mas os estudos mais recentes atribuem ao neurotransmissor dopamina, do nosso sistema de recompensas, uma parcela de culpa. Drogas que estimulam a produção da dopamina (para tratar o Mal de Parkinson, por exemplo), como o Levodopa (ou L-Dopa), diminuem o ceticismo e resultam numa maior vulnerabilidade a golpes e astrologia. Há muitos casos de pessoas que tomam esse medicamento e viram jogadores compulsivos – eles começam a ver padrões em coisas que são aleatórias. Gostaria de ver a neurociência estudando melhor essas pessoas.

Mas o ímpeto de resumir e achar uma razão para tudo não explica suficientemente essa teorização bizarra. A verdade é que não vemos o mundo com os mesmos olhos.

Percepção seletiva

Peça para um torcedor fanático do Corinthians e outro do Palmeiras assistirem a uma partida entre os times. Dê uma ficha para cada e peça para anotarem quando é falta e quando não é e em que situações o juiz errou pra cada lado. A contagem será bastante diferente porque dependendo do seu viés, a realidade percebida é diferente, como mostram os estúdios do “fenômeno da mídia hostil” conduzidos desde os anos 1950 em várias partes do mundo.

Mas, é claro, isso não atinge só torcedores fanáticos. Todos somos torcedores de algumas coisas, mesmo que não gostemos de admitir. A doença de crer no que convém e acomodar os fatos às narrativas favoritas atinge pessoas dos mais elevados QIs e orientações políticas. Veja, por exemplo, Roger Moreira, o “roqueiro do Mensa”, que divulga absurdos como:

Mais de 200 mil pessoas compartilharam essa notícia no Facebook, que continuou se alastrando pelo Twitter. Para quem é bastante de direita, veja só, o problema da mídia é justamente que ela protege o governo, escondendo as suas mazelas. E aí um jornal português teria “descoberto” que Lula foi condenado. O bordão “Isso a TV não mostra” funciona para os dois lados, se você começar a pesquisar.

Roger e muitos antigovernistas patológicos não precisavam checar a informação (ainda que depois alguém tenha dado o toque que a informação não procedia). Na ação em questão, Lula foi réu, mas não foi condenado. Para quem tem certezas, provas são detalhes. Uns reclamam da “manipulação da grande mídia” mas consideram qualquer post no Facebook como prova suficiente.

Quando você tem uma narrativa estabelecida de mundo, você acomoda fatos para darem sentido a ela. Para o sociólogo Emir Sader, por exemplo, uma enorme parte dos conflitos do Brasil são alguma variação da luta de classes. Ler o seu feed do Twitter é fascinante.

Para a teoria de Emir Sader fazer sentido, ele tem que ignorar uma enorme parte do que se viu nas manifestações. Está claro a essa altura que a crise é de representação política e o ódio é direcionado a basicamente todos os partidos. O fato de o PT ser alvo prioritário pode ser explicado de maneira mais satisfatória porque é o partido que está no poder há mais tempo e aparece mais. Mas mesmo o PSTU, que esteve nas manifestações desde o início, foi escurraçado depois que as marchas tomaram proporções maiores. Nenhum partido azul, que eu saiba, apareceu na rua. Eles receberiam os mesmos gritos de “oportunistas” dos outros.

Se você quiser selecionar só alguns cartazes, só alguns vídeos, só alguns trechos da cobertura televisiva, é facílimo criar uma teoria conspiratória. E quando desenvolvemos o filtro-bolha nas redes sociais, seguindo pessoas de ideologias afins e bloqueando quem pensa errado, é fácil não só ver sentido em teorias conspiratórias, mas também uma abundância de provas.

Depois de ver tantos compartilhamentos dessas teorias, resolvi discutir no facebook com uma pessoa que achava o vídeo de PC Siqueira “esclarecedor”. Eu pedi algo bizarro a ela: provas, ou pelo menos fortes indícios, de que a Globo estava manipulando, que a mudança de postura era claramente para usar a massa de manobra para avançar a própria agenda. Eu disse que não deveria ser tão difícil encontrá-las, já que é bem tranquilo achar provas de que a Vênus Platinada foi manipuladora e omissa durante a ditadura, na vergonhosa cobertura das Diretas e nas primeiras eleições pós-redemocratização. Mas onde estavam as pistas de que havia manipulação agora? Aliás, voltamos um passo. Por que a Globo teria interesse em algo como derrubar a Dilma pra começo de conversa, tão antes das eleições? Se há mais de uma década evitar que a esquerda de verdade tomasse o poder tinha amplo apoio do empresariado (que tinha todo tipo de medo), à medida que o PT se enquadrou no discurso liberal esse medo diminuiu consideravelmente. Hoje há uma parte importante do “grande capital” brasileiro que aprecia o atual governo, com seus empréstimos camaradas do BNDES e medidas protecionistas. Se houvesse um vácuo no poder, uma crise institucional mais séria, seria problemático para toda a grande mídia. A Globo vive de anúncios, tem que atingir o maior número de pessoas, e se você analisar a situação dos outros países que sofreram abalos grandes na estrutura política, verá quão animados estão os estrangeiros em investir no país.

Talvez existam bons contra-argumentos de motivos econômicos, mas não recebi como resposta. Pode ser que as que vontades políticas seriam maiores que as possíveis perdas econômicas, que há uma motivação clara. Fiquei circulando pelos canais de notícias 24 horas por dia (além de seguir a cobertura na internet) e tentei ativamente caçar os indícios golpistas, mas no fim não consegui ver o que diabos a Globo estava escondendo, nem como ela estava usando as massas. Ela obviamente não é neutra, ninguém é, mas ela não me parece golpista, como a acusam. Voltei ao debate online e listei os indícios que contavam contra essas teorias e perguntei, honestamente, o que eu não estava vendo. Para quem já entendeu tudo, a pergunta não tem razão de ser. É tudo óbvio.

Eu ofereço as provas da defesa. Se o objetivo fosse derrubar Dilma, por que não focar nas pessoas mais revoltadas, ao invés de quem canta o hino (tomada favorita dos câmeras de todas as TVs)? Por que o Fantástico de domingo deu tão pouco espaço às manifestações e na hora de usar especialistas, preferiu o antropólogo Everardo Rocha e o historiador Francisco Carlos Teixeira, que não são nada de direita? Por que ao falar da repulsa por partidos não focou nos cartazes Fora Dilma (havia vários)? Se a Globo usa as imagens de violência para mostrar descontrole do Governo Federal, por que focar tanto na polícia de São Paulo, do PSDB? É preciso deixar muita coisa de fora para a tese fazer sentido.

O mais bizarro é que quando discuto o assunto, por vezes vejo as pessoas fornecendo provas que na verdade contam contra a teoria conspiratória. Uma delas (citada por PC Siqueira) é que a Globo está pintando um “clima de festa da democracia” ao invés de manifestações. Mas isso não é exatamente mentira. Se as motivações não são festivas, pelo contrário nas marchas essa vibe existe sim. Nas 3 manifestações que fui nesses últimos dias vi muita gente tratando o negócio ora como festa cívica de cânticos da torcida brasileira fora do estádio e ora como grande zoeira, como mostra a competição por cartazes engraçadinhos.

Paulo Henrique Amorim fala que a Globo espetacularizava a violência “de cima”, dos helicópteros, sem ouvir o que o povo gritava. Pergunto quem fazia diferente. Ele trabalha para a Record, que fez a mesma coisa por dias com Marcelo Rezende no Cidade Alerta toda hora gritando “me dá Belo Horizonte”, “agora me dá o Rio”, para mostrar cada vez mais o caos. Será que uma resposta mais simples não seria “caos dá audiência”? Aí alguém fala que a Band tinha uma cobertura muito mais isenta, mostrando não só imagens, mas especialistas comentando. Não seria porque ela teria menos imagens impactantes e helicópteros? E, se a Band é isenta, por que ela deu um programa inteiro a Fernando Henrique Cardoso no domingo? Eu acho que ela é bastante, que fique claro, mas imagina o escândalo que seria se a Globo entrevistasse o ex-presidente? Seria claramente um indício de golpe. Como é a Band, ninguém se importa. E, bem, se a mídia golpista está querendo derrubar Dilma, por que Reinaldo Azevedo, o epítome do pensamento conservador, já escreveu várias vezes que é contra as manifestações? Poderia ir bem mais longe nos contra-exemplos, mas recomendo uma busca pelo Twitter, para achar coisas como essas, provando que a Falácia Narrativa também está do outro lado:

Taleb ensina que a Falácia Narrativa nos impede a aceitação de explicações mais prosaicas quando pensamos em Cisnes Negros. Para nossa consciência, aceitamos que tenhamos errado um dia no trabalho e falamos bobagem, corrigindo a posição em uma reunião seguinte, admitimos que erramos, que fazemos coisa sem uma explicação muito clara (resistindo ao ímpeto de explicar). Mas parece que não admitimos que esses seres amorfos que são “os políticos” ou “a grande mídia” façam algo por acaso ou por erros honestos. Para conspiracionistas, a autocrítica não existe. Mas gente que conhece bem os jornalistas envolvidos nos veículos “de direita” diz que a mudança do tom da cobertura aconteceu porque, bem, ela estava errada no início e os editores chamaram a atenção. Por que essa outra explicação simples não é aceita?

Quando eu fazia esses questionamentos para os meus amigos que compravam essas teorias, recebia uma resposta padrão, arrogante: “Você está sendo muito ingênuo”. E o debate não prosseguia, ou ganhava um rótulo qualquer (“reaça”, “tucano”, etc). É claro: ver a grande realidade escondida, o grande golpe e a manipulação velada te dá uma noção de superioridade sobre as massas manipuladas. Eu tento explicar que não estou pregando uma leitura acrítica da mídia ou dos fatos. Reitero que a mídia erra um bocado, que tem sim suas agendas (a Globo no caso da cobertura do futebol brasileiro, por exemplo) mas não via ali sentido na conspiração. E agora creio que neste mundo cheio de “lixo cognitivo”, tão importante quanto não ser gado da grande mídia é ser cético em relação aos cínicos. Afinal, eles também tem uma agenda, mesmo que de pura vaidade: se mostrar mais espertos. E também escondem fatos para alcançar os objetivos.

Nosso cérebro é um sistema muito imperfeito para entender o mundo, e precisamos contestá-lo o tempo inteiro para ter uma visão mais objetiva da realidade, longe das narrativas fáceis. Há vários truques para evitar a Falácia Narrativa, mas no fim eles se resumem ao método científico: quando você tiver uma hipótese, comece a testar os indícios que a invalidem primeiro. No fim, sempre será uma vitória: se você não achar algo que desprove o que você acredita, terá uma visão no mínimo mais embasada para prosseguir o debate; se achar furos na sua teoria, muda de opinião. E isso deveria ser algo bom.

[Foto: Valter Campanato/Agência Brasil]

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  1. O conceito foi batizado por Taleb mas tem muito a ver com as pesquisas que Daniel Kahneman e Amos Tversky desenvolveram desde os anos 1960 sobre os nossos vieses cognitivos (e renderam um Nobel de Economia em 2002), mostrando como nós buscamos sentido em tudo e temos vários preconceitos e predisposições escondidas. Recomendo fortemente o livro Pensando Rápido e Devagar para você ver mais exemplos interessantes de como o nosso cérebro é uma máquina bastante imperfeita de ver o mundo de uma forma “imparcial”.  ↩

  2. Até a descoberta da Austrália, ninguém tinha avistado um cisne negro. Os ornitologistas da época afirmavam que essas aves eram, por definição, brancas (já que não tinham prova do oposto). Mas logo corrigiram. Taleb usa essa historinha para batizar como “Cisne Negro” qualquer evento que 1) esteja fora das nossas expectativas, 2) tem um impacto forte e 3) apesar de não ser esperado, a natureza humana faz com que criemos explicações para a sua ocorrência depois do fato – o fazendo com que ele tenha a aparência de explicável e previsível. Acho que as centenas de milhares de pessoas no Brasil neste momento específico, de uma vez, configuram um Cisne Negro. Quem previu com 10 dias de antecedência, que fosse, todo esse movimento ou essas bandeiras? Daqui a algumas décadas o momento provavelmente será estudado de maneira simplificada, como fazemos hoje ao falar sobre a Revolta do Vintém.  ↩

  3. Eu tenho várias reservas à cobertura de vários veículos, mas chamar a Folha de direita, como PC fez, é uma bizarrice. Leia, por exemplo, o editorial de sábado sobre transporte coletivo. Ele diz: “A instalação dessa nova infraestrutura terá de ser acompanhada necessariamente de um desestímulo à circulação de automóveis. É impossível, numa megacidade como São Paulo, persistir num sistema de mobilidade urbana com base no transporte individual.” Eu não gosto de simplificar e enquadrar o pensamento em rótulos, mas no dia que isso for “de direita”, olha…  ↩

some random quote lost in here.