12323 A literatura brasileira é preconceituosa ou só muito autobiográfica? - Oene
beta

A literatura brasileira é preconceituosa ou só muito autobiográfica?


A literatura brasileira contemporânea é basicamente escrita por homens, brancos, morando nas cidades, e tem como protagonistas homens, brancos, vivendo nas cidades. O viés autobiográfico dos romances brasileiros parece óbvio, mas não deixa de ser interessante ver o que isso provoca: a pouca representação de minorias e um papel menor para personagens femininos. Ou pelo […]

A literatura brasileira contemporânea é basicamente escrita por homens, brancos, morando nas cidades, e tem como protagonistas homens, brancos, vivendo nas cidades. O viés autobiográfico dos romances brasileiros parece óbvio, mas não deixa de ser interessante ver o que isso provoca: a pouca representação de minorias e um papel menor para personagens femininos.

Ou pelo menos é isso que encontrou a pesquisadora Regina Dalcastagnè1, da minha querida Universidade de Brasília, depois de pesquisar 258 romances de autores brasileiros publicados entre 1990 e 2004, das três maiores editoras. Talvez a situação tenha mudado um bocadinho nos últimos 9 anos, mas as proporções, lindamente infografadas pelo pessoal da Box 1824, parecem bem próximas da realidade que folheei na última década. Antes que a pesquisa possa ser sequestrada pelos baluartes do politicamente correto, Regina contextualiza:

Antes de apresentar os dados, é importante ressaltar que os impasses da representação literária de grupos marginalizados apresentados aqui não insinuam, absolutamente, qualquer restrição do tipo quem pode falar sobre quem, nem buscam estabelecer que um determinado recorte temático é mais “correto” do que outro. Não se está aqui exigindo uma cópia fiel da realidade brasileira, com escritores consultando os dados do IBGE para escrever seus livros. Esta pesquisa não tem o objetivo de policiar a atividade dos autores brasileiros. Não estamos julgando autores individualmente, mas indagando um conjunto de obras. Queremos apenas mostrar e entender o que o romance brasileiro recente – aquele que passa pelo filtro das grandes editoras, atinge um público mais amplo e influencia novas gerações de escritores – está escolhendo como foco de seu interesse, o que está deixando de fora e como está representando determinados grupos sociais.

A ausência de uma maior diversidade no conjunto de romances é, segundo tentamos demonstrar, empobrecedora. Mas isto não quer dizer que, dentro do corpus da pesquisa, não existam obras que sejam lidas com prazer, que façam refletir, que ajudem seus leitores e leitoras a compreender melhor o mundo. É possível que muitos destes livros sejam “grande literatura”, seja lá o que isso queira dizer. Nada disso elimina o fato de que o conjunto possui um foco limitado. Enfim, é necessário entender que se buscou um diagnóstico sobre o campo literário brasileiro atual, sem que nele esteja presente, nem mesmo de forma implícita, a intenção de condenar qualquer obra singular.

O infográfico me fez pensar no cinema brasileiro, que se olharmos para alguns dos grandes sucessos de crítica, parece sofrer de uma síndrome oposta: a de tentar demais sair dos temas familiares aos cineastas. Nadar contra essa suposta corrente seria um dos motivos para o relativo sucesso de O Som ao Redor. Na Ilustríssima da Folha ontem há uma bela reportagem sobre Kléber Mendonça Filho, o pernambucano autor do filme que discutimos no Quem te Comentou Isto #6. Lá, Cacá Diegues opina: “Não sou contra filme de favela ou do sertão, mas a novidade de ‘O Som ao Redor’ é o fato de ter seccionado com tamanha precisão um pedaço da sociedade brasileira pelo qual o cinema em geral não se interessa: a classe média de condomínio”.

Mas será novidade mesmo? Talvez seja um viés nosso, pelo que assistimos com mais frequência e o que ganha prêmios em festivais. Porque esta belíssima pesquisa feita por Paula Diniz Lins, também da UnB, e orientada por, veja só, Regina Dalcastagnè, mostra que a sub-representação de pobres e mulheres entre os protagonistas do cinema brasileiro contemporâneo é similar à vista na literatura.

Dos 211 filmes analisados (entre 1995 e 2006), apenas 92 apresentam personagens pobres no seu enredo e dos 841 personagens considerados relevantes para a narrativa, apenas 229 são pobres. (…) Os personagens pobres são, na sua maioria, brancos, mas se analisarmos a totalidade dos personagens negros, apenas 81 do total de 841, veremos a esmagadora maioria dos personagens negros é pobre – mais de 65%.

O que esse monte de dado significa? Os pesquisadores notam que os artistas do cinema e literatura ficam mais confortáveis para falar sobre o que é conhecido e que há uma influência do mercado, já que o consumidor dessas obras quer ver algo igualmente familiar. Mas há mais. Diz Dalcastagnè:

Falta ambição à nossa literatura. Falta ambição na acomodação com a temática modesta, com o insulamento no mundo doméstico das classes médias brancas, com o apego referencial à realidade mais imediata. Mas falta ambição também no evidente exercício da escrita sem riscos. Com seus recortes miúdos e autocentrados, nossos romances mal espiam para o lado de fora, se recusando a uma interpretação mais ampla dos fenômenos que nos cercam, como a violência urbana, a exclusão social ou a inserção periférica na globalização capitalista, por exemplo.E então, lá vamos nós para mais um texto que balança a cabeça e descreve seqüestros e assassinatos “no meio da rua” e “em plena luz do dia”… A falta de ambição é sinalizada justamente pela ausência de crítica e de autocrítica, pela ausência de reflexão e pelo medo do risco. Mais uma vez, não se trata de condenar o recorte temático de alguma obra específica, mas de indicar, como sintomático, que (quase) todas optem por um reduzido elenco de recortes.

[Não deixe de ver o infográfico no Ponto Eletrônico]


  1. Regina Dalcastagnè está há mais de uma década debruçada sobre o tema. Os (muito bons) artigos que deram base ao infográfico, e de onde tirei a citação, podem ser encontrados aqui, aqui e aqui

some random quote lost in here.