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CEO do Yahoo! proíbe home office e acende um debate: qual é o lugar ideal para trabalhar?


As orelhas da CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, ficarão quentes durante um bom tempo. Na semana passada, ficamos sabendo por causa de um comunicado interno que vazou para a imprensa que seus 14.500 empregados terão de deixar o modo de trabalho em home office para bater cartão diariamente nos prédios da empresa a partir de […]

As orelhas da CEO do Yahoo!, Marissa Mayer, ficarão quentes durante um bom tempo. Na semana passada, ficamos sabendo por causa de um comunicado interno que vazou para a imprensa que seus 14.500 empregados terão de deixar o modo de trabalho em home office para bater cartão diariamente nos prédios da empresa a partir de junho deste ano — inclusive os brasileiros, o que gerou uma onda de críticas. Blogs e as pessoas nas redes sociais bradam coisas na linha de Mas como essa mulher vai de encontro a toda a maturidade de pensamento com relação ao trabalho em casa?!?! Já é comprovado que o home office aumenta a qualidade de produção e de vida!!!. Realmente, dona Marissa — ultimamente a coisa mais cool que uma empresa pode fazer é liberar o home office para os funcionários. Por outro lado, em meio à gritaria surgiram observações que apontam para discussão ainda maior e rica: a adequação do trabalho às necessidades de cada indivíduo, a vida nas grandes cidades versus o trabalho e a maneira como os empregadores avaliam a produção dos seus empregados.

Antes de mais nada, é importante contextualizar a situação atual do Yahoo!: a ex-Googler Marissa Mayer, 37 anos, é a quinta CEO em 4 anos, e um dos maiores desafios que se colocaram à frente dela quando assumiu no fim do ano passado foi diminuir os gastos da empresa, que cresceram muito na última década e meia. Uma das teorias mais aceitas – e obviamente não confirmada pela empresa – é que forçar o retorno ao escritório pode gerar uma onda de demissões voluntárias (e necessárias para o corte de gastos), já que nem todos podem desejar deixar o home office, como aponta a Exame. O Comunicado que circulou pela internet é assinado pela chefe de Recursos Humanos, Jackie Reses (uma contratação de Marissa), e revelou posições da gerência do Yahoo! consideradas conservadoras pelo mercado de trabalho. A intenção seria, para a empresa, aumentar a colaboração e a produtividade. Diz um dos trechos do comunicado:

Algumas das melhores decisões e ideias vêm de discussões no corredor e na cafeteria, vem de conhecer novas pessoas e das reuniões improvisadas. Velocidade e qualidade são muitas vezes sacrificadas quando se trabalha de casa. Nós precisamos ser um só Yahoo!, e isso começa por estarmos fisicamente juntos.

A questão da “velocidade e qualidade” é uma das afirmações mais contestadas em sites do mundo inteiro. Farhad Manjoo, do Slate, diz que isso não só faz prevalecer o arcaico pensamento “se fulano está na empresa, então está trabalhando”, como é uma falácia que entrega a dificuldade do gestor de mensurar a qualidade do trabalho dos seus funcionários:

“Permitir que os empregados trabalhem de qualquer lugar pressiona os gestores a procurarem formas mais importantes de medir produtividade. Assim como David Fullerton, o vice-presidente de engenharia na web da Stack Exchange, explica em um recente post no seu blog louvando as virtudes do trabalho remoto, “como um chefe, eu não consigo saber facilmente quantas horas cada pessoa em minha equipe está trabalhando. Isto é realmente bom para mim porque me força a observar o que eles estão fazendo”.

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A Forbes, também indignada com a decisão de Marissa Mayer — Peter Cohan diz que a decisão da CEO “é um epic fail” –, listou ainda quatro graves problemas que podem aparecer com a grande massa de empregados retornando para o escritório: mais trabalhadores medíocres (apenas os que não conseguirem vagas em outras empresas que aceitam home office, algo comum no Vale do Silício, irão continuar no Yahoo!); mais estresse e menos produtividade entre os empregados, já que eles terão que se dirigir até o escritório; aumento de custos para a empresa e maior tráfego e poluição para as cidades. A Forbes ainda manda uma dica para Marissa: o Yahoo! pode mudar de ideia apenas com um comunicado de mea culpa e pronto.

Porém, nada é simples assim. Depois da gritaria indignada no início, apareceu quem aprovasse a escolha de Marissa, defendendo que as coisas são diferentes quando se trata de uma grande empresa. É o que pensa o blogueiro John Gruber:

Eu tenho trabalhado remotamente. Eu conheço algumas muitas companhias de sucesso que na maioria das vezes os trabalhadores trabalham remotamente. Se você está dando início a uma nova companhia hoje, e se for uma equipe pequena, tudo remoto. Mas que o que funciona trabalho para equipes não necessariamente funciona para grandes companhias. Talvez a política de mudança de Mayer talvez não ajudará o Yahoo, mas o que Branson diz [sobre o trabalho remoto trazer excelência] está claramente errado: os funcionários do Yahoo têm recebido a opção de trabalhar em casa, e eles não chegaram ao sucesso.

Outros dizem que trabalhar em casa é que é uma cilada, como Ken Layne, do Awl:

Você realmente quer trabalhar ali, com todas aquelas louças na pia da cozinha e pelo de cachorro no sofá e outros afazeres domésticos não concluídos chamando pelo seu nome, enquanto você está tentando fazer uma piada sobre algo que apareceu no New York Times e com o qual ninguém se importa? (…) Eis o que você deveria fazer: você deveria morar perto do seu local de trabalho, perto da escola das crianças, perto de Todas As Coisas e assim deveria ir para o trabalho. Precisa levar seu cachorrinho ao veterinário? Você consegue!

Ken diz isso porque acredita que “conversas por chat nunca serão comparáveis a estar disponível a conversar com qualquer um pessoalmente”. “Não há nada igual a estar no mesmo prédio com outras pessoas, deixando-as conhecerem quem você é, observando-as, sempre”.

E eu aqui concordo com isso. Por muitas vezes, os comentários feitos “ao vivo” são muito mais eficientes e levam a reflexões maiores e mais rápidas do que uma conversa de gtalk. Aliás, quem tem saco para ter longas discussões por messengers o tempo todo? E ainda, durante a semana inteira? Melhor não. Além do mais, tem ainda o fator passar-mais-tempo-na-internet-do-que-deveria. Trabalhar em casa pode levar o sujeito a se prender ainda mais à internet, dependendo do tipo de função exercida.

Por outro lado, eu gosto da liberdade que atualmente tenho de poder escolher entre o trabalho na redação ou em casa. Isso faz com que eu dê valor aos dias em que posso escrever e parar para fazer meu próprio almoço ou pagar contas com mais calma e, da mesma forma, aproveitar bem os dias em que estou presente na redação para debater as pautas com meus colegas. As pessoas têm necessidades diferentes umas das outras — quem tem filho e quem não tem, por exemplo — e uma mesma pessoa pode precisar de contextos diferentes para trabalhar.

Com isso, mais uma vez aprendemos que nada precisa ser tão radical assim — nem abandonar os escritórios, nem instituir o home office como modo absoluto de trabalho. A grande coisa do nosso tempo pode ser a flexibilidade da relação empresa-empregado baseada nas necessidades de cada um, já que a grande questão ainda é a qualidade — de produção e de vida. Pode ser que essa situação do Yahoo! seja transitória, até a empresa entrar nos eixos, mas é interessante observar os resultados que Marissa conseguirá. Farhad conclui esta polêmica com esperança:

A maioria das tecnologias de trabalho remoto estão caminhando para se tornarem melhores nos próximos anos. Eu acredito que daqui a algum tempo, a distinção entre trabalhar no escritório e trabalhar em casa irá sumir. Nós estaremos aptos a trabalhar de qualquer lugar, a qualquer hora e nosso trabalho será avaliado pelo o que nós produzimos, não tanto pelo tempo em que passamos fazendo isto.

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