12323 David Foster Wallace, em versão curta-metragem - Oene
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David Foster Wallace, em versão curta-metragem


"Isso é Água", um discurso inspirador, ganhou um vídeo para ser visto e revisto.

David Foster Wallace1 deu um dos mais célebres discursos de formatura da história em 2005, para os alunos da Kenyon College. Sempre, sempre haverá motivos para visitá-lo novamente e lembrar que efetivamente é possível ver o mundo com outros olhos. A minha desculpa para trazê-lo de volta é que o discurso foi editado e “animado” pelas pessoas da Glossary, uma sensacional produtora de curtas cheios de palavras. Pare tudo por 9 minutos, eu prometo que vai valer a pena:


A revista Piauí traduziu o discurso. Leia lá na íntegra. Fique com um trecho:

É num momento corriqueiro e desprezível como esse [Engarrafamentos, compras] que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

David_Foster_Wallace

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

 


  1. Volta e meia aparece algum novo leitor do Oene que estranha as notas de rodapé. Explico, sempre, que a minha inspiração em fazer notas de rodapé que (tentam) não atrapalhar o fluxo do texto e podem ser lidas à parte, depois do fim, é o próprio David Foster Wallace. Se você não conhece o meu herói pessoal, que se suicidou em 2008, aos 46 anos, sempre há tempo. A sua obra-prima, “Infinite Jest”, está finalmente sendo traduzida em todas as suas mais de mil páginas com total esmero por Caetano Galindo – você pode acompanhar a evolução do trabalho dele neste blog. Se você quiser começar a ler algo não menos inteligente mas leve, sugiro Ficando Longe do Fato de já estar tudo longe, uma coletânea de artigos publicada no Brasil recentemente. A Revista Piauí já traduziu alguns dos seus textos, e esta versão em PT-BR do discurso foi tirada de lá

 

some random quote lost in here.