12323 De prisões utópicas - Oene
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De prisões utópicas


Nessa edição da newsletter, questionamos os custos do ensino superior, o machismo na publicidade brasileira, o modelo de hidrelétricas e todo o conceito de penitenciária. Tudo isso e muito mais em links selecionados.

Olá, amigos, tudo bem? Pedro aqui, trazendo mais uma newsletter para o conforto da sua inbox. Como é de praxe, as recomendações e textinhos são também de Camilla Costa (CC) e Leandro Beguoci (LB). E, sempre bom lembrar, dicas diárias de leitura também podem ser encontradas na nossa página do Facebook. As conversas mais longas estão no cada vez mais popular podcast (obrigado, audiência!), agora no iTunes. Siga a gente aí e vamos que vamos.

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O lado que a corda arrebentou — É muito importante a discussão sobre os altos escalões do Petrolão, mas esquecemos com frequência que a corda arrebenta do lado do mais fraco. As matérias sobre os funcionários da Petrobras e suas subsidiárias, que já perderam os empregos ou tem salários atrasados, e os comerciantes das cidades pequenas que apostaram tudo na indústria do petróleo — costumam passar despercebidas em meio à delação premiada da semana.

A BBC Brasil foi em Itaboraí (RJ) há um tempinho e contou algumas dessas histórias. O Guardian também falou sobre a mesma cidade recentemente, e foi além, contrastando a vida atual desses funcionários com os relatos do luxo absoluto em que viviam alguns dos envolvidos e delatores do esquema. E coloca a pergunta de um milhão de dólares: o que fazer com essas pessoas? E o que fazer com essa indústria que está sendo justamente devassada, mas que movimenta partes inteiras do país? Uma ex-funcionária da Petrobras resume:

“Estamos em uma situação estranha, em que queremos que as coisas sejam resolvidas, mas ao mesmo tempo precisamos de empregos, então meio que queríamos que tudo tivesse continuado como estava”.

No Estadão, o ex-juiz Jorge Hage, que comandou a Controladoria Geral da União, diz que salvar as empresas participantes do esquema de corrupção — mesmo punindo os responsáveis — é uma preocupação legítima, mas que ele acha que a espada da lei deve cair geral. Só acredito vendo, mas, ao mesmo tempo, isso significaria um problema ainda maior para todas as pessoas envolvidas nessa cadeia de produção. (CC)

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A democracia REAL é o problema de House of Cards (e do mundo) – Discutimos recentemente, no nosso podcast, a questão do engajamento político. Uma das coisas que falamos é de como as pessoas não estão muito satisfeitas, no fundo, com a maneira que a democracia tem funcionado pra gente. É um assunto recorrente, que lembra o ensaio da Economist já recomendado aqui.

A ideia dO Norte é justamente olhar o Brasil de fora, comparando a nossa experiência com a de outros países. E foi especialmente interessante ler este artigo de Matthew Iglesias na Vox, que diz que o problema dos Estados Unidos é no fim das contas inerente a qualquer regime presidencialista. A lógica de Iglesias é a seguinte: se as eleições de deputados e presidente são completamente independentes, mas um depende do outro para decisões básicas, o congresso em algum momento ser rebelará, e o executivo precisará passar por cima para governar — ou ficar refém dos parlamentares.

Soa familiar? Pois bem. Na última semana eu finalmente comecei a ver a última temporada de House of Cards. E é interessante o paralelo com a vida presidencial no Brasil atual (calma). A Esquire tem uma engraçada crítica, com alguns spoilers. Ela diz que o problema do programa:

Ironicamente, é o otimismo da série que a faz ser totalmente ridícula. Em um dado momento, [o presidente] Underwood faz um discurso inflamado com o seu ministério, dizendo que eles não devem pensar em barganhas com o congresso. “Eu não quero uma versão. Eu quero uma visão”, ele diz. Quem imagina que um presidente em 2015 diria algo tão infantil?

(PB)

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Precisamos falar sobre o machismo na publicidade brasileira — Recentemente, uma série de campanhas publicitárias têm enfrentado o backlash dos consumidores (mulheres principalmente e, ocasionalmente, homens) por serem consideradas machistas. Vamos desde a famigerada campanha da Skol no Carnaval até a campanha equivocadíssima da Always sobre “vazamentos” e a marca de esmaltes Risqué segurar o forninho no Twitter.

Quem começa a ver tudo isso (e não perde tempo achando que “é só coisa de gente chata”), pensa: Como tantas campanhas equivocadas passaram pelo crivo de uma cadeia de profissionais? Uma especialista ouvida pelo El País Brasil levanta uma bola sobre o que pode estar por trás do problema: “Acho que os publicitários estão tremendamente preguiçosos e vão em coisas mais fáceis e batidas. As mulheres estão cansadas de serem tratadas dessa forma.”

E a Agência Pública se debruçou sobre um problema muito pouco discutido, e muito real: o machismo nas agências de publicidade é sério e abrangente. E, obviamente, afeta primeiro as mulheres que trabalham lá.

“Quando a gente olha para a representatividade feminina na publicidade percebe que é praticamente 50%. Mas a distribuição dentro dos departamentos é muito diferente. Entende-se que a criação é um reduto masculino e que a mulher é mais adequada para o departamento de atendimento. E na maioria das vezes as mulheres do atendimento precisam ser bonitas para seduzir os clientes.”

(CC)

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Como a Finlândia que revolucionar (de novo) a educação — Circulou bastante pelas redes textos dizendo que a Finlândia seria o primeiro país a abolir disciplinas em sala de aula. Bem, não era exatamente isso: na verdade o país nórdico dará mais ênfase nos temas multidisciplinares e aulas colaborativas, em vez na mera transmissão de conhecimento em caixinhas. Mas há mais mudanças, que começam a ser implementadas em 2016. O pessoal do Instituto Porvir investigou melhor e conversou com o secretário de educação da capital Helsinque. Ele diz, por exemplo:

Na Finlândia não fazemos ranking de escolas. Em vez resultados individuais, pensamos no processo de aprendizagem. Uma das principais maneiras de se fazer isso é tornar o processo de aprendizagem mais perceptível, orientar estudantes e dizer a eles quais em que estão bem, quais são suas dificuldades e como podem resolvê-las. Enfatizamos o processo, não o resultado em si. Esse é nosso principal conceito de avaliação.

(LB)

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Segurança levanta para preso cortar — Olhe para esta foto. É exatamente isso que descrevo: na prisão de segurança máxima de Halden, na Noruega, uma carcereira (metade dos 340 funcionários é mulher) se diverte com alguém que pode ter cometido homicídio ou estupro. Mais tarde os dois poderiam estar tomando o chá da tarde juntos. Ou comendo alguma coisa produzida na cozinha com talheres de verdade, comandada pelos presos, sem supervisão.

Tudo está na espetacular reportagem de Jessica Benko para o New York Times, sobre a “radical humanização da prisão de Halden.” O lugar foi tachado de “luxuoso” pela imprensa internacional, que sempre achou absurdo o gasto (mais de 300 mil reais por preso por ano — no Brasil é R$ 21,6 mil em média). E realmente o texto traz dezenas de surpresas com o nível das “regalias” e níveis de liberdade dos presos. Mas depois de lê-las todas, as coisas começam a fazer sentido. Porque a sociedade norueguesa opera com uma lógica diferente.

Você estaria perdoado se duvidasse que Halden é de fato uma prisão. Ela é, é claro, mas também é algo mais: a expressão física de uma filosofia nacional sobre os méritos relativos de punição e perdão.

Noruega e Finlândia são sociedades diferentes, ok. Podemos colocar todos os asteriscos possíveis. Mas é sempre bom saber que existe uma realidade paralela possível. (PB)

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A gente sabe que o mundo pode ser melhor porque existe gente boa — Continuando na vibe otimista, me impressionei em ler o relato de Roberto Wright Reis, brasileiro que chefiava uma missão do Médicos sem Fronteiras em Sierra Leoa durante a epidemia de Ebola. Mariana Della Barba contou a história na BBC Brasil de quando, por exemplo, Reis lembrou de uma grávida que perdeu o bebê aos 7 meses de gestação.

“O dilema era que mesmo quando ela se curou, ela não podia sair do hospital porque o bebê que estava em sua barriga estava contaminado. Tanto o feto como o cordão umbilical carregam uma alta carga viral. E não era possível fazer uma cesárea. Então, ela precisava ficar lá até expelir o feto.”

Mas em vez de se deprimir com a situação, Reis conta que essa mulher teve forças para cuidar das crianças internadas. “É complicado cuidar de bebês com aquela roupa. Mas ela não precisava de nada disso porque, por ter sido curada, tinha imunidade.” “E então, ela dedicou seu tempo a nos ajudar. Carregava os bebês. Ajudava a cuidar deles – e fazia tudo isso sorrindo. Tinha um menino de um ano e meio que ela acabou ficando mais próxima. Passava muito tempo dando água de coco para ele – ele adorava”, conta. (PB)

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A encruzilhada das hidrelétricas — A Costa Rica chamou a atenção do mundo por estar há 75 dias sem usar nenhum tipo de combustível fóssil para gerar energia. Eles conseguiram o feito principalmente porque as chuvas ajudaram, e muito, a alimentar o sistema de hidrelétricas do país. Mas se tem uma coisa que nós, brasileiros, estamos aprendendo é o problema de apostar demais em hidrelétricas em meio à mudança climática. Sobre isso fala este outro texto da Foreign Policy. Como abandonar os combustíveis fósseis nesse cenário? É a pergunta que está gritando na nossa frente e que, por algum motivo, os governos ainda não parecem estar se fazendo com força.

O exemplo talvez venha da Califórnia, que nos quatro anos de seca aprendeu a apostar pesadamente nas energias renováveis e reduzir pela metade a geração por hidrelétricas. Os painéis solares no estado americano já geram mais de 10 GWh, quase o mesmo que a capacidade máxima estimada de Belo Monte. (CC)

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Falando em progresso, hidrelétrica e cidades pequenas – Tenho a impressão de que a nossa discussão sobre os grandes projetos de infraestrutura energética e de escoamento do governo na região Norte sempre acontecem de forma muito superficial e distante da realidade daquela parte do Brasil. Eventualmente, Eliane Brum ou outro jornalista traz a real sobre as violações de direitos ocorrendo com populações indígenas e ribeirinhas, mas isso é, francamente, algo para o qual nós sudestinos, sulistas, nordestinos e “centro-oestinos” não ligamos muito.

E certamente não falamos NADINHA sobre o impacto que essas obras terão nas cidades próximas a elas, nem sabemos como é que ele já está sendo (ou não sendo, no caso) amortecido. A Pública marcou mais essa com uma reportagem importantíssima sobre o caso de Itaituba, no Pará, um município de 62 mil km² que é o ponto de convergência de diversas dessas obras. (CC)

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Os efeitos da privatização do ensino superior — Quando entrei na universidade, em 1999, o grande temor era sobre uma possível privatização das federais e estaduais. Isso nunca aconteceu na prática, mas sim outro fenômeno, mais sutil: o governo deixou cada vez mais para a iniciativa privada cuidar do ensino superior, e propôs a pagar uma parte importante da conta, com programas como o Prouni e o FIES. Só que agora, com as restrições orçamentárias do governo, o FIES está ameaçado. Essa bola já era cantada, porque há um problema na raiz do programa, como avaliou Elio Gaspari na Folha, em fevereiro.

Aquilo que poderia ser uma boa iniciativa virou uma estatização do risco do financiamento das universidades privadas. Esse tipo de crédito é socialmente necessário, desde que seja matematicamente sustentável. Faculdades estimularam seus alunos a migrar para o Fies e, com isso, o número de bolsistas passou de 150 mil em 2010 para 4,4 milhões em 2014. Os financiamentos pularam de R$ 1,1 bilhão para R$ 13,4 bilhões. Há faculdades onde os alunos que pagam as mensalidades tornaram-se uma raridade. Formaram-se conglomerados universitários, com ações na Bolsa. O repórter José Roberto Toledo mostrou que, entre 2012 e novembro de 2014, enquanto o Ibovespa caiu 18%, as ações do grupo Kroton, com um milhão da alunos, valorizaram-se em 500%. (Em 2014 o grupo recebeu R$ 2 bilhões do Fies, cifra inédita até para a Odebrecht.)

Isso foi em fevereiro quando, justiça seja feita, Cid Gomes quis por ordem na casa. Não deu certo. E não está dando: as ações do grupo Kroton e Estácio, dois dos principais beneficiados com o FIES, caíram em um terço do valor só este ano. E o governo tem uma montanha de dívida estudantil em condições especialíssimas que não sabe exatamente como e quando vai receber. O problema mais profundo que o Brasil enfrenta agora é que o mercado exige muito mais ensino superior do que a sociedade — especialmente o governo — está disposta a (ou pode) pagar.

E esse problema não é particular ao Brasil. A Economist trouxe na edição da última semana várias reportagens sobre a expansão do ensino superior no mundo, quanto que ele custa e quanto ele tem valido a pena. O problema, na avaliação do semanário inglês, é que muitos países têm sofrido com a “doença de Baumol” — com a população envelhecendo, a saúde pública tem um peso cada vez maior no orçamento, e a educação superior sofre cortes. O resultado tem sido implementar taxas onde antes havia gratuidade ou depender do setor privado e filantropia. O problema dessa ideia? Desigualdade.

Enquanto as melhores universidades vão crescendo, as piores vão sentir a pressão. Mais dependência da filantropia significará que as universidades ricas, que tendem a produzir ex-alunos mais ricos, ficarão ainda mais ricas. Uma maior independência do governo tende a fazer o sistema de ensino superior mais estratificado, ou seja, mais americano — justamente quando os próprios Estados Unidos estão cada vez mais preocupados com o seu próprio sistema.

Falaremos mais sobre educação, e as diferenças do Brasil e EUA, em um próximo podcast. Fiquem ligados. (PB)

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Ufa. É isso por hoje, em duas semanas tem mais. Se você gostou, mande este link para outras pessoas que podem se interessar em receber a newsletter. Como sempre, dúvidas, críticas e sugestões, mande e-mail. =)

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