beta

Em busca do sistema de comentários perfeito


Um dos posts mais lidos e discutidos neste primeiro mês de Oene foi aquele no qual explico Por que não temos um sistema de comentários. Ironicamente, ele provou um dos principais pontos do argumento: que um post interessante vai sim iniciar uma conversa, mas ela não precisa estar logo abaixo do post. A discussão dos comentários […]

Um dos posts mais lidos e discutidos neste primeiro mês de Oene foi aquele no qual explico Por que não temos um sistema de comentários. Ironicamente, ele provou um dos principais pontos do argumento: que um post interessante vai sim iniciar uma conversa, mas ela não precisa estar logo abaixo do post. A discussão dos comentários reverberou em outros blogs, Twitter, Facebook e em bate-papos ao vivo. A questão está longe de se esgotar, e vale voltar ao assunto para deixar duas coisas claras: comentários são um avanço da internet e não devem ser desprezados; e ainda não achamos uma maneira ideal de lidar com eles. Vamos falar de algumas das melhores soluções.

Antes de examinar como a internet está tentando melhorar o nível das discussões através dos comentários, vamos tirar duas coisas da frente. A primeira é que, admitamos, só existe “discussão” sobre comentários porque há coisas como “comentários negativos”, críticas ou trollagem. Se todo mundo só usasse a caixa de comentários para elogiar o trabalho da pessoa que criou o conteúdo, creio que A) nenhum dono de site pensaria em tirar ou mudar a caixa de comentários e B) ela não acrescentaria qualquer coisa à discussão ou à melhora do trabalho do autor. AJFreire, vulgo NerdPai escreveu esses dias no Observatório dos Blogs (um site novo que tem algumas críticas bem interessantes à blogosfera) que os comentários são da própria natureza do meio e precisam ser preservados. A opinião é sobre blogs mas vale para qualquer página onde os autores não ignoram o que está escrito embaixo de um artigo (por essa lógica, sim, não há sentido em comentários de qualquer portal):

O blog tem em sua essência os comentários. Eu entro em um blog, leio e debato, nos comentários, com o autor do blog e com os outros leitores, um determinado post. O blogueiro é o mediador desse papo e deve saber levar a conversa com tranquilidade e, o mais importante, aprender com ela.

Difícil de discordar apesar de reconhecer que, como qualquer pessoa que já administrou um blog, o levar a conversa com tranquilidade é bem mais fácil no papel que na prática. Mas é preciso discernir o tipo de crítica, o que ela diz sobre o seu trabalho e o que ela diz sobre quem critica. Sobre isso, deixo aqui este maravilhoso vídeo da artista Vi Hart:

A segunda coisa importante, relacionada, é um esclarecimento: o maior motivo de o Oene não ter comentários é que ainda não encontramos o modelo ideal para conversar. Isso não quer dizer que achamos que nossa opinião sobre os assuntos é superior ou definitiva. Longe disso. Queríamos há muito experimentar o sistema de “posts como início de conversa” para que as pessoas possam continuar a discussão alhures (e parece que está dando certo!), mas há uma enorme chance de oferecermos os comentários também mais para frente. A opção do Oene não significa que os outros blogs da casa, como os irmãos mais próximos Kotaku, Gizmodo e Jalopnik, deixarão de ter comentários. Pelo contrário. Este post aqui é fruto das conversas que temos internamente – estamos estudando as principais soluções e em breve implementaremos nos sites da casa. Vejamos o que os sites – e não apenas pequenos blogs – estão fazendo por aí para aumentar o nível da conversa, em nenhuma ordem específica:

Pague para comentar

Comentários de baixa qualidade ou ofensivos demais não são ruins apenas por abalar o ego dos autores ou dificultar as vendas do departamento comercial – eles podem ser também um problema jurídico. Como no Brasil ainda há muita confusão sobre a responsabilidade do que é falado nos comentários (coisa que o Marco Civil teoricamente resolveria), donos de sites são comumente processados pelo que os visitantes escrevem abaixo das reportagens. Para resolver o problema, a Folha de S. Paulo, com seus 5 mil comentários diários, diminuiu os espaços onde era possível comentar e tratou o “direito à opinião” como um privilégio a mais dos pagantes, que podem ver quantas páginas quiserem todo mês. A mudança na política de comentários foi anunciada há um mês, dessa forma:

O novo sistema valoriza os assinantes do jornal, que poderão fazer comentários sobre todos os temas. Os demais internautas terão acesso liberado para escrever suas opiniões em 20 textos a cada dia. (…) Apesar de todos os filtros que foram instalados no site nos últimos anos, o jornal tem sido seguidamente questionado por membros do Ministério Público Federal e do Estadual por causa de comentários publicados em sua página na internet.

duty_callsA Folha segue o exemplo do NY Times, que também tem mão pesada na moderação. É difícil saber quem inventou o “pague para comentar”, mas um dos primeiros registros que achei foi o Sun Chronicle, um jornal da região de Boston, nos EUA, que passou a exigir em 2010 a cobrança de 1 dólar para comentar o resto da vida. O valor era simbólico, o real objetivo era ter as identidades e endereços dos comentaristas (já que o pagamento seria por cartão de crédito). Os trolls praticamente sumiram, assim como no NYT.

Pagar para comentar não é exclusividade dos grandes. O Metafilter1, um site tão horroroso quanto interessante, trata comentaristas e administradores de maneira razoavelmente equânime, e tem uma taxa de US$ 5 dólares (paga uma vez) para quem quiser postar links e criar discussões. O guia para os comentários é brilhante, e pede para os comentaristas reservarem opiniões sobre a qualidade do post ou uma crítica específica ao autor para outra área, longe do tópico. O objetivo de escrever embaixo de um post é discutir ideias:

Lembre-se de se manter no tópico em discussão e as ideias levantadas pelo post, não na pessoa que o fez ou nos outros que comentaram sobre.

Diminuir o estresse dos administradores, espantar trolls e criar um banco de dados é algo que parece bom, mas convenhamos que a barganha não é muito favorável aos leitores em sites que não sejam jornais com Paywall. Por isso alguns sites oferecem outras vantagens para os comentaristas. O Venus Patrol, site sobre videogames criado a partir de 100 mil dólares levantados no Kickstarter, também restringe os comentários a quem paga US$ 3 por mês. Mas além de poder escrever abaixo dos posts, os assinantes levam uma séries de benefícios, de jogos gratuitos a ilustrações de artistas de games. Parece o caminho ideal: se for para pagar para comentar, é bom que o leitor seja parte de um clube de vantagens.

Plug-in De Comentários

É a atual solução de qualquer blog grande o suficiente para não usar os sistemas mais básicos do WordPress, bastante suscetíveis a spams. Usamos aqui na maior parte dos blogs da F451 o IntenseDebate, que traz muitas vantagens: é visualmente interessante, gratuito, garante boas ferramentas de moderação, um filtro anti-spam decente, integração com redes sociais, a possibilidade de agrupar todos os comentários de um usuário em um só lugar e a opção de “curtir” (algo que pode ou não ser bom2). Basta adicionar no código da sua página e, pronto, temos um sistema de comentários que certamente é melhor que os encontrados na maioria dos grandes portais brasileiros.

comments

Isso não quer dizer que ele seja um sistema perfeito. O primeiro problema de terceirizar a plataforma de comentários é a dificuldade de criar uma comunidade de fato, com direito a páginas de comentaristas e tudo, já que os dados dos usuários ficam fora do site. O segundo e maior é a falta geral de controle sobre o desenvolvimento da caixa de comentários. Das cores à fonte, a ferramenta terceirizada tem pouca integração com o layout do site, para começar. E se o volume for muito alto, isso pode pesar bastante no arquivo e carregamento da página, sem que tenhamos poder para mexer no código. E quando deixamos na mão de terceiros, especialmente se for uma solução gratuita, podemos ficar para trás em termos de funcionalidades. É o dilema hoje do IntenseDebate, que não está mais na ponta. Tanto Disqus quando o Livefyre trazem algumas boas sacadas e estão sendo os preferidos hoje, mas isso pode mudar a qualquer momento – e é possível que na migração de um sistema para o outro todos os comentários anteriores se percam. Outra omissão nessas plataformas é a ausência de maneiras melhores de destacar os bons comentaristas e dar mais espaço para que eles produzam conteúdo.

Comentários por Facebook

Nos últimos dois anos muitos sites adotaram os comentários pelo Facebook, por motivos razoavelmente óbvios: a integração com a rede social aumentaria a audiência e diminuiria a incidência dos piores tipos de trolls e spams. Os dois argumentos continuam sendo válidos. Mas também há alguns contras importantes que começam a incomodar quem abraçou a caixa azul. Se aqui no Brasil ainda estamos vivendo um momento em que muitos sites estão migrando para o Face (como os esportivos da casa, Tazio, Trivela e Extratime), lá fora já está rolando o movimento contrário. Somente na última semana, o Politico, maior blog independente sobre política dos EUA e o TechCrunch, um dos primeiros a adotar o sistema, resolveram abandonar o Facebook e ir para Disqus e Livefyre, respectivamente. No Techcrunch, que abraçou o Facebook em 2011, a justificativa foi essa:

Uma hora descobrimos que a nossa tática anti-troll funcionou bem demais; os bullies e babacas sumiram da nossa seção de comentários, mas isso valeu pra todo mundo. Para ser franco, o nosso teste com os comentários do Facebook duraram tempo demais a um preço alto demais. Sim, os comentários do Facebook trouxeram tráfego extra, mas a vasta maioria dos nossos leitores claramente não sentia que o sistema era digno da interação.

Essa é a impressão que eu tenho do Facebook: ele elimina o tipo mais boçal de troll, mas não garante que a discussão seja exatamente elevada. Até porque, por mais que estejamos começando a ver quão complexa é a questão do anonimato, levar a sua mesma “identidade” para todos os lados não me parece ser uma solução necessariamente melhor. Quando eu vejo comentários assim, em sites de humor, por exemplo:

Screenshot_03_03_13_16_50

eu fico imaginando se o estudante da UNESP e o gerente na empresa Auto Peças 3G querem associar esse tipo de comentários às pessoas deles (e o que os outros leitores pensam sobre a UNESP e a Auto Peças depois de comentários assim). Eu sei que o que sai na caixa de comentários do Facebook não necessariamente vai pro perfil dele na rede social, mas de todo modo quem ficar incomodado com algum comentário está a um clique de ir lá xeretá-lo. Se estivéssemos em um mundo ideal, onde todos fossem perfeitamente educados sobre como usar os controles de privacidade, isso não seria tão problemático. Mas eu já vi mais de uma vez um estranho pular no perfil de um amigo meu depois de uma discussão mais acalorada em comentários de outro site qualquer. Como se alguém se incomodasse com o que você disse pra outra pessoa em um jantar e viesse pichar a sua casa.

Creio que jogar não só a sua identidade, mas o endereço da sua casa em outro blog pode desencorajar que expressemos algumas opiniões mais controversas. Da mesma forma que agimos de maneiras levemente diferentes com os colegas de trabalho, a família, o povo do futebol e a namorada, é lícito que queiramos separar as nossas identidades em ambientes diferentes online. Pode ser importante que o administrador do site saiba – especialmente para fins legais – quem está por trás daquele nickname, mas não sei se essa informação aberta para todo mundo é legal. Não dá para controlar o que os outros comentaristas podem fazer.

E, por último mas não menos importante, para quem é chato, há o problema de performance. Em posts onde há muitos comentários, a discussão por Facebook demora significativamente mais tempo para ser carregada. No fim, acho que em alguns casos ela pode ser melhor que os plug-ins, mas está longe do ideal.

Fórum-Kinja

Uma maneira de melhorar a conversa é dar mais poder aos comentaristas, agregando ferramentas de fórum ao site. No Verge, o sistema proprietário de comentários (pós-moderado) é relativamente simples, apesar de bastante rápido e com perfis dos usuários no próprio site. Mas ele é complementado com um sistema de fóruns interessantíssimo. Todos os comentaristas podem criar seus tópicos e se reunir em grupos como o “Android Army”, “Apple Core” ou complementar o noticiário do site em áreas deficientes, como Linux (há uma discussão interessante sobre melhores ultrabooks para o sistema open-source, por exemplo). As ferramentas para postagem são praticamente as mesmas dos jornalistas que escrevem, então é possível ver um review de usuário do Microsoft Surface ou uma discussão entre usuários de Android sobre a necessidade de smartphones menores com mais de 800 comentários.

Este é o editor de posts/comentários do Kinja.

Este é o editor de posts/comentários do Kinja.

A Gawker, grupo de mídia nos EUA que publica, entre outras coisas, o Gizmodo, Kotaku e Jalopnik originais, levou essa ideia um passo além. Eles reformularam não apenas o sistema de comentários, mas o de publicação como um todo para que tudo seja, na prática, um grande fórum com cara de blog. O sistema, batizado de Kinja, está disponível primeiro no Jalopnik, mas estará em todos os sites da casa nos EUA até o fim do próximo mês. Nas palavras de Matt Hardigree, o editor-chefe:

A nossa filosofia sempre foi de demolir os muros que separam a sabedoria convencional da verdade, o leitor do escritor, e o poderoso do curioso. Hoje nós temos uma plataforma para fazer jus a essa filosofia. Neste momento vocês tem todas as ferramentas que nós temos. [Como pode ser visto nessa telinha que capturei]

Nick Denton, o fundador da Gawker, coloca dessa forma: “A publicação de conteúdo deveria ser uma colaboração entre os autores e seus leitores mais sagazes. E em algum ponto esta distinção deveria se tornar insignificante.” O questionamento lógico que se segue é sobre o quanto que um sistema assim não é exploração de trabalho gratuito. Ao que ele responde:

Você pode me chamar de ingênuo, mas esta era a premissa original da web, o aproveitamento da inteligência coletiva. Essa premissa original foi enterrada por questionamentos sobre modelos de negócios e o engajamento falso da social media e a busca inescrupulosa de hits virais.”

Escolher o Jalopnik primeiro foi uma bela sacada, já que a comunidade lá é bastante ativa. O argumento de Nick é que em vários assuntos os leitores sabem muito mais do que os autores, e basta ir ao planelopnik, dedicado a aviões ou este tópico criado por um leitor sobre a Nascar para ver como ele tem razão. Os editores dos blogs da Gawker agora poderão também selecionar os melhores posts dos comentaristas para colocar no meio da listagem principal, aumentando o senso de comunidade. Outro detalhe bacana é que há um elemento de auto-moderação aí: o comentarista pode apagar qualquer reply a ele que achar ofensivo, de modo que os administradores só precisarão se preocupar com trolls que atacam diretamente os autores. E por fim, o sistema é também uma espécie de vestibular para escrever. Hardigree deixa claro: “Quando buscarmos a próxima geração de escritores para o nosso site, e outros sites, vamos observar quem está indo bem no Kinja”.

Dinheiro e algoritmos: os comentários do Huffington Post

Eu poderia dedicar um post inteiro ao sistema que, em dias quentes, passa de 25 mil comentários por hora e ainda assim é lindo de se ver, tem poucos trolls e conversas na maior parte civilizadas, tão ou mais interessantes que o artigo que origina. O Huffington Post é um exemplo de que quando os comentários são gerenciados com carinho e muito, muito dinheiro, o ideal de internet como praça de debates se materializa.

Na superfície, o HuffPo requer um cadastro prévio para comentários, que são pré-moderados (e liberados muito rapidamente). Para dar conta do volume, o Huffington Post tem uma equipe de 30 moderadores trabalhando para cobrir todas as horas do dia. Eles são auxiliados por um algoritmo com o simpático nome de JuLiA, exclusividade do HuffPo, que comprou a empresa detentora da tecnologia. Em uma fascinante entrevista para o Poynter, Justin Isaf, diretor de comunidades do site, explica como ela funciona:

[A Julia] lê tudo que é enviado ao HuffPo e ajuda os nossos moderadores a fazerem o trabalho mais rápido e de maneira mais precisa, permitindo pré-moderar 9,5 milhões de comentários por mês – a Julia é parte fundamental disso. Eu sou um grande fã de ter máquinas nos ajudando nas tarefas mais braçais, liberando tempo, recursos e energia do cérebro para tarefas mais complexas e interessantes. A Julia dá alguns passos além e nos ajuda em muitos dos outros aspectos do HuffPo fora o de nos livrar de membros abusivos, incluindo identificar conversas inteligentes para promover e conteúdo incompatível com nossos anunciantes. Ela permitiu a nós fazer muito mais com muito menos.

Com a ajuda da Julia, os melhores comentários são destacados e ganham posição proeminente na discussão – é quase impossível ver um primeiro comentário troll no Huffington Post, o que ajuda significativamente a melhorar o tom da discussão. Há um elemento forte de gamification3, e os comentaristas ganham insígnias dependendo do número de comentários, fãs, e contribuições relevantes à discussão. Há até níveis diferentes dentro do mesmo achievement. Um exemplo da página de perfil de um comentarista (dá até pra ver o que a pessoa leu):

Screenshot_03_03_13_17_15

Os usuários que geram as discussões mais sadias e ganham fãs também recebem poderes de moderação, ajudando ainda mais a manter os trolls de fora e fazer com que a discussão não fique off-topic. Em posts muito polêmicos, o número de comentários passa dos 50 mil, e o desafio para o leitor que quer participar é justamente achar alguma opinião que acrescente à discussão. Este pra mim é o grande trunfo do sistema: ele consegue dar destaque às contribuições realmente relevantes, e com isso os comentaristas nunca vão embora. Segundo Justin Isaf, mais da metade dos primeiros mil cadastrados no Hunffington Post continuam comentando pelo menos uma vez por semana.

E aqui?

O Oene não tem comentários hoje nem terá no próximo mês, mas nada impede que ele tenha no futuro. Este é o lugar da F451 onde podemos fazer alguns experimentos (de layout, de frequência e tamanho de posts, pautas, etc). Agora estamos fazendo este teste de incentivar que as discussões continuem nas redes particulares de cada leitor, e vimos alguns ótimos resultados. Logo no início do Oene, por exemplo, exploramos a polêmica do Silas Malafaia por alguns ângulos um pouco diferentes. E, observando a repercussão destes posts por vários lugares, do Facebook ao Fórum UOL Jogos, vi debates realmente produtivos, inclusive de gente discordando com bons argumentos, que possivelmente não avançariam tanto se ficassem só por aqui. Um leitor do Gizmodo que acha absurdo não termos comentários, por exemplo, disse que discutiu sobre o assunto com uma colega do trabalho a partir do post.

E tentei explicar para ele que isso era uma vitória. Volte às notícias sobre o assunto nos outros sites, especialmente grandes portais. Na maioria dos lugares, não havia exatamente um debate produtivo – grupos diferentes têm opiniões bastantes fortes quando a polêmica envolve por “evangélicos”, gays e genética. Então, nos comentários, o que havia era um monte de gente tentando reafirmar cada vez mais alto suas posições e preconceitos. Temos bons indícios de que comentários não-civilizados diminuem o nível de compreensão do leitor sobre a reportagem, e em alguns temas mais sensíveis, talvez o mais desejável seja guardar o seu comentário para, em vez de despejá-lo em uma caixinha, discutir com as pessoas que são um pouco mais próximas. Se elas discordarem da gente pelo menos serão um pouco mais educadas, e estaremos mais dispostos a ouvir.

url-1

Se queremos exclusivamente debater, há algumas plataformas específicas para isso. Tenho visto um certo ressurgimento de grupos de email no meu círculo, alguns grupos do Facebook com conversas interessantes e sites feitos para discussão apenas, como o gdgt ou, talvez o mais proeminente deles, o Quora, que reúne gente gabaritada para debater qualquer coisa. Ironicamente, a decisão de mudar o sistema de comentários do TechCrunch, por exemplo, foi discutida de maneira mais interessante no Quora do que no próprio TechCrunch. E há ainda sites que por natureza publicam várias opiniões divergentes sobre o mesmo assunto justamente para incitar o debate (o Papo de Homem seria o melhor exemplo disso, o próprio Jalopnik Brasil faz um pouco). Enfim: lugar pra debater publicamente com estranhos não falta.

Apesar de gostar do modelo do Huffington Post e ver potencial no Kinja, não acho que exista uma única fórmula aplicável a todos os sites. Também não acho que comentários sejam um “direito inviolável”4: muitos jornais no mundo desligam comentários em reportagens mais sensíveis, como as que envolvem crimes brutais. Não há motivo de comentar ali e ler as barbaridades não melhora a vida de qualquer pessoa. Em outros momentos, a briga entre comentaristas é tão generalizada e sem sentido que faz sentido para o administrador desligar os comentários até todo mundo esfriar os ânimos. Isso pode ou não ter a ver com a postura do blogueiro – alguns assuntos infelizmente despertam instintos agressivos em muita gente.

O importante é que continuemos usando a internet para melhorar o nosso entendimento do mundo, discutir assuntos, questionar opiniões. E isso, como espero ter ajudado a demonstrar, pode ser feito de mil maneiras. Entenda este post como um grande comentário que você pode responder onde quiser. E se quiser conversar diretamente comigo, enquanto não arrumamos uma caixinha aí pra baixo, mande um email para [email protected].

Achou interessante? Você pode gostar também destes posts:

Por que não há comentários no Oene
Bem-vindo ao Oene
Podemos voltar a falar com desconhecidos na internet?
O que podemos aprender com a onda de petições online
Combatendo o bullying na internet com algoritmos


  1. O Metafilter teve uma bela ideia para matar, além dos trolls, os spammers. Depois de se cadastrar no site e assinar, é preciso esperar uma semana até ter o acesso liberado. A regra é clara: “Se você se cadastrar para uma conta para anunciar o seu produto, agir que nem um babaca ou fazer coisas que vão contra as regras de conduta você será chutado e não haverá dinheiro de volta”. 
  2. No Gizmodo, o Leo desabilitou o “polegar pra cima” (e explicou o motivo neste post). O número de comentários que eram piadas ou provocações de uma linha, especialmente com uma foto, diminuiu consideravelmente. Talvez a regra não se aplique para todas as comunidades e todos os conteúdos, mas ali a minha impressão é que o resultado foi positivo. 
  3. O FAQ sobre comentários do Huffington Post é o mais completo que existe. A explicação dos poderes desbloqueados pelo achievement super usuário nível 2 mostra que a vida de comentarista pode ser um videogame. 
  4. O Tumblr, como falei no outro post, foi criado sem comentários e mesmo assim é das redes sociais que mais crescem. A lógica – que eu vi bastante repetida por aí depois da estréia do Oene – de que um post sem espaço para comentários tem necessariamente menos valor me faz temer pelo futuro dos livros. 
some random quote lost in here.